O Brasil é negro. Vancouver celebra a música brasileira através do olhar estrangeiro.


A cidade das capas de chuva e do maior set de filmagem hollywodiano fora dos Estados Unidos, a cidade de Vancouver no Canadá, fez uma homenagem especial à música brasileira. Ela ocupou um lugar de honra no 24o. Festival Internacional de Cinema de Vancouver com uma sessão especial intitulada Brazilian Music com a apresentação de cinco filmes documentários. Curioso é que nenhum dos filmes é dirigido por um brasileiro.

Os cincos documentários ficaram entre os quinze melhores filmes do Festival segundo o público, além de terem lotação esgotada em suas apresentações.

Entre os cineastas estrangeiros que focaram suas lentes na música e na cultura negra brasileira está o premiado diretor de Belle Époque (protagonizado por Penélope Cruz), o espanhol Fernando Trueba. Em “O milagre do candeal”, Trueba mostra um encontro emocionante entre o pianista cubano Bebo Valdès com a nova geração de músicos do Candeal, bairro pobre de Salvador, onde Carlinhos Brown desenvolve um projeto de educação e integração de jovens com a música. Outros artistas fazem participações especiais em duetos com o músico cubano como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Marisa Monte. As conversas entre Valdès e o pesquisador da música negra baiana Mateus Aleluia são verdadeiras aulas sobre a influência negra na cultura brasileira. O tom quase “didático” está presente em outras seqüências como aquelas em que os moradores do bairro repetem diálogos ensaiados sobre a participação comunitária ou o dever cívico dos moradores.

A força e a originalidade do documentário são os encontros musicais. Eles rendem momentos únicos e memoráveis, onde a tradição cubana se entrelaça com a cultura brasileira promovendo uma interação musical poucas vezes vistas no cinema. Um destaque é o encontro de Valdès com o conjunto jovem de hip hop do Candeal. “Este será um momento que lembrarei por toda a minha vida” diz emocionado o velho músico cubano.

“Mesmo que as pessoas não conheçam a música brasileira elas ficam extasiadas pela força expressiva de Maria Bethânia” declarou o diretor suíço Georges Gachot, presente no Festival. O filme “Maria Bethânia: música é perfume” recebeu ótimos comentários tanto por parte dos brasileiros quanto dos estrangeiros. O documentário é centrado na palavra e no canto da artista. Mas, algumas das seqüências que mais chamam a atenção são as desconcertantes e descaracterizadas imagens do Brasil, principalmente quando ele mostra as pessoas nas ruas de Salvador, Rio e Santo Amaro. Gachot filma o Brasil de uma maneira bastante desglamourizada, um olhar completamente inesperado vindo de um diretor estrangeiro.

Sua câmera foca em close os gestos largos de Bethânia e a acompanha no seu minucioso trabalho de composição dos arranjos e gravações das músicas. Aliás, este é o ponto central do filme: a música. Mais do que falar sobre sua vida, a cantora fala do seu ofício e da sua voz. Ofício que diz ser um presente de Deus. “Minha voz me habita”, diz a cantora. O que a fascina é o encontro com o público onde ela busca a emoção e o toque através do canto. O negro é parte essencial no discurso de Bethânia e as imagens de rua adquirem uma importância fundamental para o documentário.

Outros diretores estrangeiros que focam suas lentes na música e na realidade brasileira são os americanos Jeff Zimbalist e Matt Mochary. Eles vão aos morros cariocas para desvendar qual o som que a favela produz. “Favela Rising” busca entender a música que a violência urbana e a pobreza brasileira originam enquanto manifestação cultural. O resultado é espantoso quando eles vêem que através da música existe uma forte resistência à dita resignação da violência nas favelas cariocas. Eles acompanham o jovem Anderson Sa que em companhia de amigos criam o movimento Afroreggae na comunidade do Vigário Geral, uma das favelas mais violentas do Rio de Janeiro. Os diretores manuseiam uma câmera ágil com uma fotografia contrastada e um tratamento da imagem digital poucas vezes visto. A narrativa e de tirar o fôlego e a histórica violência carioca fica ainda mais evidente através do olhar desses dois americanos. O filme conseguiu a façanha de ganhar o premio de melhor diretor no prestigiado festival novaiorquino Tribeca do ator americano Robert De Niro. O filme chega à São Paulo para participar da Mostra Internacional.



A grande surpresa é o chorinho do finlandês radicado no Brasil Mika Kaurismäki no documentário “Brasileirinho”. O filme pode até ser convencional na forma, com narração informativa e legendas com nomes dos artistas e títulos das canções. Mas, a música apresentada no filme foi uma verdadeira novidade no Festival. Artistas como Yamandú Costa, Guinga ou o Trio Madeira do Brasil são verdadeiras descobertas. Narrado em forma de entrevistas e diálogos o documentário acompanha os músicos do Trio que preparam um show especial em Niterói. Entre os seus convidados estão ainda outros nomes não menos desconhecidos do grande público como Zé da Velha e seu aprendiz, o garoto do interior do Rio batizado como Zé da Nova ou as cantoras Zezé Gonzaga e Teresa Cristina. Nomes consagrados também fazem a sua homenagem ao choro como o clarinetista Paulo Moura, Elza Soares e Ademilde Fonseca.

O chorinho é a musica brasileira por excelência, dizem músicos como Mauricio Carrilho e Luciana Rabelo. E se algum instrumentista quiser aprender a música brasileira de maneira escolar, ele deve aprender o chorinho, pela sua complexidade harmoniosa e sua virtuosidade técnica. O chorinho não tem igual em nenhuma parte do mundo e se originou das três bases da cultura brasileira: a européia, a africana e a índia.

“Tudo Azul” de Jesse Azedo é como o próprio diretor define um mergulho na musicalidade negra brasileira, e principalmente uma homenagem à cantora baiana Virgínia Rodrigues. Mexicano radicado nos Estados Unidos o diretor faz uma viagem da Bahia ao Rio em busca das raízes do ritmo negro. O filme se constrói à partir de entrevistas de personalidades que relatam e explica a inserção e a força da cultura negra na música e na sociedade brasileira. Desfilam diante de suas lentes instrumentistas e cantores desconhecidos como famosos como Caetano Veloso ou personalidades como Fernanda Montenegro. O filme é bastante bonito, mas peca pelas generalizações dos depoimentos quando extrapola na tentativa de explicar a situação atual do povo brasileiro. Os exemplos das músicas e dos ritmos não acompanham ao didatismo da narrativa. A primeira parte do documentário se situa na Bahia e a segunda parte no Rio de Janeiro, quando o cineasta acompanha as integrantes da Velha Guarda nos preparativos para o desfile da Portela.

Foram apresentados dois filmes brasileiros na mostra Cinema de Nosso Tempo, o descepcionante-mas-bonito Cafundó de Paulo Betti e Clovis Bueno e o documentário Estamira de Marcos Prado.

Foram mais de 300 produções com sessões de manhã à noite exibindo filmes de várias partes do mundo. O Festival bateu recorde de público com mais de 150 mil ingressos vendidos. O grande vencedor do júri popular foi o franco-israelense Va, Vis et deviens de Rahu Mihaileanu. Entre os filmes de maior sucesso do Festival estão o canadense C.R.A.Z.Y. de Jean-Marc Vallée, um retrato forte e emocionante de um jovem dos anos 70 na sua tentativa de auto-afirmação sexual frente ao seu pai e a espiritualidade de sua mãe. E, o documentário State of Fear dos americanos Pamela Yates e Peter Kinoy faz um retrospecto dos últimos anos da vida política do Peru, desde o aparecimento do grupo armado Cendero Luminoso.

Vejam nas próximas edições entrevistas exclusivas com Jean-Marc Vallée e Peter Kinoy. Além das entrevistas com o diretor português João Pedro Rodrigues do filme Odete e do diretor de Maria Bethânia, o documentarista suíço-francês Georges Gachot.

O prêmio de melhor documentário do Ofício Nacional do Filme do Canadá foi para o italiano A Particular Silence de Stefano Rulli. A chinesa Liu Jiayin ganhou o prêmio da mostra Dragons & Tigers pelo seu filme Ox Hide.

Entre os filmes canadenses os destaques vão para La Neuvaine de Bernard Émond e Water de Deepa Mehta.

Entre os latino-americanos estão dois excelentes filmes argentinos que ganharam a atenção do público, o lindíssimo Roma de Adolfo Aristarain e El Método de Marcelo Piñeyro, o mesmo diretor de Plata Quemada. O filme chileno Play de Alicia Scherson todo feito em digital e Noticias Lejanas do mexicano Ricardo Benet também merecem destaque.

Não deixaram de participar os premiados de outros festivais como o excelente Caché de Michael Haneke, os dois dogmas Dear Wendy de Thomas Vinterberg e Manderlay de Lars Von Trier, e encerrando a maratona cinematográfica em Vancouver, L’Enfant dos irmãos Dardenne, grande vencedor do Festival de Cannes 2005.

Hudson Moura
convidado do Festival