Uma explosão de vida

Suely Fenerich

Não é impossível que alguém que conheça Jerusa Pires Ferreira como professora e pesquisadora se refira a ela como uma explosão de vivacidade, de vitalidade, de amor à cultura brasileira, ou melhor, à cultura. Tanto entre seus colegas de profissão e seus alunos, quanto artistas de todos os naipes que convida para depor a respeito do seu trabalho em seus cursos e no próprio Núcleo de Poéticas da Oralidade, Jerusa é reconhecida como autoridade no seu métier. Profunda conhecedora de nossa cultura, ela personaliza também a própria idéia de modernidade, de desterritorialização ou mesmo de oralidade de que nos fala Paul Zumthor, medievalista suíço-canadense cujo pensamento ela tem traduzido e divulgado no Brasil.

Quando conheci Jerusa, há cerca de vinte anos, fiquei impressionada com o vigor de suas palavras, da sinceridade e seriedade de seu discurso constante e apaixonado a respeito da cultura, o fenômeno, talvez, fundamental por excelência do ser humano.
Cheguei até ela atraída por este conjunto de qualidades, num de seus cursos de pós-graduação, ainda na ECA-USP. Década de 80, primeiros anos. Foi uma época muito agitada, quando ela promovia eventos e debates, como por exemplo um seminário sobre o Obsceno, com exposição de obras e depoimentos de artistas e professores da própria ECA, que culminou com a publicação do livro Jornadas Impertinentes - O Obsceno, pelas editoras Intercom, Fapesp e Hucitec. Refletíamos sobre o folhetim, com Marlyse Méier, sobre Os Sertões e Euclides de Cunha, com Luís Roberto Alves, indicados por ela. Jerusa desenvolveu pesquisas e publicou textos interessantes e raros como a respeito das editoras de livros de cordel, na coleção Editando o editor, pela Edusp.

Bem mais tarde, fins de 90, fui convidada a participar do Núcleo de Poéticas da Oralidade, que ela estava formando no Departamento de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC de São Paulo. E, como divulga autores estrangeiros que lhe pareçam bastante importantes, desenvolve também a tradução, às vezes em parceria com algum de seus alunos. Foi o meu caso. Temos feito tradução de Paul Zumthor, de Meschonnic entre outros, do que muito me orgulho e que desenvolvo com o maior prazer, em companhia tão estimulante.

Na avaliação de qualquer fato cultural, Jerusa atravessa o enigma dos tempos, a espessa cortina que delimita as fronteiras entre os países e consegue localizá-lo de forma absolutamente rica. A partir do inevitável processo da globalização, ela não admite que a cultura possa ser encarada de maneira unilateral. Assim, é conectada com professores de diversas partes do mundo e está sempre entre viagens proferindo palestras, participando de encontros e debates. Haja vista sua ligação com universidades da França, do Canadá, da Espanha, da Alemanha, da Itália, de Portugal e da Índia.
É neste diapasão alentador que ela vem levando seus orientandos a verificar os fenômenos locais, estabelecendo uma ponte intercultural entre o aqui e o acolá.

Suely Fenerich é jornalista e tradutora de textos do escritor e medievista suíço-canadense Paul Zumthor: Performance, Recepção, Leitura (Educ, 2000) e Politiques de l’oubli (Hucitec, 1996) em colaboração com Jerusa Pires Ferreira.



A Revista Intermidias.Com em parceria com o Núcleo de Poéticas da Oralidade organiza um dossiê sobre a vida e obra da professora, ensaísta e pesquisadora Jerusa Pires Ferreira. Bacharel em Letras e Mestre em História Social pela UFBA, Doutora em Sociologia e Livre-Docente em Comunicação pela USP. Em 36 seis anos de magistério, a professora já orientou mais de sessenta pesquisas de mestrado, doutorado e pós-doutorado. Atualmente ensina na Escola de Comunicação e Artes da USP e no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Como professora convidada ministrou cursos nas universidades de Moscou na Rússia, de Calgary e de Ottawa no Canadá, na Brown University nos Estados Unidos, e na Universidade Autônoma de Barcelona. Desde 1999 é professora convidada regular na Universidade de Limoges na França. Há doze anos coordena o Centro de Estudos da Oralidade na PUC-SP, onde organizou mais de dez colóquios e seminários internacionais. Publicou sete livros entre os quais Armadilhas da Memória (Casa de Jorge Amado 1991/Ateliê 2004), Cavalaria em Cordel (Hucitec 1979/1993), O livro de São Cipriano (Prêmio Jabuti – Perspectiva 1992) e Matrizes Impressas do Oral (a sair pela Perspectiva). É pioneira no trabalho de divulgação e estudo da obra do medievista suíço-canadense Paul Zumthor sobre oralidade, de quem traduziu inúmeros livros entre os quais A Letra e a Voz (com Amalio Pinheiro) e Escritura e Nomadismo (com Sonia Queiroz), além de ter organizado uma coletânea em sua homenagem, Oralidade em Tempo e Espaço (Educ/Fapesp). Coordena a coleção Editando o Editor, onde já enfocou o trabalho de Jorge Zahar, Jacob Guinsburg, Ênio Silveira, entre outros. Como ensaísta e pesquisadora publicou centenas de artigos em livros, jornais e revistas nacionais e internacionais e apresentou inúmeras conferências no Brasil e no exterior. Suas pesquisas se concentram sobre oralidade, memória, cultura midiática, conto popular, literatura de cordel, novela de cavalaria entre outros temas que concernem à literatura, às artes e à comunicação.