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A intimidade é pública
em Big Brother Brasil:
reflexões sobre os limites entre o público e o privado
Soleni Fressato
“Lar doce lar”. Espaço de descanso, de reflexão
e de liberdade. Onde as pessoas podem ser elas mesmas. Onde organizam seus
pensamentos e avaliam suas atitudes. Onde “recarregam suas baterias” para
os momentos fora do lar. Onde apenas os convidados, escolhidos a dedo, podem
entrar. Na atualidade, o espaço doméstico é cada vez
mais requisitado e almejado. Ele é o símbolo da privacidade
e da intimidade.
Mas se a privacidade torna-se cada vez mais almejada e necessária,
um programa de televisão, que vem atraindo cada vez mais participantes
e voyers, desafia os limites entre o público e o privado. Estou me
referindo ao Big Brother Brasil programa da Rede Globo apresentado por Pedro
Bial, que em 2005 teve a sua quinta versão.
Questões sobre a veracidade da privacidade em Big Brother já foram
discutidas em inúmeros artigos. Muitos defendem que o programa não
passa de uma intimidade encenada, onde “pessoas comuns” são
transformadas em atores e representam uma vida privada, não a vivendo
de fato. Outro fator importante é a seleção das imagens.
A grande maioria do público não acompanha o programa 24 horas
por dia, e sim apenas os flashes durante a programação da emissora,
ou então, em seu horário específico após a novela
das 20h30 ou do programa Fantástico. Essas imagens são escolhidas,
fazendo com que o espectador crie uma imagem de cada um dos participantes,
que pode não condizer com a sua personalidade. Os pesquisadores e
estudiosos do audiovisual já sabem que essa seleção
afeta todo o significado da mensagem. Enfim, o que chega até a maioria
dos espectadores são cenas privativas que transmitem uma idéia
que se quer perpetuar do programa.
Apesar da pertinência dessas considerações, elas não
serão abordadas neste breve ensaio, que tem por objetivo refletir
sobre os limites entre o público e o privado, tendo como base o programa
Big Brother Brasil.
A emergência
da privacidade
Em seus estudos sobre a privacidade em Paris, Roger Chartier (1991) afirma
que, entre os séculos XVI e XVIII, a necessidade de individualidade
surgiu da falta de limites entre a vida pública e a vida privada.
Esse limite se configurava como uma “fronteira móvel”.
A vida familiar era “aberta” a todos os vizinhos, as casas
prolongavam-se até a rua, onde eram desenvolvidas atividades profissionais
e domésticas. Problemas familiares eram resolvidos em comunidade,
desde simples brigas de casal, até mesmo, questões de traição
ou de posicionamento incorreto do meio eclesiástico. A vida particular
possuía, assim, um controle social rigoroso. A vida era pública
não apenas para as pessoas mais simples, o próprio soberano
possuía uma vida particular restrita. Somente em momentos específicos
recolhia-se a um lugar de refúgio, onde somente as pessoas mais íntimas
e se convidadas poderiam entrar. A corte sempre companheira do soberano
em raras vezes buscava o anonimato e a individualidade em Paris.
Essas situações marcaram o início de um individualismo
crescente e a necessidade cada vez maior da vida privada. Assim, no final
do século XVIII e início do século XIX, continua Chartier,
com a emergência da classe burguesa, a necessidade de individualidade,
a escolha de grupos de convívio e a valorização da família
aumentaram. A passagem desses séculos foi determinante para a divisão
definitiva entre o público e o privado. O período da Revolução
Francesa fez com que as pessoas se recolhessem em suas casas, estreitando
os laços familiares, as ruas eram perigosas e violentas. Além
disso, a conduta e o discurso tornaram-se duplos: em público a linguagem
deveria ser patriótica, de um verdadeiro cidadão; no seio familiar
a vida e os bens deveriam ser preservados. Dessa forma, configurou-se uma
vida dupla, nem todas as atitudes seriam toleradas e aceitas em público,
onde a conduta deveria ser mais polida e educada, enquanto que, recolhido
no espaço familiar (privado) seria permitido um comportamento mais
simples e informal.
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Essa estabilidade e honra familiar, essa separação entre
o público e o privado, a qualquer momento podia ser afetada pela invasão
do coletivo. Era necessário garantir a liberdade e individualidade
da família e do indivíduo dentro dela. Somente o Estado poderia
garantir essa proteção. Os laços de amizade entre as
famílias foram rompidos, o outro se transformou em ameaça para
o individualismo e o melhor amigo tornou-se o Estado. Assim, ocorreu uma
nítida distinção entre o público e o privado.
As questões familiares passaram a ser resolvidas na própria
família, enquanto que, as questões que extrapolavam o familiar
passaram a ser resolvidas pelo Estado, que protegia a família e tornava-se
cada vez mais reconhecido no interior dela. Devido a essa separação
entre a família e a comunidade, intermediada pela proteção
do Estado, Chartier denominou seu texto de A comunidade, o Estado e a família;
trajetórias e tensões.
A partir dessas afirmações de Chartier, é interessante
refletir sobre as dimensões que a privacidade adquiriu na atualidade.
Se no século XVIII o espaço de privacidade era o familiar,
atualmente, no início do século XXI, a privacidade é individual.
A arquitetura das residências revela, e muito bem, essa situação.
Os quartos que eram únicos, onde dormiam pais e filhos, lentamente
foram transformados nos quartos do casal e dos filhos. Mais tarde, um quarto
específico para as filhas e outro para os filhos. Finalmente quartos
individuais, um para cada membro da família, apenas o casal (e convém
lembrar que não em todos os casos) permanece compartilhando o mesmo
aposento. Pais e irmãos não entram no quarto alheio sem antes
dar um sinal, com uma “batidinha” na porta. A necessidade de
intimidade entre os próprios membros da família fez com que
todos os quartos iniciem e terminem (e com ele a privacidade), num único
espaço: o corredor.
Se no século XVIII, com a Revolução Francesa, os parisienses
passaram a ter um comportamento duplo, atualmente o comportamento no seio
familiar é mais impessoal do que no espaço público,
no entanto, somente sozinhos recolhidos em seus quartos, existe a plena liberdade,
onde se encontra o auge da privacidade. Convém lembrar, também,
o grande número de pessoas que buscam morar sozinhas, e cada vez mais
jovens. Homens ou mulheres, o que querem é expandir sua privacidade
para todos os cômodos da casa.
A privacidade em Big Brother Brasil
Os limites entre o público e o privado são desafiados em Big
Brother Brasil. Como em outros Reality Show, participantes, até então
desconhecidos, compartilham sua intimidade, não apenas entre eles, mas
com milhares de espectadores. Na casa da versão brasileira existem câmeras
em todos os cômodos, inclusive no jardim, para que não se perca
nenhum participante de vista, 24 horas por dia. Partilham o mesmo quarto, o
mesmo banheiro, a mesma cozinha. Nessa última versão de Big Brother,
a pouca privacidade reduziu-se: os participantes, por escolha dos espectadores,
durante três dias, tiveram que viver unidos a um colega, por uma nada
sutil coleira rosa. Se já eram acompanhados pelos espectadores e partilhavam
sua intimidade com os outros participantes da casa, durante esses dias, o que
um fazia, o outro obrigatoriamente deveria fazer junto, a privacidade era inexistente.
Mesmo que o programa aconteça num “espaço doméstico” (uma
casa), os seus participantes não formam uma família, se bem que
ao longo do convívio surjam afinidades e rivalidades entre eles, como
em qualquer família. Como também, apesar de transformarem a casa
do programa em “suas casas”, pelo fato de saberem que são “espiados” o
tempo todo, o comportamento dos participantes não é o mesmo que
teriam em seu seio familiar, ou seja, um comportamento tipicamente do espaço
privado, antes é um comportamento próprio do espaço público.
Somente ao longo do programa, com a necessidade da privacidade e o próprio
envolvimento entre os participantes, faz com que tenham um comportamento mais
próximo do privado, mas ainda não o é de todo.
A intimidade, ou melhor a falta dela, é o ponto central em Big Brother:
a sua exibição, as tensões que a falta dela geram, a busca
por ela (mesmo num espaço vigiado). Essa situação acaba
por atrair o telespectador, que em sua privacidade quer vislumbrar a intimidade
alheia. Esse desafio aos limites entre o público e o privado, para descontentamento
dos mais conservadores e dos estudiosos da indústria cultural, é o
que transforma o programa num sucesso. E como numa sociedade capitalista tudo é passível
de tornar-se uma mercadoria e, por conseqüência, ter um preço,
a privacidade custa um milhão de reais, quantia nada desprezível,
e de brinde a fama instantânea.
Bibliografia citada
CHARTIER, R. et al. A Comunidade, o Estado e a Família: Trajetórias
e Tensões. In: ARIÈS, Philippe & CHARTIER, Roger (orgs.)
História da Vida Privada: da Renascença ao Século das
Luzes. V. 3. São Paulo: Cia das Letras, 1991.
Soleni Fressato é mestre em História pela Universidade Federal
do Paraná e doutoranda em Sociologia no Programa de Pós-Graduação
em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia, com o tema: a
representação da cultura popular rural no cinema de Mazzaropi.
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