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A transmissão ao vivo como marca de criação das celebridades
instantâneas e do mais genuíno programa televisivo: o reality
show.
Jussara Penha Batista
O B.B.B. – Big Brother Brasil – virou mania entre os telespectadores
brasileiros, o programa chega a atingir média de 60 pontos de audiência.
A explosão de popularidade, também se repete na internet. O
site do programa bateu recordes e chegou a ter 1.185.000 de visitantes por
mês, quando o programa estava no ar.

Apesar das críticas que tem recebido, esse formato de programa televisivo é cada
vez mais popular e, ele deve ser considerado, merecendo por parte dos profissionais
da comunicação outras análises no que se refere a sua
linguagem e interatividade com o público.
Outro aspecto que merece destaque ao analisarmos a tevê atual se refere
a como este meio de comunicação se transformou em uma fábrica
de sonhos e de eventuais possibilidades de sucesso social e financeiro, haja
vista, os programas neles veiculados, onde todos os sonhos podem ser realizados.
Um exemplo bem ilustrativo podemos encontrar no programa “Show do Milhão” que
levou milhões de pessoas a adquirirem a revista do SBT, no sonho de
um dia serem chamadas para responderem as perguntas que na verdade eram “dirigidas” de
acordo com a capacidade de cada participante.
No que diz respeito ao papel decisivo que a televisão tomou tornando-se
um dos veículos de comunicação dominante que se sobrepôs
a outros meios e que os faz subordinarem-se a sua linguagem. Percebemos isto
quando somos informados vagamente de um fato relevante ocorrido, comentado
por uma ou mais pessoas, procuramos o noticiário da televisão,
sem cogitar em procurar ouvir a notícia no jornal ou no rádio,
somente quando a televisão anuncia aquela notícia que muitas
vezes chegamos a procurá-la, passando por vários canais é que
nos damos por satisfeitos.
Tal postura que considera os acontecimentos realmente verídicos após
sua veiculação televisiva pode ser explicada entre outros argumentos
a partir do quanto a tevê nos aproxima dos fatos através das
imagens, e que essa forma de comunicação através da
imagem encontra respaldo histórico e cultural, como lembra Eco citado
por Aranha (1998, p.215) “A imagem é o resumo visível
e indiscutível de uma série de conclusões a que se chegou
através da elaboração da cultura, podendo substituir
qualquer palavra”.
Ao ligar o aparelho, justamente no horário disponível para
a maioria, os horários nobres (entre 19 e 22 horas), são as
novelas que imperam soberanas. Os telespectadores vêem-nas em diferentes
canais com variados temas, sendo muito bem produzidas já que muitas
delas são produtos de exportação.
Artistas inteligentemente escolhidos são os protagonistas dos episódios
levados à telinha. Os temas envolventes, figurinos, paisagens, tudo
para absorver a atenção do público em detrimento aos
eventos sociais. Segundo Marcondes Filho
As pessoas
ligam a televisão e acompanham com uma assiduidade quase
religiosa os capítulos das telenovelas. Assistem regularmente cada
novo episódio, todas as noites, com exceção dos domingos,
mas sem cancelar feriados, Natal, Carnaval ou qualquer outra data universal
de guarda. A novela é tão cotidiana quanto a própria
vida. As pessoas acompanham-na e depois passam o resto do dia pensando nela,
para depois vê-la outra vez no dia seguinte. Tornou-se um componente
necessário da existência, uma espécie de preenchimento
da necessidade da vivência (1994, p. 40).
O público estabelece um canal de comunicação e interesse
homogêneo, pois quando vai falar de televisão, verifica que
o interlocutor fala a mesma linguagem, o mesmo tema, a mesma telenovela.
A telenovela descortina um novo mundo para o telespectador. A monotonia marcada
pelo cotidiano é pelo menos esquecida durante os momentos em que se
assiste a novela de sua preferência. O mundo irreal fabricado pela
televisão opera uma quase transição, um sonho que nem
todos, mas alguns telespectadores vivem naquele momento.
Entretanto, é importante consideramos ainda que nas grandes metrópoles,
por uma série de fatores, como violência, transportes, grandes
distâncias, entre outros, o convívio social é dificultado
fazendo com que as pessoas, privadas desse meio de comunicação,
tendam a se apegar a algo que substitua esse convívio social, já que
o homem, por natureza, não gosta de isolamento. Este fator de necessidade
natural do homem por contato com outros explica o grande índice de
audiência das telenovelas que cumprem entre outras coisas o papel de
suprir este vazio.
Mas a linguagem televisiva atinge também outros meios como os jornais
impressos, muitos deles já puseram em prática uma reformulação
visual, colorindo suas páginas para melhorar a aparência, contratando
uma pessoa para criticar as matérias veiculadas, no caso o “ombudsman” e
estabelecendo o Manual de Redação para que os jornalistas redijam
dentro daquelas normativas, buscando assim adaptar-se as exigências
do público.
Embora a tevê tente de diversas maneiras mostrar-se como um veículo
que apresenta o mundo real, através de um olhar neutro, o imparcial nem
sempre é possível e verdadeiro, conforme afirma Marcondes Filho
ao ressaltar os fatos relatados pela tevê:
O chamado “real”, como se vê, já não existe mais.
Aquilo que se passa nas ruas, que tem efeito de repercussão, impacto,
envolvimento na opinião pública é totalmente reformulado,
rearranjado e montado em estúdio de televisão de maneira que se
construa a partir daí um novo tipo de ficção, um novo tipo
de fábula (1994, p. 55).
Apesar de tais
considerações, Wilson Dizard Jr ao abordar
a influência da tevê a despeito das novas tecnologias de comunicação
que vem surgindo conclui:
Em suma,
a televisão continua a exercer poderosa influência,
a despeito dos desafios impostos pelas novas tecnologias. Com quase 3.000
pontos de transmissão de todos os tipos chegando aos lares americanos,
ela só é superada pelo rádio como veículo de
massa mais disponível. O declínio do seu público telespectador
está se nivelando após as quedas vertiginosas sofridas nos últimos
anos. No final dos anos 90, os telespectadores domésticos aumentarão
em números reais para cerca de 100 milhões, 10 milhões
acima dos números do final dos anos 80 (2000, p. 127).
É a grande influência da tevê na opinião do povo
e mais na manutenção das políticas de governo dos países
citados como exemplo, que na guerra contra o Iraque vimos que uma das primeiras
medidas das forças de coalizão foi destruir o canal de televisão
estatal, a fim de que Sadam Hussein ficasse “isolado” de seu
povo. Qualquer evento importante, qualquer mensagem de um presidente, qualquer
campanha para produzir efeito, até mesmo a de vacinação,
tudo gira em torno dos informes veiculados pela televisão.
Há inúmeras discussões sobre se a televisão e
os outros meios de comunicação de massa são um bem ou
um mal. De um lado, coloca-se o seu caráter de democratização
da cultura e da informação, uma vez que é acessível
a todos principalmente num país pobre e iletrado como o Brasil; por
outro lado, discute-se a sua função alienadora e de formação
da opinião pública, sendo um agente manipulador, aproveitando-se
da natureza emocional, intuitiva e irreflexiva da comunicação
por imagens.
Transmissão
Ao Vivo
Atualmente a
televisão, com uma programação variada
e mesclada de uma exuberância de programas que vão de noticiários,
filmes esportes, novelas, programas culturais, infantis, científicos
etc., proporciona ao telespectador a comodidade de assistir aquilo que “preferir”.
Segundo o autor Arlindo Machado (2000, p.125), no livro A televisão
levada a sério, a transmissão ao vivo pela televisão,
dentre todas as possibilidades, é a que marca mais profundamente as
experiências pela qual passou, já que nasceu ao vivo, desenvolveu-se
e continua sendo nos tempos atuais o meio mais importante de transmissão
dentro do universo do audiovisual. Segundo o autor, a principal atividade induzida
pela televisão dentro do campo de imagens técnicas, sempre foi
a operação em tempo presente.
As únicas formas de expressão que atuavam ao vivo, antes do advento
da televisão, eram as artes em atuação (balé, teatro
e outros similares), nas quais os artistas encenavam de corpo presente diante
da platéia.
Um filme, uma fotografia, o disco e o rádio entre outros recursos similares
constituíam em uma recordação de fatos que teriam acontecido
e que no momento da exibição já eram coisa passada.
Machado (2000) ressalta que o traço distintivo da transmissão
direta está na possibilidade do registro da visualização
e da audição simultânea de determinado espetáculo,
mesmo por espectadores que estão situados em lugares muito distantes
dos eventos que estão acontecendo e transmitidos naquele momento, descontando
um breve atraso tecnológico, cuja diferença pode ser desconsiderada. É sem
sombra de dúvidas a transmissão preferida pela maioria do público
em virtude da realidade consistente daquilo que está sendo mostrado,
totalmente isenta de truques de montagens e ilusões técnicas
já sabidas pelos amantes das imagens veiculadas pelo sistema.
No entanto, em decorrência da multiplicidade de programas, nem tudo que
vai ao ar é transmitido ao vivo.
A transmissão direta dá modelo de produção para
toda a programação da televisão. De fato, grande parte
da programação televisual, mesmo daquela que é gravada
previamente para posterior emissão, incorpora em sua matéria
boa parte dos traços da transmissão ao vivo (Machado, 2000
p. 126).
Citam-se, nesse
caso, programas que são retornados com características
de “ao vivo” aqueles em que artistas contratados por emissoras
de programas de humor duvidoso, abordam pessoas descontraídas passando
livremente pelas calçadas das ruas, para serem filmadas em pegadinhas
de diversas modalidades, sem que estas saibam que estão sendo filmadas.
Nesse caso, por precaução e porque não dizer também
por questão de ética, as emissoras buscam a concordância
dessas pessoas para, então, veicularem o que foi gravado. Machado
destaca que “em geral os programas são pré-gravados não
para possibilitar uma edição posterior ou maior controle dos
resultados, mas por comodidade técnica ou mesmo por razões
econômicas e institucionais” (2000, p. 126). Entende-se por comodidade
técnica uma série de procedimentos no processo de gravação,
incluindo aí a decupagem, visando à emissão de um programa
de qualidade sem surpresas desagradáveis que podem ocorrer na transmissão
ao vivo.
No entanto
mesmo esses programas pré-gravados são produzidos
e editados nas mesmas circunstâncias que os programas ao vivo (portanto,
em tempo presente), ou em condições muito próximas dele.
Por conseqüência as características básicas do programa
ao vivo parecem contaminar o restante da programação televisual
e imprimir as suas marcas de atualidade até mesmo nos produtos pré-gravados
(Machado, 2000, p. 126).
Talvez para ser objeto de maior atração, existem programas
que deixam dúvida ao telespectador, notadamente os de auditório
que são gravados e simulam ao vivo. Citamos como exemplo “Silvio
Santos” desejando um feliz natal, em programa veiculado no dia 27 de
dezembro.
Embora a
transmissão direta propriamente dita seja uma experiência
fenomenológica específica, imprevisível e irrepetível
o seu registro em fita magnética ainda guarda parte das marcas de
incompletude e de intervenção do acaso impossíveis de
encontrar em trabalhos realizados em outras situações produtivas
(Machado, 2000, p. 126).
Por conseqüência, nada mais real existe ou equipara-se à transmissão
ao vivo, porque retrata um momento específico, que embora gravado,
ninguém produziria similar, mesmo que munido da mais alta tecnologia
disponível aos profissionais da área.
No limite,
até mesmo seriado e novelas, em que as convenções
narrativas de certa forma impõem pelo menos um rascunho de decupagem
e montagem, não estão inteiramente livres da influência
do tempo presente. Tais programas são gravados com apenas alguns dias
de antecedência em relação à emissão e
simultaneamente com andamento dos capítulos (Machado, 2000, p. 126).
O registro de
transmissão em fita magnética de determinados
programas tais como: novelas, dramas e outros similares é cautelar
para as emissoras, levando em conta a possibilidade de alterações
no dia a dia na política, na economia, enfim naquilo que guarda relação
com o assunto que será transmitido, diante das modificações
ocorridas e até mesmo com a possibilidade de alterações
entre atores como: doenças, falecimento, demissão em que a
narrativa vai absorvendo estes imprevistos e modificando seu enredo.
A transmissão ao vivo, transformou-se recentemente no alvo privilegiado
dos ataques de todos os críticos da televisão. Talvez exatamente
porque a operação em tempo presente seja aquilo que caracteriza
mais profundamente a televisão (e também o rádio), ela
foi eleita o bode expiatório de todos os males da televisão
e do mundo (Machado, 2000, p. 127).
Não somente ataques dos críticos, mas também a preocupação
das autoridades, como no caso da Rússia em que o presidente Vladimir
Putin chegou a um acordo com os diretores dos principais canais de tv para
estabelecer normas da cobertura pela televisão de atos violentos,
como seqüestros e ações terroristas. O acordo decorrente
de projeto anterior foi apressado após a invasão do teatro
Dubrovka, em outubro de 2002, por terroristas chechenos que ameaçavam
matar 700 reféns, caso não fosse ordenada, pelo presidente,
a retirada das tropas russas da Chechênia. No episódio, após
longas negociações e momentos de tensão, a polícia
injetou gás paralisante através dos dutos do ar condicionado
e as tropas invadiram o teatro, com grande número de mortos. Os acontecimentos
foram transmitidos pela televisão e a repercussão negativa
irrompeu pelo mundo inteiro. O presidente acusou a tv de agir contra as normas
de segurança, capitalizando o evento, incrementando a audiência
e ganhando mais dinheiro.
Entretanto, canais localizados em países politicamente mais democráticos,
continuam transmitindo ao vivo os dramas mundiais, como o recente seqüestro
na escola russa de Beslan, na Ossétia do Norte, onde vidas de centenas
de crianças não foram poupadas por rebeldes chechenos e a CNN
e BBC se fizeram presentes durante todo o decorrer da tragédia.
Não é possível deixar de lembrar, também, a tragédia
do World Trade Center, ocorrida na terça-feira, 11 de setembro de
2001, ocasião em que a TV transmitiu ao vivo, para todo o mundo aquilo
que nenhum autor de ficção ou roteirista de Hollywood seria
capaz de conceber: a crueldade e frieza de arquitetar o seqüestro simultâneo
de quatro aviões e disparar um ataque suicida contra os maiores símbolos
do poder econômico e militar dos Estados Unidos. As imagens das pessoas
se atirando pelas janelas, do corre-corre pelas ruas de Nova Iorque, do Pentágono
em chamas e da destruição do epicentro do capitalismo, já entraram
para a História como o símbolo da fragilidade da mais poderosa
e, mais rica potência global.
No Brasil não temos ações terroristas, mas assistimos
ultimamente alguns atos sistemáticos de impor a vontade através
do terror, transmitidos ao vivo e em cores para todo o país com repercussões
amplamente negativas. Em 1999, a cobertura pela Rede Globo de Televisão
do seqüestro de um ônibus urbano no Rio de Janeiro, onde inúmeras
pessoas foram mantidas reféns por um marginal, culminou com a morte
de uma refém no ato da prisão. Posteriormente, em São
Paulo, todos os canais de televisão proporcionaram forte tensão
aos seus telespectadores, permanecendo durante horas em frente à casa
do empresário Silvio Santos, mantido refém pelos seqüestradores
de suas filhas.
Paul Virilio, por ocasião da guerra do Golfo, fundou boa parte de
sua crítica à abordagem televisual do conflito no fato da instantaneidade
da televisão. Para Virilio, a televisão é nociva, entre
outras coisas, porque operando fundamentalmente ao vivo, ela não permite
recuo algum, nenhuma distância crítica e, por coincidência,
nenhuma reflexão (Platão novamente!) (Machado, 2000, p. 127).
Realmente, existem
fatos surpreendentes nas reportagens em tempo presente, porém a adversidade daquilo que pode ocorrer é totalmente inimaginável
pelas emissoras de televisão. Como exemplo marcante do imprevisível
pode-se enumerar o acidente com a nave espacial “Challenger”,
lançada em janeiro de 1986 e que explodiu 72 segundos depois de ter
decolado do Cabo Canaveral, com sete tripulantes a bordo, aí incluída
a professorinha que ia ao espaço pela primeira vez.
A televisão chegou até mostrar os alunos dela, presentes no
mirante do Centro Espacial Kennedy, para assistirem ao evento. E aquilo que
se presumia reportagem sensacional mostrada ao vivo, de repente virou tragédia,
também mostrada ao vivo.
Aqui, neste caso, a crítica de Paul Virílio sobre a instantaneidade
da televisão não pode ser desconsiderada, porque se sabe perfeitamente
que se a CNN (emissora de tv a cabo que transmitiu em tempo presente o lançamento
da nave espacial), soubesse o que iria acontecer, certamente gravaria o programa
para exibi-lo em horário mais adequado. Dentre outros fatos similares
ao enumerado, podemos citar ainda o acidente de Airton Sena, em Ímola,
que chocou o mundo inteiro.
Contrariando Paul Virílio, Machado afirma que
Se a transmissão direta é tão nociva à razão,
se ela parece ser o contrário do pensamento e o avesso da reflexão,
se ele transforma tudo num limbo viscoso, como explicar, então, o
medo da televisão ao vivo por todos os regimes de força, por
todas as ditaduras e corporações militares, por todos aqueles
que visam justamente o emudecimento da opinião? (2000, p. 128).
Entende-se pelas
palavras do autor que Organizações Dominantes
do povo temem a exposição real dos fatos, ou seja, deixam ser
levado ao ar somente aquilo que lhes convém. Haja vista a instituição
da censura no Brasil, durante a Ditadura Militar. Logicamente para serem
censurados os programas deveriam ser previamente gravados, a fim de que pudessem
ser apreciados pelos censores.
Machado ao discutir as transmissões em tempo presente pergunta: “Por
que as próprias redes e emissoras evitam transmitir em tempo presente,
preferindo, sempre que possível, o conforto e a segurança de
material pré-gravado?” (2000, p. 128). Nota-se claramente a
preocupação das emissoras em alinhar seus programas às
exigências do poder dominante.
A partir
do momento em que a difusão da televisão se generalizou,
tornou-se regra proibir a transmissão ao vivo, sobretudo durante golpes
de estado, ditaduras, estados de emergência ou quaisquer outras situações
políticas de exceção. No Brasil, durante todo o período
em que esteve em vigência a censura aos meios de comunicação,
a transmissão ao vivo foi proibida (ela era tolerada apenas em alguns
casos excepcionais, como transmissões de partidas esportivas, e mesmo
assim, desde que houvesse liberação pela autoridade militar
competente) (Machado, 2000, p. 128).
A TV Excelsior
havia sido a única empresa de televisão a se
opor ao golpe militar de 1964 e os militares não esqueceram disso.
Em 1970, o governo cancelou a sua concessão. No início dos
anos 70, o governo do general Emilio G. Médici lançou uma campanha
maciça com o slogan: “Brasil, ame-o ou deixe-o". Qualquer
reportagem negativista era proibida. Qualquer crítica persistente
também. A lista de assuntos proibidos era imensa. Às vezes
uma ordem para suspender a publicação de uma notícia
chegava antes dela acontecer. Em 1975, Wladimir Herzog, chefe de jornalismo
da tv cultura de São Paulo foi preso, tendo morrido horas depois em
um quartel. A polícia divulgou uma foto, tentando convencer a opinião
pública de que ele havia se suicidado. A notícia de sua morte
não foi divulgada pela televisão.
Depois,
quando a censura foi afrouxada e a operação ao vivo novamente
admitida, a proibição retornava sempre que a conjuntura
política se tornava tensa, como foi o caso do episódio
da votação pelo Congresso Nacional da emenda que propunha
o restabelecimento das eleições diretas no Brasil, em abril
de 1984, cuja transmissão direta pela televisão foi vetada
pelo Governo Federal (Machado, 2000, p. 128).
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A precaução
de gravar o programa antes de sua exibição, além de
assegurar a própria sobrevivência da televisão, decorre
de imposição superior, para ser moldado às conveniências
dos censores, porém, não aos interesses dos telespectadores.
Verifica-se, então, a força envolvente da programação
em tempo presente, como o próprio autor explica em comentário
no final do parágrafo, fazendo referência à votação
das “Diretas Já”, pelo Congresso Nacional, em abril
de 1984. Considerando-se os destaques a respeito das transmissões
ao vivo e as pré-gravadas podemos considerar que ambas são
importantes, devendo antes de mais nada ser analisado o assunto a ser transmitido,
destacando-se que os grandes eventos, sejam culturais, esportivos, científicos
ou religiosos, requerem a transmissão ao vivo, muito embora estejam
sujeitos a fatores que não possam ser previstos, como, por exemplo,
atentados a locais públicos durante a transmissão de tais
eventos.
Talvez seja esta a grande novidade e qualidade dos programas de realidade onde
a previsão do que pode ou não acontecer é menos previsível
e mostre a vida como ela é, completamente desprovida de roteiro e solta
ao acaso.
Dos
Mitos às Celebridades Instantâneas Entre os povos primitivos o mito era uma forma encontrada por estes para
situarem-se no mundo, ou seja, uma forma de encontrar o seu lugar entre os
demais seres da natureza. Segundo Aranha, mito
É um modo fantasioso, anterior a toda reflexão e não-crítico
de estabelecer algumas verdades que não só explicam parte
dos fenômenos naturais ou mesmo a construção cultural,
mas que dão, também, as formas da ação humana,
cabendo ainda salientar, entretanto que não sendo teórica,
a verdade do mito não obedece a lógica nem da verdade empírica,
nem a verdade científica (Aranha, 1998, p. 62).
O mito em nosso
tempo atual, embasado no pensamento crítico e reflexivo
que teve início com os primeiros filósofos gregos do século
VI aC. e no pensamento científico que a partir do século XIV,
ocuparam todo o lugar do conhecimento, não condenaram a morte dos
mitos, ao contrário, como destaca a mesma autora, negar o mito é negar
uma das formas fundamentais da existência humana, pois é o mito
a primeira forma de lidar com o mundo, fundamentado no desejo de segurança,
na imaginação, enfim nos sonhos.
Hoje em dia esses sonhos se materializam nos nossos ídolos televisivos.
Podemos, então, fazer uma analogia entre o mito e a imagem como imagem
da mídia. Joly afirma que:
O emprego
contemporâneo do termo imagem remete, na maioria das
vezes, à imagem da mídia. A imagem invasora, a imagem onipresente,
aquela que se critica e que, ao mesmo tempo, faz parte da vida cotidiana
de todos é a imagem da mídia. Anunciada, comentada, adulada
ou vilipendiada pela própria mídia, a imagem torna-se então
sinônimo de televisão e publicidade (JOLY, 1996, p.14).
Neste contexto,
faz-se menção aos reality shows, mostrando
que os mesmos oferecem ao público, momentos de diversão baseados
em suas emoções, em seus desejos e na possibilidade ou sonho
de que eles também poderiam estar lá. A identificação é instantânea,
assim como a popularidade dos participantes dos programas. Eles tornam-se
celebridades do dia para a noite, sem contar as altas quantias em dinheiro
que constituem-se no prêmio dos vencedores.
Enquanto o público se diverte com as situações enfrentadas
pelos participantes, estes tornam-se rapidamente mitos televisivos representando
a possibilidade de sucesso que tanto influenciou o pensamento liberal.
Não é algo novo transformarem-se em mitos, pessoas que por seus
feitos extraordinários tenham servido de referencial a milhares de pessoas,
ou seja, o que se pressupunha inicialmente era que para a TV passar a tornar
estas pessoas seus assuntos, elas precisariam fazer algo de excepcional que
as elevassem a este patamar de mito, entretanto o que tais pessoas fizeram
foi, justamente, aparecer na TV.
Portanto, estarem na TV é o que justifica estarmos assistindo-os
na TV. Trata-se de uma frase interessante, pois embora óbvia é de
fato a encarnação de um paradoxo que a vida moderna nos apresenta
e que nunca esteve mais clara. A auto-referência é algo extremamente
trabalhada e mesmo “cultuada” pela TV. Ela é sobretudo
narcisista e egocêntrica.
A casa do Big
Brother não é um "lugar" de interesse
a priori para a TV, como se pode dizer que são as ruas onde acontecem
um protesto ou um engarrafamento, um estádio de futebol ou uma praia
lotada, como destaca Lima (2004, p.60.) ao analisar fotos da casa em tempo
real, expostas no site na época em que se desenvolveu o programa:
Nada está, afinal, "acontecendo" lá, como na
foto, como neste momento. Porém, se câmeras de TV são
espalhadas por ela, voilá, ela passa a ser um "local" (claro
que podemos e devemos ampliar o raciocínio, por exemplo, para o
tele -jornalismo onde, afinal, decide-se quem e onde são "notícia" a
cada dia).Se pessoas são colocadas em frente às câmeras,
embora não fossem "televisivas" até antes disso,
agora são imperdíveis. E, de repente, uma casa que não "existe",
e pessoas que não "existem" são a principal atração.
Claro que se pode comparar isso com a situação da ficção,
remontar ao cinema, onde também algo inexistente anteriormente é tornado
foco de nossa atenção e comoção. Porém,
não se está falando aqui da fantasia. Está se falando,
acima de tudo, do que escapa ao simples ato de ver TV, do que se torna "viver
TV". Em dois sentidos: primeiro para os objetos desta atenção,
cujo estatuto perante a sociedade muda completamente a partir da decisão
das câmeras de enfocá-los. Eles agora são "celebridades",
embora não tenham feito nada de especial, além de aparecerem
na TV.
Ressaltemos
ainda que o reality show Big Brother nos mostrou isso como poucos programas
brasileiros nos últimos tempos. Nas ruas, os assuntos se
repetiam em torno do programa, e o maior índice de sua "permanência" era
ouvir de inúmeras pessoas que não gostavam dele que ainda assim
o assistiam e tinham opiniões sobre o que lá acontecia.
De repente, não estar assistindo é não estar
vivendo o que o Brasil vive no momento, é estar "fora da realidade".
Paradoxalmente, a realidade passou a ser o que está na tela e o que
está fora é só uma abstração.
Fenômeno que assume proporções inéditas com
o surgimento da comunicação de massa, a fama é uma
porta de entrada privilegiada para a compreensão do intrincado entrelaçamento
entre individualismo, modernidade e comunicação de massa.
Do anônimo ao ídolo, a fama nos enreda a todos; fascinados
pela celebridade, criamo-la com essa admiração. O fenômeno
da fama á paradoxal na sua natureza, exigindo o anonimato de muitos
para permitir o estrelato de um (COELHO, 1999, p. 37).
No entanto destacamos
que tais mitos não encontram uma sustentação
em longo prazo sendo logo substituídos por outros que apareçam,
já que os fundamentos de seu sucesso estão em aparecer ou não
na tevê, e que em poucos meses muitos dessas celebridades espontâneas
não terão mais seus rostos lembrados.
O próprio programa é um mito temporário, como destaca
Hoineff (2004, p. 7): “O BBB é um representante remanescente de
uma grande série de sucessos temporários, onde o cárcere
voluntário, aliado a vontade de aparecer e ganhar dinheiro faz de tudo
para alcançar seus objetivos”.
Quando Orwell pensou no seu Big Brother ele imaginava um olho que via tudo,
uma entidade que observava a todos. Pois a TV subverteu as previsões
totalitárias: são todos os olhos (telespectadores) que olham
para uma entidade (TV). Enquanto vigiam, eles sim são vigiados. A ficção
de Orwell não conseguiu dar conta da complexidade das teias da realidade,
mais uma vez. O "nosso" Big Brother é muito mais sutil, muito
mais "democrático", afinal a opção de olhar
ou não, é sempre das pessoas.
Mas a qualidade de um programa como os reality sohws é o de
ser a criação-máxima e genuinamente televisiva, porque é um
fenômeno completamente seu. A ficção audiovisual vem
do cinema e que anteriormente veio da literatura, os programas de auditório
ou musicais vêm do teatro e espetáculos, o futebol vem dos estádios.
Todos já "estavam aí" quando a TV chegou, e ela simplesmente
os deglutiu e usou. Agora, atingimos o ápice com um programa que só existe
porque existe a TV. A TV é o próprio assunto da TV. E ao ser
o seu objeto, parece tornar-se mais e mais sedutora, mágica, indispensável.
As regras e intrigas do jogo
Famoso e polêmico desde suas primeira aparição, em 1997,
na Suécia, na forma de um programa chamado "Expedition Robinson" (que
teve como idealizador o músico Bob Geldof, conhecido por também
ser um dos cabeças do show beneficente "Live Aid", em 1985),
os reality shows de hoje tem inúmeros formatos, escolhidos de acordo
com o interesse do país de transmissão, seja com celebridades,
ou mesmo com pessoas anônimas, que é o formato já conhecido
por nós através do único em atividade no Brasil: O Big
Brother, originado na Holanda em medos de 1998, tendo seu nome retirado do
romance "1984", escrito pelo romancista George Orwell (O Grande
Irmão - Big Brother - está olhando você).
O primeiro programa
da série “Big Brother” foi apresentado
no canal Verônica, em setembro de 1999, e que inspirou a seus sucessores,
trazia um formato inovador aos programas até então apresentados
na TV: 12 pessoas confinadas numa casa, sendo filmadas 24 horas por dia,
durante dois ou três meses.
A cada semana, um é eliminado. O último a sobrar é o grande
vencedor. O programa Big Brother é o maior sucesso de audiência
da Europa e no resto do mundo, sempre atraindo uma leva de curiosos a assistir
o programa. No entanto, enquanto a filosofia é igual, o programa é diferente
nos diversos países. A fórmula é simples, porém
difere em vários países, e a principal diferença está na
eliminação dos participantes.
Na casa do "Big Brother", todos os cômodos têm câmeras
e microfones, e tudo o que acontece com os participantes é exibido para
milhões de telespectadores. Os participantes deste desafio ficam totalmente
sem comunicação com o mundo exterior - sem TV, sem jornais, sem
telefone, sem rádio, sem internet - e são submetidos a tarefas
que testam sua capacidade de relacionamento e sua resistência. A cada
semana, uma pessoa é escolhida para deixar o programa, e os que ficam
na casa continuam fazendo o melhor para ganhar o grande prêmio final.
No Brasil, foram nove semanas de programa e o primeiro grande vencedor foi
o dançarino Kleber de Paula, de apenas 24 anos. Bambam, como ficou conhecido,
conquistou os brasileiros com seu jeito ingênuo e levou para casa R$
500 mil.
Além dele, outros participantes também lucraram com a experiência.
O cantor André Gabeh saiu com um contrato para gravar um CD na Som Livre
e a modelo Vanessa Pascale faturou um papel numa novela da Rede Globo. Além
dos inúmeros contratos aos demais participantes para posarem nus em
revistas e sites especializados, aproveitando assim as suas imagens ainda frescas
na memória dos telespectadores, transformados também em símbolos
sexuais.
Enfim, todos de uma maneira geral, deixaram para trás o anonimato para
conquistarem o “reconhecimento” público. Fenômeno
que se repete em todos os países por onde passa o programa.
Não há dúvidas de que todo programa de realidade tem como
pontos-chave, momentos que suscitam polêmica buscando assim definir a
vida do programa e de seus participantes, criando intrigas, romances, enfim
estórias que alimentem o interesse do público.
Para Nascimento (2004) o primeiro destes momentos no BBB4, por exemplo,
aconteceu logo nos dois primeiros dias, quando Géris e Cris resolveram implementar
a aliança superpobrezinha. A idéia dos dois era que eles deveriam
levar vantagem sobre os outros porque eles precisariam mais da grana. Tatiana
não gostou deste papinho deles e brigou com Géris. A briga acabou
gerando a divisão total e completa da casa. De um lado, os SPs. Do outro,
um quarteto masculino que se chamaria de Clube do Boco. No meio, Rogério,
Marcela, Antonela (Tonton), Tatiana e Juliana. Rogério ficaria no meio
até ser líder, quando virou Boco. Mama, Tonton e Tatá foram
pro lado Boco por associação, e Juliana ficou com os SPs, amparada
por Cris.
Nascimento (2004) afirma que fica fácil observarmos que o programa não
teria tido a menor graça caso esta briga e esta divisão não
tivessem acontecido, e destaca que se, por exemplo, Géris e Cris tivessem
ficado calados com relação às suas necessidades, como
Thiago e Cida o fizeram, os dois conseguiriam ter ido longe, pois o público
se encarregaria de eliminar os mais ricos aos poucos. Além disso, o
Boco não teria se formado, e a casa teria sido mais harmoniosa até o
final.
Outro episódio que merece destaque diz respeito a uma briga que ocorrera
na academia, tendo sido gerada por causa de uma fofoca que Juliana fez com
Solange para Eduardo. A história começara ainda no hotel, quando
Marcela teria chamado uma união das moças para que uma mulher
finalmente vencesse o BBB. Juliana usou a história para jogar Eduardo
contra Marcela, mas não falou que ela e Solange também estavam
no acordo e não falou que elas CONCORDARAM com o plano. O resultado
foi uma briga terrível entre Marcela, Tatiana e Juliana, que resultaria
na indicação de Tati e sua eliminação na primeira
semana, e nos seguidos paredões de Juliana que ficou marcada entre os
Bocos após ser apurada a sua fofoca.
Nascimento (2004) a afirma ainda que esta briga certamente afetou a casa
até seu
final. Se Juliana não tivesse feito a fofoca que fez, Tatiana e Marcela
jamais teriam partido para cima dela, e a casa não teria se dividido
ainda mais. É bem provável que Tatiana tivesse sido eliminada
de qualquer forma, por seu jeito meio ríspido, mas a probabilidade de
Juliana durar no programa teria sido menor, pois ela não teria tido
motivos para se fazer de coitadinha, marca registrada a cada paredão
que ela ia, e que a ajudou a vencer vários deles.
Outro momento polêmico da convivência entre os participantes do
programa, porém, aconteceu na semana 4. Naquela semana, espalhou-se
pela casa a notícia de que SPs e Bocos iriam armar o voto. Géris
e Juliana chegaram a combinar o voto na festa de sábado, em cena não
mostrada pela edição. Finalmente, na hora, Rogério indicaria
Juliana, mas quando chegou a hora do voto, Zulu resolveu não votar com
os SPs. Ele votaria em Thiago, ao invés de Solange. Como os 5 SPs ainda
na casa votaram em Antonela, a votação ficou 5 a 4, o que jogou
Tonton com Juliana no paredão. Caso Zulu tivesse votado em Solange,
Rogério, na época não interessado na moça, teria
indicado a frentista, e esta teria sido facilmente eliminada contra Juliana.
O romance Rogério/Solange não teria rolado, a briga Marcela/Solange
não teria acontecido, Antonela teria permanecido no jogo e os Bocos
teriam se tornado maioria na casa. Com a vitória de Dourado na prova
do líder da semana seguinte, Géris teria rodado e o Boco teria
tido maioria absoluta, podendo controlar o jogo até seu final, bastando
para isso pegar a liderança. Thiago e Cida também teriam se visto
emparedados ao mesmo tempo e provavelmente, Thiago não teria chegado
em segundo. Cida provavelmente venceria do mesmo jeito, vencendo paredão
após paredão que os Bocos a jogassem, mas dois deles certamente
teriam chegado em segundo e terceiro lugar.
Mesmo que a situação acima não tivesse ocorrido, temos
que nos perguntar por que os jogadores jamais cogitaram de indicar Thiago e
Cida juntos desde o começo?
Caso isso tivesse ocorrido logo nas primeiras semanas, os dois teriam sido
eliminados, por estarem tão deslocados na casa. Isso teria aberto completamente
o jogo para uma vitória de Marcela ou Juliana, que seriam as bolas da
vez do Boco e acabariam recebendo a simpatia do público. Uma vitória
de um membro do clube do Boco seria muito improvável.
Nascimento (2004) em seu jogo de probabilidades ressalta por fim, que a
briga entre Marcela e Solange, que fez com que Marcela fosse eliminada,
foi a pá de
cal de Mama no jogo. A briga aconteceu após a certeza, por parte de
Marcela, de que Solange a jogaria no paredão novamente, o que seria
a terceira vez seguida.
A disputa entre as duas veio desde a primeira semana, quando Solange tomou
o lado de Juliana na hora de queimar Marcela. Caso esta briga não tivesse
rolado, é bem provável que Marcela tivesse batido Juliana no
paredão e tivesse batido Solange no paredão seguinte. Marcela
teria sido, então, eliminada da final, tomando o lugar que acabou sendo
de Juliana. Isso, é claro, se ela não tivesse vencido a prova
de líder final.
Nascimento (2004) conclui que tudo isso, é claro, é puro achismo.
A única certeza que temos é que uma conjuntura de uma batalha
de classes gerou uma guerra dos sexos, que favoreceu Cida e os SPs, causando
a eliminação do Boco e assegurando a vitória de Cida no
final. Porém, que a forma como o jogo se desenrolou acabou sendo o segredo
do sucesso deste BBB 4, isso não temos como negar.
Volaticidade da TV
Big
Brother tem a qualidade de estimular a autonomia narrativa da televisão, já que é um programa irredutível
a qualquer outro veículo; e, também, porque assume a volaticidade
própria da televisão, e faz disso um de seus elementos essenciais.
Programas dessa
natureza não necessitam ser pensados como produtos
perenes ou hegemônicos sobre o seu meio de reprodução
(tal como um filme, por exemplo), porque juntos seus momentos não
formam um todo. Cada seqüência, na verdade, desqualifica todas
as anteriores - o que exprime bem a adequação entre o meio
e a criação de um conteúdo que lhe seja próprio.
Uma das poucas coisas de fato sabidas sobre a televisão é que
a natureza de seu conteúdo é efêmera (o que não é um
defeito, mas uma grande qualidade) - e os reality shows são uma síntese
muito adequada dessa propriedade.
Um programa de televisão que se organiza em torno de recursos narrativos,
inerentes ao meio para o qual foi criado deve ser visto com respeito - e não
com a suspeição de que derive de comparações com
formas de manifestações criativas elaboradas para outros veículos.
Mas isso não é tudo. A construção de modelos originais
vaza também para a arquitetura comercial do produto. Ainda que toda
a comercialização de Big Brother Brasil corra por conta do que
dele se veja na televisão aberta (inclusive a cobertura – prometida
ou não – que será feita nos outros horários), o
verdadeiro Big Brother estará acontecendo longe dali, no que comercialmente é considerado
residual: o acompanhamento sistemático na TV por assinatura.
No entanto cabe destacarmos o seguinte questionamento: se a fórmula
de Big Brother não tivesse sido desenvolvida na Holanda e testada em
todo o mundo com enorme sucesso e que causou mesmo antes do lançamento
na teve brasileira um grande alvoroço na mídia, e tivesse nascido
no Brasil, será que teria havido toda essa disputa, todo esse investimento,
toda essa promoção?
O projeto possivelmente não teria sequer sido lido. Isso acontece em
decorrência dos mecanismos que a televisão brasileira utiliza
hoje para criar seu conteúdo. Ele nasce a partir de modelos preexistentes
e é desenvolvido por bons autores, que existem em todas as emissoras.
Mas, emana de um núcleo naturalmente asfixiado pela falta de arejamento.
Nos momentos em que põe a cabeça para fora, o que o núcleo
enxerga é o que já está flutuando alto nas feiras de programação:
as séries de sucesso ou os modelos de game-shows aplicados em virtualmente
todos os programas de auditório. Não é fácil escapar
desse vício. Este é um dado histórico, desde o inicio
da televisão brasileira, lembram-se dos primórdios das versões
brasileiras das telenovelas cubanas e mexicanas?
A estratégia é a mesma adotada na grande industria do entretenimento
e do cinema americano, tem-se pouco espaço para experimentações
e adota-se algo que já sinônimo de sucesso, testado por outros,
em outros mercados.
Mas uma das formas possíveis de defesa está por acaso em discussão
neste momento entre a Ancine (Agência Nacional de Cinema) e a indústria
brasileira de TV por assinatura. Seu pretexto é a taxação
suplementar de 11% sobre os distribuidores de produto audiovisual estrangeiro
que não aplicarem na produção brasileira. O objetivo é a
modificação do artigo da lei do audiovisual que dispõe
sobre o investimento por esses distribuidores em filmes brasileiros de longa-metragem:
pretende-se ampliá-lo para telefilmes e séries de televisão.
Se isso acontecer, a produção - e, sobretudo a criação
- de produtos brasileiros para a televisão nacional poderá sofrer
uma radical transformação. Não fosse por outros motivos,
porque as fontes criativas se veriam multiplicadas. Se todo o cinema do mundo
nascesse das seis ou sete distribuidoras que comercializam os filmes, essa
indústria estaria arrasada há muito tempo.
Há um Big Brother no ar, acompanhando os passos da televisão
brasileira. Confinada numa grande casa, sem saber o que acontece do lado
de fora, esses passos não podem ser muito normais. Quanto mais tempo
esse pequeno núcleo ficar confinado dentro da grande casa, mais
sua energia criativa se atrofiará. Aos olhos de quem o acompanha
de longe, os movimentos são estranhos – e com o tempo beiram
ao ridículo. Ninguém pode ir muito longe quando fica girando
em torno de si mesmo.
Jussara
Penha Batista é publicitária.
Bibliografia
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Temas
de filosofia. São Paulo: Moderna, 1998.
BARTHES, Roland. Elementos de semiologia. 14 ed. São
Paulo: Cultrix, 2000.
COELHO, Maria Claudia. A experiência da fama. Rio de
Janeiro: Editora FGV, 1999.
DIZART JÚNIOR, Wilson. A nova mídia. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
HOINEFF, Nelson. O verdadeiro BBB. Rio de Janeiro: Jornal
do Brasil, 2002.
JOLY, Martine. Introdução à análise da
imagem. 2. ed. Campinas: Papirus, 1996.
LIMA, Raymundo. Espaço Acadêmico. São
Paulo: Ano 1, nº 10. Retirado do site http://www.espaçoacademico.com.br/010/1oray.htm.
Acessado em março, 2002.
MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério.
São Paulo: Editora SENAC, 2000.
MARCONDES FILHO, Ciro. A televisão e a sociedade. São
Paulo: Scipione, 1994.
NASCIMENTO, André. Reality Show e polêmica. http://bbb2.globo.com/BBB2/0,6993,1769-p-hist,00.html.
Retirado em 03 de novembro de 2004.
SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo:
brasiliense, 1983
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