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A Pedagogia da Escuta
Maria do Céu
Diel de Oliveira

Este ensaio versa sobre a pedagogia da Escuta, pensada por Loris Malaguzzi
para as escolas Reggio Emilia. A autora apresenta os conceitos desta pedagogia
e suas relações com nosso ensino básico.
A
criança é feita de cem...
A criança tem cem linguagens
(e depois cem cem cem)
mas roubam-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
lhe separam a cabeça do corpo...
Dizem-lhe enfim:
Que o cem não existe.
A criança diz:
Ao contrário o cem existe.
Loris Malaguzzi
“Após o término da Segunda Guerra, as mulheres de
Villa Cella, cidade no nordeste da Itália, próxima a Reggio
Emilia, decidiram erguer e administrar uma escola para os filhos, pois
todas as da região haviam sido devastadas. Essa escola ficou universalmente
conhecida pela abordagem pedagógica para a educação
infantil. O pedagogo e educador de Régio-Itália, Loris
Malaguzzi, foi o criador da idéia de Reggio Emília, sendo
até hoje seu incentivador primordial. Foi este educador quem constituiu
um princípio de ensino em que não existem as disciplinas
formais e que todas as atividades pedagógicas se desenvolvem por
meio de projetos. Estes projetos, no entanto, não são antecipadamente
planejados pelos professores, mas, surgem através das idéias
dos próprios alunos, e são desenvolvidos por meio de diferentes
linguagens. O ensinamento que sustenta todo esse princípio, é a
Pedagogia da Escuta, que foi sistematizada pelo educador italiano. Esta
abordagem de Reggio Emilia se vincula a tudo o que a linguagem visual
pode apresentar.”
Amélia Hamze, educadora e professora UNIFEB/CETEC e FISO, Barretos.
Convidada a conversar com colegas educadores da FAE-UFMG, senti-me feliz
de poder escrever também este pequeno texto à guisa de
artigo. Como será publicado, tento dar forma ao pensamento, ou
como diz meu colega aqui da escola de Belas Artes, Marcelo Kraiser, o
que “falar quer dizer”. Então enquanto escrevo, penso
que sem afetividade não existe cognição. Sem afetividade
também não se constrói um projeto pedagógico
ou sequer uma escola, um pensamento ou um grupo que sonhe um mundo mais
justo. Este sonho de mundo foi o que me levou a conhecer, estudar e desejar
a Pedagogia da Escuta, ou pedagogia de projetos.
Eu já havia estudado Celestin Freinet quando lecionava numa escola
de música em Campinas, num modesto ateliê de artes. Lá tive
contato com a aula passeio, o projeto e o jornalzinho escolar. Muitas
voltas deram minha vida, mas em todas as escolas que lecionei pensava/desejava
trabalhar com um grupo de professores que almejassem este jeito de ver
o mundo. Mas deparava-me com o ensino franqueado e apostilado, que muitas
vezes não permite espaço para a invenção
e para a conversa estética. Trabalhos e objetos feitos para datas
comemorativas inventadas pelo comércio tiravam a força
das aulas de arte, que eu sentia serem feitas para algo muito maior.
Em Freinet encontrei algo bem próximo de um ensino almado e passei
a valorizar com meus alunos suas histórias de vida e suas relações
afetivas, buscando nestas falas e gestos o pretexto da aula de arte.
Lecionando em uma escola de política mista – com recursos
privados, mas recebendo doações de poderes públicos –,
encontrei a pedagogia de Loris Malaguzzi e encantei-me. Tive a oportunidade
de viajar para a Itália e lá conhecer Reggio Emilia, a
cidade das pracinhas e fontes de pedra (nesta época eu estava
terminando meu doutorado em Dante e saía deambulando em busca
de coisas dantescas... esta é uma história para contar
na palestra, mas sempre achei que quando estamos nos movendo na pesquisa,
as coisas se apresentam a nós, como escreveu Agostinho).

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Também
nesta época eu vivia no interior de Minas e estudava com outras
colegas que também se inquietavam diante das idéias pobrezinhas
sobre ensino e ensino de arte que eram testemunhadas por nós.
A idéia de uma escola que funcionava escutando os alunos e assim
surgia o plano de curso parecia coisa revolucionária, Summerhill.
Porém, estudando mais a fundo e vendo os projetos Reggio, percebi que
havia um ponto de referência verdadeiro, algo que se movia honestamente
e que ressonava com minhas idéias internas – já pressentidas
na graduação – de uma escola feita em pedra, sonho e desejo.
Reggio Emilia me pareceu uma cidade afrescada,
parecia com Bologna e com Ravenna. Em cada cidade que eu visitava eu
encontrava
outra. Achei natural, portanto, estar procurando Dante e encontrar um
pensamento, uma escola almada. Meus movimentos de pesquisa partiam da
bibliografia, mas flertavam com o cinema e o desenho. Estava sempre me
deixando seduzir pela cidade mais distante, além do arco da paisagem.
Natural foi então esta descoberta (acho fundamental que nossas
inquietações gerem suas próprias respostas, isto
sim faz a pesquisa viva, a escola viva).
A pedagogia de projetos, como também ficou conhecida a pedagogia
de Loris Malaguzzi trabalha basicamente com três instantes: compartilhamento
de saberes e múltiplas linguagens, o pensamento através
de projetos e a interação entre criança e adulto.Facilitando
a interrelação de linguagens através de atividades
artísticas nascidas da reunião-para-o-que fazer, os projetos
vinculam saberes adultos – o mundo do trabalho, o sistema econômico,
as relações sociais – e o infantil – as descobertas,
a latência, a fantasia e as angústias. Também a civilidade,
a cidadania esta presente como o Projeto Rei Midas, que propõe
a utilização de refugos beneficiados para a concretização
de sonhos plásticos, na fala das crianças de Reggio, Rei
Midas é o lugar de nascimento dos objetos. (EDWARDS et al., 1999)
Sempre que estou com um grupo narrando minha experiência de estudo
e ensino da pedagogia de Loris Malaguzzi encontro perguntas de espírito
prático e especialista, as perguntas sobre o currículo
e suas especificidades e como uma escola assim aberta pode congraçar
o sonho e o desejo. Eu fecho os olhos e viajo até outras cidades,
existentes ou imaginadas, como aquelas que Marco Pólo narrava
a Kublai Khan, nos contos de Calvino. Nestas cidades inventadas – recortadas
de outras e coladas – reinava o improvável e o fantástico.
Cidades pontes, cidades imóveis, cidades iguais e cidades de símbolos
e emblemas... tantos lugares são possíveis à imaginação.
Aqui a vontade do autor faz surgir o cenário digno de nossos desejos
mais puros. Bastou a Calvino aproximar uma torre, uma colina deserta,
um grande sino, uma coleção de colunas em meio ao campo,
um rio avermelhado que corta uma cidade murada... e pronto! Esta escrita
uma memorável coleção de descrições
de lugares e pessoas. Suas cidades estão em toda parte na Itália
e em outras cidades por onde caminhou pela Europa.
O que é o desejo de um autor? A vontade manifesta de um sonho
de mundo. Cada palavra é a chave de um reino. Então, todas
juntas vibram na narrativa, seja ela qual for, um conto, uma poesia,
um projeto... eu não consigo responder a esta pergunta do como
fazer... estamos aqui reunidos e podemos aproveitar e fazer uma reunião-do-que-fazer,
ouvindo e criando cidades. Nestas cidades terão bibliotecas, coleções
de selos, escadas de pedras-pomes, meninos e dromedários... quem
sabe também tenha uma escola Diana , com seus múltiplos
espelhos a criar outras escolas no coração do mundo.
BH, 15 de abril de 2005.
Bibliografia
BOYER, Ernest L. The basic school: a community for learning. São
Francisco, Jossey-Bass, 1995.
Catálogo em italiano de todo o material publicado pelas escolas
Diana. [http://zerosei.comune.re.it/pdfs/rechildnews05ITA.pdf]
EDWARDS, Carolyn; FORMAN, George & GANDINI, Lella. As cem linguagens
da criança: a abordagem de Reggio Emilia na educação
da primeira infância. São Paulo, Artmed, 1999.
Maria
do Céu Diel de Oliveira é professora do Departamento
de Desenho da Escola de Belas Artes e do Programa de Mestrado em Artes
Visuais da UFMG. Líder de grupo de Pesquisa LINHA: Grupo de Pesquisa
sobre o Desenho e a Palavra. Pesquisadora do OLHO- Laboratório
de Estudos Áudio Visuais da FE-UNICAMP. Gravadora e desenhista.
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