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ENTREVISTA COM
EDUARDO COUTINHO 2ª PARTE
No momento que eu fui fazer o filme Santo Forte eu falei, eu vou eliminar todo o plano de corte, tudo monta em cinema, eu não vou preocupar com o cachorro que está latindo, com o quadro na parede, com o santuário que está ali, e vou filmar uma pessoa durante 30 minutos, 1 hora, a câmera não desliga nunca, e as coisas vão acontecer ou não. Este tipo de filmagem, ninguém tinha feito, e ainda hoje fazem muito pouco. E isso é possível se você estabelece uma relação no momento em que você está filmando a pessoa. Filmar é escutar. Tudo que interfere nisso é abominável, porque tira o laço dessa relação, do outro falando se, você se preocupar em olhar para a câmera, em cortar, em mandar virar,... daí liquidou! E, em cinema, isso é impossível, o chassi só tem 11 minutos. O vídeo me deu essa possibilidade, e, na medida que ele aceitou a transferência para filme, que é uma coisa de menos de 10 anos, tornou possível que você fizesse isso. Hoje, você pode botar uma fita de 2 horas ou de 1 hora e meia, de 1 hora e, o som também de 1 hora e meia, 2 horas, e então, você realmente tem todo um processo de pensamento, de fala e de gesto que é um fluxo, você não corta. O que é trágico é quando você começa a cortar os fluxos, porque as coisas se passam no tempo, no tempo durante a filmagem e o vídeo te permite isso. E, na medida em que eu não estou preocupado com o corte, o câmera (cinegrafista) tem que se virar a partir de uma base dada, de um close, um plano afastado. Eu não tenho que olhar para câmera, eu tenho que olhar para pessoa com quem eu falo, e isso passa para a pessoa, que está pela primeira vez na vida sendo ouvida. Coisa que os outros diretores, no fundo, não se preocupavam muito. E aí tem todo um processo em que você tenta se colocar no lugar do outro. Embora (isto) seja impossível. O que interessa são as razões do outro, não as suas. Interessa a ficção dos outros não as minhas, as minhas vem depois das dos outros. Os outros falam sobre a vida, só ficção de certa forma. São confissões que tem um teor ficcional muito grande. Mas me interessa a ficção deles e, entender, de onde a pessoa fala. Isto é, a pessoa fala que “o brasileiro é preguiçoso” à partir de uma formação de ética católica de uma espanhola que veio pra cá e ficou 50 anos trabalhando e tal! [Maria Pia de Edifício Master] Então tem uma vida, que para não destruir a vida passada dela, ela vai dizer aquilo. Então, tentar compreender as razões do outro sem lhe dar razão. Se a espanhola fala que “o brasileiro é preguiçoso”, eu escuto. E, o que ela fala é forte porque ela acredita naquilo, isso não quer dizer que eu lhe dei razão. Trata-se de ouvir as razões do outro, sem forçosamente lhe dar razão.
Então, de um lado ela esquece, de outro ela sabe. Eu não escondo a câmera, mas ao mesmo tempo escondo, no sentido de que depois que começar a filmar, ninguém mexe, silêncio absoluto. Pode ter seis pessoas numa sala, mas há um jogo dramático entre eu e a pessoa que fala, e que gera eventualmente confissões extraordinárias, performances extraordinárias, a pessoa canta, a pessoa não importa. Essa visão é uma visão não retórica, eu não vou lá pra fazer um plano... daí eu ponho o plano que tem na parede, e não sei o que e tal. Não tem esse papo. É baseado no momento da filmagem. O que importa é o ato da filmagem. Durante o ato da filmagem aconteceu o drama que a pessoa fez, que ela construiu, ela se auto-encenou. Isso é o que me interessa. Como as outras pessoas
em geral em cinema que não acham que isso interessa, fazem outro tipo de
filme que são legítimos, porque tem mil tipos de documentários, mas, na
relação com o outro fica faltando essa coisa de você se esquecer de si, na
relação com o outro. Se eu esqueço de mim
mesmo, dos meus preconceitos, ao ouvir o outro, até onde é possível é claro,
porque isso é um ideal que não existe. Mas, quando se caminha para esquecer
de si mesmo é mais possível que fique gravado em você o que o outro disse e,
o que você escuta. Esta é a questão, você intervém na hora que não deveria intervir, ou às vezes, não intervém na hora que deveria intervir. Você faz a pergunta certa no momento certo, ou faz a pergunta errada no momento errado. Todo momento você está errando, tanto que, quem faz esse tipo de coisa toda... a noção de filme perfeito e de obra prima acaba, não existe perfeição. A força do documentário é que ele é imperfeito, é lacunar, é fragmentário, é precário. E nisso ele é completo! Quando eu converso com a pessoa durante 1 hora, eu certamente vou rever e tem 10 vezes que eu me comportei de forma errada. Por que não perguntei? Por que perguntei? Por que interrompi a pessoa? E, tem coisas que eu fiz certo, e tem coisas que a pessoa faz e eu digo “por que não falou isso depois?”, como se ela fosse um ator. É claro que ela não é um ator, então eu xingo a mim, eu xingo ao câmera(man), e às vezes a própria pessoa: “por que não fez isso?” Mas você, claramente, você está errado.
Eu vou filmar um filme, e quero falar “você trabalhou na roça?”, que é o termo no Brasil, no nordeste, daí me dá um branco e toda vez eu falo “lavoura” em vez de “roça”. Eu devia falar “roça” ou “agricultura” é um erro pequeno... eu falei “lavoura”, e eu sei que é “roça”, mas bate um branco, porque eu não faço pauta, não tem um troço... como eu não olho pro câmera(man) eu não posso botar no papel, 1,2,3... eu boto às vezes um pouquinho, mas geralmente eu esqueço, eu boto algumas notas... Eu acabo esquecendo, porque se eu me obrigar a permanecer numa pauta, eu fico prisioneiro dessa pauta. Quem é escravo da pauta é o jornalista, que não tem solução, por isso que é uma tragédia. O jornalismo é aquela coisa superficial... inevitavelmente está preso a uma pauta, é o dia a dia meu Deus do céu! E, a pauta ali (no documentário) é o seguinte, eu tenho uma informação da pessoa que na hora da conversa pode gerar outras coisas que eu não sabia e que muda tudo. E isso é ter uma surpresa na filmagem, se não tiver surpresa na filmagem não vale a pena fazer documentário. Filme, em geral, e, documentário principalmente, são feitos para você ter surpresas. É você não ter aquilo que você já sabe. Aquilo que você já sabe não interessa. Se o filme já está feito na cabeça é melhor não fazê-lo, está pronto.
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O documentário tem que gerar surpresa em você quando você filma, quando você monta, e pro espectador, que é o elemento essencial, de quando ele vê o filme. Ele sabe que aquele presente que ele está vendo hoje é passado, mas se torna presente pra ele pela força dessa presença. Porque a filmagem é isso, a pessoa está inscrita, é um registro, a única coisa certa do documentário é que ele registra. A ficção, também, é que ela tem um registro real. Naquela hora foi filmado aquilo, se é real ou não ninguém sabe. Mas, o registro é uma inscrição real, não do real. É real. Houve uma filmagem que tava gente na frente da câmera, gente atrás da câmera, no dia “x” isso houve. 6) Fala para gente um pouco sobre os seus critérios de seleção do material... Isso também não dá pra explicar muito, porque os critérios na verdade são muito simples e impossíveis de você explicar. Olha existem centenas de livros sobre a arte do roteiro em cinema, centena não, fácil uns 50-100, americanos, brasileiros e, tal... como escrever roteiro, o cacete a quatro tá cheio. Não tem nenhum manual sobre como fazer um documentário. Sobre entrevistas, tem manuais para jornalista de como fazer uma entrevista como o que vocês estão fazendo. Então, o critério qual é? Eu estou em um ônibus e não vejo a cara da pessoa só ouço uma história contada por uma pessoa que tá atrás de mim, uma história particular de uma pessoa, uma mulher tá falando atrás de mim e de repente eu tô interessadíssimo no que ela está dizendo, pelo conteúdo e pela forma como ela diz, mesmo sem ver a cara.
É o interesse
dramático, dramático é isso, as pessoas ouvem depois eu vou montar. Eu tenho
discussões com a montadora, com o montador, com pessoas assim... Aqueles
personagens que realmente tem uma presença, tem um impacto forte, e aí é um
conjunto: rosto, gestos,... Não é só o conteúdo da fala, tem o paraverbal –
verbal que não é verbal –, tem o gestual, tem o verbal que se, a pessoa fala
lento demais é complicado, se a pessoa tem uma voz irritante ou não. Tem
personagens extraordinários. Você imagina um personagem extraordinário que é
fanho? É um limite. Existem elementos, o olho, o rosto, a boca, onde você
sente não exatamente o que é verdade ou mentira, aquilo que vai com uma
crença, com um valor afetivo e o que vai sem. E mesmo assim, às vezes isso
não é unânime... esse funciona, aquele não. Esse é o critério principal.
Dependendo do filme, posso me interessar por um personagem mais velho que tem
um elemento que não tem nos outros, mas sempre a partir de um valor
intrínseco.
Tem pessoas no Babilônia 2000 (foto ao lado) que estão lá pela história que contam, pelo conteúdo, outros pela forma de falar. A forma é tão importante quanto o conteúdo. Isto é, a mesma história pode ser contada maravilhosamente por um personagem e muito mal por outro. É a velha história, não adianta ter uma vida extraordinária se a pessoa não sabe contar bem essa vida. Eu tenho vários casos de pessoas que contam, que são prolixas, que a dicção é ruim, que hesitam e que não funcionam. E têm outros que não tiveram vidas extraordinárias, mas contam um fato banal de forma extraordinária. Se eu vou filmar agora no nordeste, tenho pessoas que fazem ato de criação verbal, do ponto de vista da sintaxe, do vocabulário etc... Coisas extraordinárias de criação verbal, isso é tão importante quanto o conteúdo. Na verdade a pessoa comum, que tá num filme, que se torna personagem, ela é um ator natural. Ela é uma pessoa que se interpreta, a si mesmo, bem. É como se fosse um Paulo Autran, e que ao mesmo tempo ela se interpreta com verdade e mentira juntos. Não dá pra diferenciar isso, mas é uma pessoa que se encena bem, e você não disse pra ela se encenar, pra ela falar mentira, não! Mas, ela tem uma postura perante a câmera. E tudo isso é um jogo, às vezes o personagem não tá funcionando muito, de repente, uma pergunta que por acaso vem na tua cabeça deflagra um processo extraordinário. Nada é garantido, isso que é o bom no documentário, nada é garantido.
Essa Maria Pia, de Edifício Master (foto acima), por exemplo, talvez ela nem entrasse no filme, ou seria um personagem mínimo, e na pesquisa (preliminar) tem um negócio de ética no trabalho, mas enfim, uma hora eu falei, não sei porque, mas eu ia desistir, até na filmagem (que ela aparece) tem 6 segundos de silêncio. Várias vezes me aconteceram isso que de repente eu ia falar “corta vamos embora” e graças a eu ter sido paciente... – sabe, eu sou muito ansioso, porque tem um prazo, esse negócio de trabalho, eu tenho um filme com orçamentos, quando são sete dias, são sete dias! Então eu fico preocupado em seguir, não atrasar outra imagem e tal. Às vezes eu cometo erros graves, essa mulher, por exemplo, eu ia cometer um erro grave, eu ia dizer “tudo bem mas” num minuto tchau. Mas de repente me bateu um troço assim, esse negócio de pobreza no Brasil, e daí ela tem um discurso, que no filme está diminuído para dois minutos, que é absolutamente extraordinário. Ficou um personagem extraordinário, porque ela tem esse discurso sobre a preguiça do brasileiro, etc... E depois tem uma relação com o neto, com quem ela é carinhosa, o que mostra que (o personagem) é muito mais contraditório e ambíguo. A pessoa pode ter uma posição reacionária como a dela, que vem até da história pessoal que ela teve e, tem um neto ainda por cima é uma excelente avó. No entanto isso não está na pesquisa (preliminar), e por acaso eu não cortei, resolvi fazer essa pergunta. Às vezes não, eu esqueço, e fica pior do que a pesquisa prometia, por que eu não joguei o jogo, o jogo é dos dois. De tal forma que o que sai na palavra do outro, é algo que nasce num lugar, entre eu e o outro. Na verdade, acaba sendo algo que só sai este produto porque eu estou lá, na verdade, eu sou meio autor do que ela diz, e ela é meio autora. Não é que você se funde com o outro não! Mas acaba gerando uma relação e as palavras surgem entre os dois... Porque também depende, porque às vezes você não está bem de cabeça e não funciona, e às vezes a pessoa não está bem, então é extraordinário que naquele momento se produziu aquilo! O que não quer dizer que dez anos depois se produza novamente. Há personagens extraordinários que qualquer débil mental consegue fazer porque é um personagem extraordinário. E há outros que são resultado de uma interação que o teu trabalho com o trabalho dele acaba gerando um personagem extraordinário. O grande personagem é aquele que é bom na tua relação com ele, isto é, você faz ele ficar bom, e ele faz você fazer um bom filme. É um troço de mão dupla e, às vezes não! Às vezes o personagem é tão bom que qualquer débil mental que fosse lá filmar poderia ser um grande personagem. Desde que não fique trocando a câmera de lugar, “botar” a pessoa em cima do armário... O personagem nasce numa relação de filmagem, é neste momento que você tem que estar vazio, esquecer-se de si pra facilitar isso.
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