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Tempo, memória
e tecnologia nas transcriações das peças de Beckett para o cinema e a
televisão.
Gabriela Borges

O projeto Beckett on
Film, lançado em 2001, consta da transcriação para o cinema e posterior exibição
pela televisão das dezenove peças de teatro do dramaturgo irlandês Samuel
Beckett.
A idéia da realização
do projeto originou-se devido ao grande sucesso de público do Beckett
Festival em 1991, quando todas as peças de Beckett foram produzidas pelo Gate
Theatre Dublin e exibidas nos palcos de Londres, Nova York e Melbourne. A
partir disso, o diretor artístico do Gate Theatre, Michael Colgan, juntamente
com Alan Moloney da Blue Angel Films, propuseram a realização do projeto de
transcriação para a rede pública de rádio e televisão irlandesa RTÈ, que o
produziu em parceria com o Channel 4 e o Bord Scannán na hÉireann/The Irish
Film Board.
A realização deste projeto levanta uma discussão muito interessante com
relação tanto à criação artística quanto à crítica do trabalho de Samuel
Beckett. O autor era bastante avesso às adaptações de suas peças para outros
meios, inclusive ele chegou a impedir que algumas produções fossem
realizadas. Beckett acreditava que o meio dialogava de uma certa forma com a performance
e que a transcriação não permitiria este diálogo.
Em 1963, a televisão francesa RTF adaptou a peça de rádio All that Fall,
traduzida pelo próprio autor com o título Tous ceux qui tombent, com direção
de Robert Pinger. O autor ficou muito insatisfeito com o resultado porque
esta é uma “peça para vozes e não para corpos”, por isso não funciona em um
outro meio que mostre os personagens. Para Beckett, “to act is to kill it”
(KNOWLSON, 1997, p. 505). Após assistir à adaptação, o autor escreveu para John
Barber da Curtis Brown, a sua agência na França, a seguinte nota: “Num
momento de fraqueza, permiti que a televisão francesa gravasse All that Fall
e o resultado foi desastroso” (KNOWLSON, 1997, p. 779). Por isso, quando
Ingmar Bergman pediu permissão para adaptar as duas peças de rádio, All That
Fall e Embers, Beckett não a concedeu.
Porém, o autor tinha muito interesse pelos meios audiovisuais, chegando a
escrever uma carta para Eisenstein em 1938 pedindo para aprender cinema com o
mestre russo. Ele também realizou vários trabalhos audiovisuais, escreveu o
filme intitulado Film, protagonizado por Buster Keaton e dirigido por Alan
Schneider, escreveu peças de rádio e televisão para a rede britânica BBC e
dirigiu seus trabalhos na emissora de televisão alemã Süddeustcher Rundfunk.

Buster Keaton in Film
(1964-5)
Alguns autores afirmam que a criação das suas peças de teatro foi
influenciada pelas tele-peças que estava produzindo no mesmo período, assim
como a criação das tele-peças foi influenciada por Film. Na televisão,
Beckett teve a possibilidade de aperfeiçoar a sua estética minimalista e a
fragmentação do corpo dos personagens de uma forma que o teatro não permitia,
mas ao mesmo tempo inovou a linguagem teatral ao trabalhar neste meio a
partir das suas experimentações com a televisão.
Considerando isso, as peças filmadas por diretores reconhecidos
internacionalmente explicitam, de certa forma, este diálogo entre o teatro, o
cinema e a televisão. Ao veicular as imagens criadas por Beckett num meio que
atinge uma audiência que, por menor que seja, é de milhares de pessoas, o
projeto Beckett on Film apresenta um novo olhar sobre o trabalho do autor.
A transcriação
Ballogh (1996, pp. 36-41) explica que na transmutação o mesmo conteúdo
transita de um texto a outro, porém é necessário que o texto transcriado
responda como um texto estético por si só, independente do texto que lhe deu
origem que, no caso da literatura, Santiago chama de “forma-prisão” (apud
JOHNSON, 1982, p. 10). No caso do teatro, não somente o texto com os
monólogos ou diálogos fazem parte desta forma-prisão, mas também as rubricas,
ou instruções de encenação das peças, que constroem o espaço imaginário
visualizado pelo autor. Ramos (1999, p. 77) explica que as rubricas e os
diálogos são igualmente importantes na composição do texto teatral
beckettiano e, caso elas não sejam respeitadas, inviabilizam a performance e
o sentido da peça.
Na performance, o texto teatral escrito se transforma em comunicação oral e
gestual, em que a presença de um corpo é indispensável na construção do
espaço de ficção (Zumthor, 2000, pp. 45-50). Este espaço de ficção construído
pelo ator é o que se chama de teatralidade e que, em cada performance, se
apresenta de uma maneira nova e diferenciada. Porém, ela só acontece
efetivamente se a audiência tiver conhecimento dela, ou seja, a performance
necessita daquele que desempenha e daquele que contempla para que exista.
Na gravação eletrônica, a imagem captada a partir da performance fragmenta o
espaço de ficção, intermedia a presença do ator e reorganiza a linearidade
temporal de uma maneira própria, podendo ser conservada ad infinitum. O
palco, como meio, apresenta o espaço entre as três paredes, as luzes e o som
para a performance ao vivo dos atores, enquanto o meio audiovisual mostra o
espaço em que os personagens atuam por intermédio dos ângulos, enquadramentos
e movimentos de câmera, que enfatizam gestos e expressões, somados ao som, à
iluminação e à edição, que reconfiguram a organização espaço-temporal.
Nas peças beckettianas, o espaço de ação apresenta um mínimo de objetos. Em
Waiting for Godot, por exemplo, há somente uma estrada com uma árvore, em Happy
Days, a personagem Winnie está enterrada num monte de areia até a cintura no
primeiro ato e no segundo ato até o pescoço. A performance dos atores, na
maioria das vezes, é enfatizada com o uso de focos de luz em meio à
escuridão. Em Play, os personagens estão dentro de urnas e somente suas
cabeças são vistas quando enfocadas pelos holofotes de luz. Em Rockaby
somente a cadeira de balanço em que a personagem W está sentada é vista no
palco e em Footfalls somente a personagem fantasmagórica de May está iluminada
ao andar compassadamente de um lado ao outro do palco.
Na tradução intersemiótica de um sistema de signos (o texto teatral), em
outro (o produto audiovisual), percebe-se que alguns filmes do projeto
Beckett on Film efetivamente construíram novas metáforas visuais,
principalmente por intermédio da iluminação e dos movimentos de câmera.
Desafios da transcriação

O Beckett Estate,
detentor dos direitos autorais da obra do autor, impôs várias premissas para
a realização da filmagem das peças de Beckett. O critério de escolha dos
diretores foi que eles tivessem experiência como escritores e as instruções
do autor para a performance das peças deviam ser seguidas à risca.
Colgan conta que foi escrita uma “bíblia” para os diretores, cujas instruções
eram categóricas: não eram permitidos cortes no texto, definições de gênero
e, por exemplo, onde estava escrita a palavra “praia” devia haver uma praia,
pois não seriam aceitas adaptações ou cenas inspiradas em outros autores ou
mesmo em outros textos do próprio autor. O desafio dos diretores estava na
passagem do palco para a tela de um texto teatral que não podia ser alterado,
usando somente os recursos do meio audiovisual: o movimento de câmera, de
edição, a sonorização, a iluminação e os enquadramentos.
Por outro lado, foi dada total liberdade para os diretores escolherem o
elenco, pois os produtores esperavam que fossem contratados atores e atrizes
de renome com quem eles já haviam trabalhado, trazendo assim credibilidade ao
projeto. A atriz Julianne Moore foi convidada para protagonizar Not I,
dirigido por Neil Jordan; o ator John Hurt para o papel de Krapp em Krapp´s
last tape, dirigido por Atom Egoyan; Jeremy Irons protagoniza os dois
personagens, Reader e Listener, de Ohio Impromptu, dirigido por Charles
Sturridge e Harold Pinter faz o papel do diretor em Catastrophe, dirigido por
David Mamet.
O produto audiovisual
Como produto audiovisual, os filmes foram captados em película e foram
disponibilizados também em DVD. Para a transmissão televisiva, como a maioria
dos filmes é de curta-metragem, eles foram divididos em blocos para serem
exibidos em dias e horários diferentes acompanhados de entrevistas com os
diretores e atores, as quais também se encontram no DVD juntamente com um
making of de 52 minutos.
Porém, torna-se necessário comentar que os filmes, ao
serem exibidos em festivais de cinema ao redor do mundo, tiveram uma ótima
acolhida por parte do público, mas quando foram exibidos na televisão os
índices de audiência foram tão baixos que o próprio Channel 4 resolveu não
exibir todos eles. Ainda assim, o projeto ganhou o prêmio Best TV Drama do
South Bank Award Ceremony, em 2002.
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Apesar de alguns autores do fechado círculo do mundo Beckett não terem
gostado das adaptações, por serem adaptações de trabalhos que o autor tinha
tão enfaticamente recusado que fossem adaptados, é importante ressaltar que
estes filmes se tornaram um paradigma para o estudo do trabalho do autor. De
uma certa forma, eles renovam a performance e a crítica à obra de Beckett no
começo de um novo século em que o modo de ver o mundo e fazer arte mudou
radicalmente em função do desenvolvimento das novas tecnologias.
Como conseqüência, as novas gerações terão um novo olhar sobre estes produtos
audiovisuais que serão assistidos em formato digital. Se, por um lado, as
peças perderam a imediaticidade da performance ao vivo que é intrínseca à
linguagem teatral, por outro lado, elas se tornaram mais acessíveis e
popularizaram o trabalho do autor e, mais do que isso, deixaram as suas
idéias “impressas” em formato digital ad infinitum.
A transcriação de Krapp’s last tape
 
O ator John Hurt e o diretor
Atom Egoyan
A peça Krapp’s last
tape foi escrita em 1958, depois que Samuel Beckett começou a escrever peças
de rádio para a BBC e, de uma certa forma, aponta algumas preocupações do
autor com relação aos mecanismos de gravação dos sons. Ela também introduz o
uso da tecnologia para apresentar a ambigüidade do tempo não-linear que foi
melhor explorado nos trabalhos de Beckett para o cinema e a televisão. O
diretor responsável pela transcriação, Atom Egoyan, tinha conhecimento da
obra de Beckett e procurou usar a câmera como uma espécie de personagem, que
é também a principal característica de Film, em que o protagonista é dividido
em dois, a câmera- sujeito E e o objeto O, interpretado por Buster Keaton.
Elementos estéticos
No cenário, vê-se o personagem Krapp sentado numa mesa com algumas caixas com
rolos de fitas de áudio e um gravador de rolo, ambos iluminados por um
holofote vertical. Na transcriação, Egoyan optou por um cenário com mais
objetos de cena do que previstos no roteiro de Beckett. O cenário é ocupado
por estantes cheias de rolos de fitas e cacarecos iluminados por uma luz
azul.
O filme foi protagonizado pelo ator irlandês, John Hurt, que representou esta
peça muitas vezes no teatro. Ao relembrar a sua vida no presente do vídeo, o
personagem Krapp é assombrado pelas memórias do passado, lutando para
reconciliar percepção e realidade.
A imagem audiovisual permitiu desdobrar o tempo entre o passado e o presente
e subverter a sucessão temporal no presente do vídeo. A câmera dialoga com o
som das memórias gravadas, que se mesclam com as memórias do momento em que
estão sendo ouvidas.
No vídeo, vê-se a imagem de Krapp escutando uma fita de áudio gravada há
trinta anos atrás, no dia em que fez 39 anos. Esta fita, por sua vez,
refere-se à memória de um passado mais distante, pois Krapp estava repensando
sua vida de dez ou doze anos atrás, quando ainda estava com uma mulher
chamada Bianca e tinha muitas aspirações e promessas, como parar de beber,
por exemplo.
Com relação ao tempo, o filme apresenta três momentos distintos da vida de
Krapp, mas de tal maneira que eles se imbricam e o personagem luta para
diferenciar a percepção da realidade. As imagens de uma peça de um homem
gravando as suas memórias constroem um diálogo das linguagens fílmica e
teatral com a tecnologia de gravação da voz.
Sua voz no gravador lembra-se do ano de profunda melancolia e miséria pelo
qual tinha passado, da morte de sua mãe, que viveu os últimos dias de sua
viuvez numa casa ao longo do canal. Mas, naquela noite, ele queria gravar a
memória de uma visão muito importante que teve numa noite em março, quando
estava no cais. No presente, Krapp está impaciente e quer gravar aquelas
memórias porque acredita que um dia terá se esquecido delas ou talvez não
terá mais espaço na sua memória para guardá-las. No passado, a sua voz
declara:
(…) my face in her
breasts and my hand on her. We lay there without moving. But under us all
moved, and moved us, gently, up and down, and from side to side. [Pause.]
Past midnight. Never knew such silence. The earth might be uninhabited.
(Beckett, 1990, p. 220)
No presente, Krapp
rebobina a fita e escuta novamente a passagem inteira em que conta o seu
último encontro com a amada, quando decidiram que não deviam mais ficar
juntos. Neste momento, presente e passado se imbricam novamente porque ao
mesmo tempo em que escutamos a voz de Krapp, o vemos pensando sobre este
momento da sua vida, ou seja, o passado se atualiza em presente e, no áudio,
escutamos a repetição das mesmas palavras:
(…) my face in her
breasts and my hand on her. We lay there without moving. But under us all
moved, and moved us, gently, up and down, and from side to side. [Pause.]
Past midnight. Never knew such silence. The earth might be uninhabited.
(Beckett, 1990, p. 221)
Krapp começa então a
gravar as sensações que teve ao escutar a fita. Repensa a sua vida e percebe
que o seu modo de ser, viver e sofrer não mudou muito e, o que é pior, suas
manias continuam as mesmas. Acha-se estúpido e ridículo e diz que é difícil
acreditar que era daquele jeito. Graças a Deus que já passou. Grava o seu
silêncio de indignação. Pensa que não teria sido feliz com ela. Conta que
Fanny, uma puta esquelética, tinha lhe visitado algumas vezes e lembra-se dos
momentos que passou com ela.
Krapp coloca novamente a fita de trinta anos atrás e escuta novamente a mesma
passagem até o fim.
(…) my face in her
breasts and my hand on her. We lay there without moving. But under us all
moved, and moved us, gently, up and down, and from side to side. [Pause.]
Past midnight. Never knew such silence. The earth might be uninhabited. Here
I end this reel. Box - [Pause.] - three, spool - [Pause.] - five. [Pause.]
Perhaps my best years are gone. When there was a chance of happiness. But I
wouldn’t want them back. Not with the fire in me now. No, I wouldn’t them
back. (Beckett, 1990, p. 223)
As mesmas passagens da
fita e da vida de Krapp são ouvidas três vezes, no vídeo vemos
planos-sequências que nos fazem perceber o tempo e a câmera alterna entre o
movimento do personagem e o movimento para frente e para trás da fita
cassete. A câmera não somente filma a peça, ela também participa, atuando de
alguma forma.
Neste filme, Egoyan conseguiu fazer com que a tecnologia audiovisual
enriquecesse o contraste entre a memória e a memória gravada, e reorganizasse
a dimensão espaço-temporal, colocando em questão a incapacidade humana de
comunicação e de compreensão de si mesmo.
Alguns diálogos
De uma certa forma, a obra de Beckett explicita o diálogo entre várias
mídias, seja por intermédio do próprio processo criativo do autor, que
permitia passagens, referências e experimentações com os recursos dos
diferentes meios em que trabalhou, como também recentemente pela transcriação
de sua obra para o cinema e a televisão. Esta é uma tendência que está
presente no mercado audiovisual da Grã-Bretanha desde a criação do Channel 4
em 1982, cujo intuito era encorajar a inovação e a experimentação na forma e
no conteúdo dos programas e que acabou promovendo a convergência entre a
televisão de qualidade e o cinema de arte.
Neste sentido, percebe-se a criação de um espaço audiovisual mais amplo em
que os produtos audiovisuais são concebidos para serem exibidos em mercados
domésticos e internacionais com propostas estéticas que ultrapassam os
limites impostos por cada um dos meios em que se nutrem.
Portanto, a transcriação das peças de teatro de Samuel Beckett não somente
renovam a crítica ao trabalho do autor, servindo como referência para o
estudo de sua obra, como também coloca em discussão a convergência entre as
várias mídias, que é uma das características do meio audiovisual no novo
milênio.
Gabriela Borges é
pesquisadora em linguagens e estéticas dos meios audiovisuais. Doutora em
Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Atualmente desenvolve pesquisa de
pós-doutoramento sobre qualidade na televisão pública portuguesa na
Universidade do Algarve/Portugal e escreve um livro sobre os trabalhos
audiovisuais de Samuel Beckett. Esta pesquisa foi realizada com o patrocínio
da Capes.
Referências Citadas
BALLOGH, Ana Maria. Conjunções,
Disjunções Transmutações. Da literatura ao cinema e à TV.
São Paulo: Annablume, 1996.
BECKETT, Samuel. The
complete dramatic works. 2ªed. Londres:
Faber and Faber Limited, 1990.
JOHNSON, Randal. Literatura
e cinema. Macunaíma: do modernismo na literatura ao cinema novo.
Trad. port. Aparecida de Godoy Johnson. São Paulo: T.A. Queiroz, Editor,
1982.
KNOWLSON, James. Damned
to fame. The life of Samuel Beckett. Londres: Bloomsbury
Publishing, 1997.
RAMOS, Luiz Fernando. O parto de
Godot e outras encenações imaginárias: a rubrica como poética da cena.
São Paulo: Hucitec\Fapesp,1999.
ZUMTHOR, Paul. Performance,
Recepção, Leitura. Trad. Port. Jerusa Pires Ferreira e
Suely Fenerich. São Paulo: Educ, 2000.
* Riding, Alan.
Interview with Michael Colgan in Beckett on film website. [En linea]. Dublin:
Blue Angels Films, 2001. <http://www.beckettonfilm.com> Consulta: 25
de abril de 2005.
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