Ficção e realidade como simulacros em A Rosa Púrpura do Cairo

Telma Valente

Prólogo

Seqüência I

Part. I
Acordou cedo. Vestiu-se para o trabalho. Deixou a casa. Tomou as ruas. Trânsito intenso. Buzinas intensas. Calor intenso. Dia duro de trabalho. Pessoas duras no trabalho. Fim do dia. Retornou para casa. Trânsito intenso. Buzinas intensas. Clima morno. Casa morna.

Part. II
Acordou cedo. Vestiu-se para o trabalho. Deixou a casa. Tomou as ruas. Trânsito intenso. Buzinas intensas. Calor intenso. Dia duro de trabalho. Pessoas duras no trabalho. Fim do dia. Retornou para casa. Desviou para o cinema. Entrou no cinema.


Deteve-se diante dos cartazes. Passeou o olhar pelos títulos, pelos nomes ilustres, pelas cores, pelas texturas. Encaminhou-se para a bilheteria, comprou um ingresso. Inebriou-se com o cheiro quente da pipoca amanteigada. Excitou-se com o cacau dos chocolates. Deslizou até a roleta da, finalmente, entrada do cinema. Foram segundos de indefinição, um ínterim entre o aqui fora e o lá dentro.

Chegou à sala escura. Deixou a vida escura. As contas, as broncas, as mágoas, as lágrimas. Reuniu-se à multidão. Isolou-se na tela grande do cinema. Viveu. Lutou. Venceu. Matou. Morreu. Amou. Odiou. Seduziu. Sucumbiu. Foi anjo. Foi demônio. Foi o possível. Foi o impossível. Revigorou-se.

Part. III
Acordou cedo. Vestiu-se para o trabalho. Deixou a casa. Tomou as ruas. Trânsito intenso. Buzinas intensas. Calor intenso. Dia duro de trabalho. Pessoas duras no trabalho. Fim do dia. Retornou para a casa. Trânsito intenso. Buzinas intensas. Clima morno. Casa morna.



Essa sinopse poderia descrever um filme que está em cartaz nos cinemas das grandes capitais. Na verdade, ele está em cartaz também nas pequenas capitais e nas cidades menores. Já passou da centésima semana em cartaz. É um recorde de bilheteria do século. Alguns críticos atribuem tamanho sucesso ao ótimo desempenho dos atores e atrizes da trama. Nunca se viu tamanha carga emocional na interpretação de seus personagens. Outros acham que os cenários contribuíram grandemente para o resultado satisfatório. Mas o segredo de um bom filme reside quase sempre num excelente roteiro. Afinal, quem não se impressionaria com esta fascinante história!

A ação se passa nos dias de hoje, que na verdade são os dias de sempre. Sempre a tensão entre opostos. Ficção e realidade. Real e ilusório. Verdadeiro e falso. Possível e impossível. Sonho e pesadelo. Perfeição e imperfeição. Certo e errado. Bem e mal. Amor e ódio. Vida e morte.

Esta é a história de todos nós, a conhecemos e nela nos reconhecemos. Dela necessitamos, já que dela nos realimentamos.

Poderíamos ser João, Maria ou José, não importa. A história sempre se repete. Porque a repetição faz parte da história. Acrescente-se, então, mais uma oposição às citadas acima: ida e volta. Depois de saciarmos a nossa sede nas águas da ficção, conseguimos, assim, voltar à realidade, até que um outro gole seja necessário.

Refugiamo-nos na sala escura do cinema, mas também poderia ser nas arquibancadas de um estádio de futebol, ou nas da Marquês de Sapucaí. Ou ainda, nos bancos das igrejas. Talvez, quem sabe, tomaríamos o caminho mais cômodo onde, no aconchego do lar, nos isolaríamos para nos unir aos milhões de habitantes que estariam, também, naquele momento, assistindo à novela das oito. Mas se a opção for mesmo pelo cinema, nada melhor do que acompanharmos a história de Cecília e Tom Baxter. Com você: A Rosa Púrpura do Cairo.

Introdução

Este ensaio tem por objetivo analisar o objeto fílmico A Rosa Púrpura do Cairo (1985) do diretor Woody Allen, à luz dos princípios da semiótica discursiva. Através de dois recortes principais feitos no referido filme – e envolvida pela estória de Cecília, Tom Baxter e Gil Sheperd – apresento alguns elementos observados nas leituras dos níveis fundamental e narrativo.

O trabalho é conduzido através de um relato cinematográfico, que pretende, com isso, mesclar método e objeto de estudo. O tratamento inicial deu-se na forma de um flashback, não no que se refere à história contada no filme, mas em termos conceituais – apresentando em primeiro lugar o nível fundamental da situação estudada. A partir da verificação da oposição existente no objeto, ou seja, do par de opostos ficção e realidade, optamos por orientar o nosso estudo pela instituição das categorias ficção e realidade como simulacros construídos no texto. Prosseguimos com o desenvolvimento do trabalho evidenciando o nível narrativo observado. Apresentamos as seqüências canônicas percebidas através das diversas formas de manipulação. Continuamos demonstrando as competências constatadas nos actantes em questão, que resultaram, por fim, em performances.

Quanto ao nível discursivo, há que se dizer que este terá que ser examinado numa outra oportunidade. O mesmo foi abordado muito superficialmente nesse estudo inicial.

É necessário dizer ainda, que a feitura deste trabalho o enquadra e/ou qualifica como um ensaio. A escritura desse texto procurou atender a um anseio de um estilo literário que se impôs. A “licença poética” para proceder dessa maneira vem do texto Sobre el contagio de Eric Landowski, que discute, entre outras coisas, duas concepções do objeto texto. Por fim, a leitura desse texto deve ser precedida pela exibição do filme A Rosa Púrpura do Cairo – sem cortes – bem como dos dois momentos principais de análise.

Seqüência II

Após ser despedida, Cecília caminha sozinha pelas ruas de uma New Jersey recessiva dos anos 30/40. Os tons em marrom das suas vestes se confundem com os marrons e cinzas à sua volta. Pedaços de paredes de prédios de tijolinho exposto, metades de calçadas, restos de rua. Cecília passa pela paisagem urbana sem se importar com ela.

Marrom é também a luz de um dia frio de outono, que faz Cecília curvar-se levemente para frente, cruzar os braços – como para aquecer-se – encolher os ombros. Mais do que o frio das ruas é o frio da desesperança que a assola. Escuro também é o seu olhar, ladeado por negras olheiras. Vago, distante, apagado, mal conseguimos vê-lo. Lágrimas escorrem pela sua face sem menor esforço. O corpo continua em frente, quase claudicando, a passos lentos, sem rumo.

Nenhum pensamento e todos os pensamentos estão passando pela sua mente. Talvez todos os sonhos também. Foram justamente os seus devaneios que a fizeram demitida. Difícil viver quando se sabe apenas sonhar.

É exatamente neste momento que algo lhe chama a atenção. Ela, que até então nada via estaca, pára. Seus olhos parecem ter visto o que os nossos já tinham percebido. No início eram luzes que anunciaram letras, que, depois, se transformaram em frase. Atrás de Cecília – parada, estática – lemos ao alto: A Rosa Púrpura do Cairo.

_ Voltamos do Egito. Dos beduínos à Brodway. Não sou religioso, mas juro não viajar com tempo ruim. Nem olhar para outro camelo. Drinques?
_ Mal posso esperar para trocar de roupa e sair

Cobertura de um edifício novaiorquino. Mordomo, champanhe, trajes sofisticados. Drinques, passeios. Tudo tão fácil, tudo tão fútil.

Antes da história começar um grande retângulo enquadrou o nosso olhar. Manteve-nos em suspense por segundos. Olhos fixos num recorte preto e branco que enquadrava um hall de entrada. Esperamos ansiosos alguém descer por aquelas escadas brancas, enquanto aguardávamos, a música suave de fundo nos fez companhia.

_ Estou impressionado.Tem um apartamento espetacular. Nem acredito que há 24 horas eu estava numa tumba egípcia. Ainda nem conhecia vocês. E agora, estou no começo de um animado fim de semana.
_ Espero que goste de martini seco
_ Não, obrigado. Vou esperar pelo champanhe do Copacabana
_ Pensando em alguma coisa? Não é a mesma desde que voltou
_ Não é nada. Vai ficar tudo bem
_ Não tem nada a ver com aquele explorador Sr. Tom Baxter?
_ Por que você acha isso?
_ Pelo jeito dele falar... tão romântico!
_ Prepare meu banho Delilah
_ Sim, senhora. Vai querer banho de espuma ou de leite?
_ Mal posso esperar para trocar de roupa e sair
_ Não percamos tempo. Marcamos com Larry e a Condessa no Copacabana.
_ Estou impressionado.Tem um apartamento espetacular. Nem acredito que há 24 horas eu estava numa tumba egípcia. Ainda nem conhecia vocês. E agora, estou no começo de um animado fim de semana. Meu Deus. Você deve adorar este filme!
_ Eu?
_ Ficou aqui o dia todo. Eu já a vi duas outras vezes.
_ Eu?
_ É, você . É a Quinta vez que vê este filme. Preciso falar com você.
_ Está do lado errado da tela
_ Espere. Estamos no meio da história
_ Não podemos…Continuem sem mim.
_ Quem é você?
_ Ce-Cecília
_ Eu vou… chamar o gerente!
_ Vamos sair para conversarmos
_ Mais…você está no filme
_ Errado. Estou livre. Depois de 2.000 apresentações repetidas estou livre.
_ Padre Donnelly. Tom!
_Não estou entendendo! O que está havendo? Quem é você?
_Viu o filme cinco vezes. Sou Tom Baxter poeta e explorador
_Eu sei.Você fica com a Kitty Haynnes, a cantora
_Isso era antes
_Como assim?
_Saio antes do casamento. Estou livre
_Tem que se casar com ela
_Não mais
_Eu estou aqui e ela lá
_Ela é tão bonita
_Não para mim. Ela é magra demais
_Kitty Haynnes magra?
_Preciso de um lugar para me esconder. Eu nunca vou voltar. Vou ficar com você
_Um lugar para se esconder? Para se esconder?


Seqüência III

Espanto. Descrédito. Surpresa. Cecília é agora a protagonista de uma história que sabia existir apenas em sonho.

Foi uma vida inteira assim, imaginando um convívio muito íntimo com atores e atrizes. Afinal, sabia de tudo das suas vidas. Quem era casado com quem, se estava bem casado ou não. Até comentava com as amigas que fulana seria melhor esposa para beltrano, em tom de conselho amigo.

A luz que emana da tela sempre lhe pareceu mais bonita, mais clara do que a que vinha da sua própria vida. E que vida!

Dona-de-casa, essa jovem mulher passava os dias numa lanchonete servindo – atrapalhadamente – clientes ríspidos. Ríspido também era o seu chefe, que a todo momento a corrigia, quase certo de que ela não teria futuro naquele lugar.
A aspereza do trabalho só não era maior que a aspereza do marido Monk. Desempregado, desocupado, desinteressado de Cecília. Interessava-lhe apenas o dinheiro que ela – a duras penas – trazia para casa e que ele, facilmente, perdia no carteado.

Tempos difíceis. Tempos de guerra. Tempo que se quer esquecer até que passe, como se alguém tivesse estipulado um intervalo para a troca do primeiro rolo de filme e estariam todos, então, a espera do seu recomeço.

O que Cecília não imaginava é que o outro filme que começara seria a história da sua vida. A partir daí seria difícil para ela perceber qual o limite entre a realidade e a fantasia. Cecília nunca soube muito bem como fazer esta distinção. Não era à toa que quebrava tantos pratos no seu serviço, enquanto enumerava os vários filmes já vistos para a irmã.

Daí a acontecer de verdade. E com ela! Foi difícil de acreditar. Ela chegou a desconfiar quando Tom Baxter começou a olhar de canto de olho para ela. Mesmo assim, voltou-se para trás para certificar-se de que era ela mesmo que Tom fitava. Por duas vezes perguntou: “Eu?”

Mesmo quando Tom, saído da tela, a convidou para saírem dali para conversar ela tentou ainda argumentar: “Mas…você está no filme”.

Uma situação inusitada como essa só teria espaço num cinema um tanto quanto peculiar. A sua fachada é tipicamente urbana – vemos pessoas passando nas ruas, lojas, calçadas – já a porta por onde saíram Tom e Cecília, em busca de um lugar para se esconder, permite-nos avistar uma área campestre. Cidade versus campo. Mais uma dicotomia à nossa lista. Talvez ainda, fantasia versus fantasia, já que - logo veremos – ser para um parque de diversões que Cecília leva Tom. Não poderia existir melhor opção para um personagem de película.

Cinema e parque de diversões. Instâncias do lazer, do prazer,do sonho. Ilusão. Fluidez. Leveza. Pipoca. Algodão doce. Sala escura. Carrossel. Férias. Dia de folga. São os espaços topológicos onde é construído o mundo ficcional. Bem diferentes da casa de Cecília, ou mesmo da lanchonete onde ela trabalhava. Desilusão. Amargura. Vassoura. Pratos. Comida para preparar. Instâncias do trabalho, da obrigação, da construção do mundo real.

Cinema ou casa. Parque de diversões ou lanchonete. Não importa qual seja a escolha. Basta saber que a tela é o limite. Ela é que permitiu a travessia de um mundo para o outro. Ela é que proporcionou a passagem para o mundo real.

Seqüência IV

As imagens que fazem rir ou chorar, o amor e o ódio que sentimos são apenas projeções numa superfície côncava e opaca. São figuras de luz que existirão enquanto a luz do projetor não for apagada. Fantasma. Magia. Bruxaria. Já possuíram muitos nomes. A nomenclatura deste final de século cunhou mais um: virtual.

Ganhamos coragem. Experimentamos medos jamais desejados. Ah se pudéssemos abraçar o mocinho! Mas, no fim, são 24 quadros por segundo gerando a ilusão de movimento. Um filme é isso. Imagens capturadas em película e vislumbradas através do feixe de luz que sai do alto, incide na tela e volta para nós.

The end! As luzes se acendem. Mas qual não é a nossa surpresa ao voltarmos para casa com uma companhia que não esperávamos. É o herói ou a heroína do filme, mas também poderia ser o vilão, o assassino. Eles dormiram conosco naquela noite e ainda permaneceram por perto dias seguidos. Eles vivem em nossas mentes. E nós vivemos nas deles.

Realidade ou ficção, o que temos – de fato – são dois simulacros: mundo real e ficção. Eles existem em paralelo, um ao lado do outro. São mundos excludentes, não são complementares. Embora a ficção seja a alternativa para a realidade e vice-versa. Viver em qualquer um dos dois mundos implica em enfrentar as limitações que eles possuem.

Cecília não soube responder ao conjunto de circunstâncias nas quais ela se encontrava. Não foi capaz de manter-se num emprego. Não conquistou um casamento feliz. Não despertou o amor no coração de ninguém. Refugiou-se na ficção. Com essa recusa ao mundo real, ela deu-nos a falsa impressão de estar sonhando acordada, quando, na verdade, estava apenas confundindo as coisas.

Seqüência V

Quem, na verdade, pensou estar sonhando foi Tom Baxter. Não era para menos. O mundo real o surpreendeu em vários momentos.Tom já conhecia o parque de diversões, ou melhor dizendo, já havia estado em um com Kitty numa das cenas do filme. Mas ele saiu da segurança do parque de diversões – fechado até o verão – para a cidade.

Primeira grande surpresa: seu dinheiro era de “brinquedo”. Isto fez Tom passar seu primeiro vexame diante de Cecília, já que os dois tiveram que sair “de fininho” de um restaurante por não terem dinheiro para pagar a conta (a não ser dinheiro de cinema).

 

 

 

 

 

Esta não seria a única surpresa. Mais um constrangimento Tom passou ao tentar fugir com Cecília da perseguição do maître do restaurante. Convidou-a a entrar dentro do primeiro carro que avistou, mas nada aconteceu. “É preciso ter as chaves” - disse Cecília. ”Nos filmes é só entrar que eles andam”, esclareceu Tom.
Apesar de alguns contratempos, Tom estava determinado a aprender tudo sobre o mundo real. As aventuras no restaurante não foram nada. Difícil mesmo foi explicar o significado de Deus para ele. Ao receber a explicação de que é a origem de tudo, o universo, o mundo – algo maior que está acima de todas as coisas – ele rapidamente se pronunciou: “você fala dos roteiristas do filme?”
Tom tentava ser real, mas como poderia, alguém com sentimentos tão nobres, capaz de resistir à luxúria, ao prazer fácil e extravagante de atraentes prostitutas. E houve quem pensasse que ele – solto no mundo real – fosse cometer crimes. “Pense nos processos contra nós, alertaram os assistentes ao produtor do filme, Raoul Hirsch”.

Ele foi criado dócil, gentil, idealista, corajoso. Tal coragem foi necessária para enfrentar Monk, o marido de Cecília, que - enraivecido – tentou levá-la de volta para casa à força. Da luta corporal travada entre eles, Tom saiu perdedor depois de ter recebido um golpe baixo de Monk. Mas ganhou o coração de Cecília, que contagiada por esse comportamento cinematográfico, enfrentou o marido. Se bem que não chega a ser uma tarefa difícil enfrentar um brigão quando se é um personagem de celulóide. Ele não se machuca, nem mesmo chega a ter um só fio de seu cabelo fora do lugar.

Nosso personagem é a perfeição. Só não é real. Justamente o ponto forte do ator Gil Sheperd, que o interpretou na vida real. Colocados frente a frente eram duas metades que se completavam perfeitamente. Combinação fascinante, mas muito improvável. Cecília terá que optar por um dos dois. Terá que decidir se deixará se manipular pela magia, fantasia e ilusão do cinema, ou se resistirá à tentação e ficará com a vida real.

Seqüência VI

Pobre Tom. Ele também está a se perguntar: quem Cecília escolherá? São minutos de incerteza, de indefinição, mas também de esperança, de otimismo. Afinal, quem poderia resistir a um explorador, aventureiro, poeta que, além de tudo, beija bem?

Tom acredita estar Cecília tão apaixonada como ele. Pensa que Cecília, assim como ele, não conseguiu se desviar do seu destino. Estava escrito nas estrelas, ou em algum roteiro, que Tom cairia de amores por Cecília. O desejo dele de conhecer o mundo real fez um sentimento de amor intenso florescer no seu coração. Fez com que ele tentasse aprender a ser real.

Ele bem que se esforçou, mas a realidade fez Tom descobrir que nem todo mundo é digno de confiança. Fez Tom saber que nem tudo acaba bem, que o dinheiro – assim como o emprego – andam escassos.

Tudo isso Tom aprendeu. Mas ele também ensinou. Fez sorrir Cecília. Fez feliz Cecília. Mas parece que Cecília não aprendeu.

Seqüência VII


A luz da paisagem se aproxima de um sépia. São os galhos das árvores desfolhadas do inverno. É a cor árida da terra recoberta pelas folhas caídas. A ferrugem da roda gigante compondo com a madeira da cerca em torno do parque. Os tons castanho e cáqui nas roupas de Cecília e Tom, confundindo-se com o castanho dos olhos. Olhos de Tom, cheios de saudade de Cecília, receosos pela sua ausência, esperando para vê-la receber o ramalhete de flores campestres que ele irá oferecer-lhe.

Mas os olhos de Cecília estão cheios de dúvida. Ainda mal recuperada do encontro com Gil, que acabou por beijá-la, ela está confusa. Impossível não sucumbir a tão galanteador cavalheiro. Esse beijo também habitava os seus sonhos. Enlevada pela música, que toca no íntimo dos apaixonados, tudo parecia perfeito, não fosse a lembrança de Tom surgir à mente de Cecília.

Ela parecia girar como aquela roda gigante parada no parque. Imóvel na paisagem, ela roda no interior de Cecília. Ora para um lado, onde pesa a devoção e a adoração de Tom. Ora para um outro lado, que pende para o charme, as lisonjas de Gil Sheperd. Cecília não consegue fazer parar esta roda gigante.
Quem apertou o botão e fez parar o brinquedo foi Tom. Ele deu um basta, momentâneo, nos questionamentos de Cecília e propôs uma inconseqüência: “vamos viver a vida, que ela é curta”. Mas mal ele disse isso e qual não foi a nossa surpresa quando vimos aparecendo, vagarosamente, preenchendo todo o quadro, com todos os seus aros e com toda a sua magnitude – a grande roda gigante.

Foi como se a câmera enxergasse, por alguns segundos congelados, só isso. Foi como se nós só tivéssemos conseguido ver a grande roda. Que giro será dado desta vez? Logo saberíamos que seria Cecília quem iria girar, ou melhor, dar uma volta. Ela voltaria para o seu mundo de sonhos. Tom voltaria para o seu mundo de celulóide. Os dois entrariam juntos na tela.


A entrada

“É lua cheia, as estrelas brilham e vamos nos divertir”, diz Tom. No entanto, continuou no céu a mesma cor sépia. Não apareceram a lua e as estrelas de Tom. Espere um momento! Ao saírem do parque e, aparentemente, atravessarem uma “rua” fez-se noite. Assim, como se o tempo fosse cronometrado conforme o desejo dos dois.

Mais estranho ainda foi o fato dos dois entrarem no cinema pelos fundos, sorrateiros. Pecaminosos. Profanadores. Havia um ar de clandestinidade nessa entrada. Medida de precaução seria aceitável, já que todos procuravam por Tom. Mas mais provável ainda era a idéia de violação de algo. Eles iriam profanar o ilusório com o real.

A tela

A imponência do cinema fez calar os nossos sentidos. Não ouvimos, não respiramos. Ficamos apenas suspensos no espaço por alguns segundos de contemplação. Logo invadiu o nosso ser a amplitude da sala, sua perspectiva da última fileira até o início da borda da tela. A luz do escuro. O tom do escuro. O grande retângulo.

Nossa suspensão foi fendida quando se aproximou Cecília da grande tela. Precipitou-nos do alto, do ar, em queda livre para dentro do cinema, ao mesmo tempo em que Cecília se precipitou a entrar na tela!

A rosa púrpura

O mundo ficou preto e branco de repente. Seus sonhos eram coloridos, mas para Cecília o que importava era ver o tom dos seus desejos mais íntimos brilharem na sua frente, como fatos consumados, como concretude, tão sólida quanto o é o celulóide. Era poder pisar naquele apartamento novaiorquino. Admirar aquele luxo da alta sociedade. Ver-se frente a frente com figuras tão ilustres.

Copacabana

“Como pode ser? Vai gerar um desequilíbrio!” gritava um dos personagens à invasão (ou inclusão) de Cecília. Mal estar logo superado, logo abandonado para todos se divertirem. Afinal, tinham reservas no Copacabana! Reserva para seis, é verdade. Mas nessa noite seriam sete. Simplesmente porque assim queriam todos. Pasmem! Todos mesmos.

Cecília saboreou, junto com o champanhe, cada detalhe daquele salão. A mesa espaçosa, onde cabiam sete pessoas, de toalha até o chão, enfeitada com extravagantes taças de champanhe. A orquestra afinadíssima, que tocava no ritmo das batidas do seu coração. O brilho das luzes, que era tão intenso quanto o dos próprios olhos de Cecília, maravilhados com tanta beleza. Até mesmo o champanhe, ou melhor, “ginger” – como constatou Cecília – não tirou dela esse momento de êxtase. Emoção igual só a da cantora Kitty, que embalou com sua voz grave e aveludada os goles de champanhe, digo, “ginger” de Cecília.

Somente um desequilíbrio poderia por fim a esse delírio. “Kitty, ela é real”, esclareceu o mordomo. Foi o bastante para o real e o ilusório se estranharem. E como foi estranho saber o que fazer nesta situação. Tom logo o soube: “e cada um por si…” e fugiu com Cecília para mostrar-lhe a cidade. Foi logo seguido pelo garçom, que – diante dessa “mudança no script” – pôde libertar-se.
Afinal, o mundo fictício está entregue à injunções muito mais cruéis do que o mundo real. Neste há ainda a possibilidade de se escolher o papel que se quer desempenhar (mesmo que dentro de um leque reduzido de opções). Já no ficcional os papéis são fixados, determinados pelo roteirista ou diretor.

Existe uma limitação na ficção que não pode ser verificada no mundo real. Bastou Tom sair da tela para os outros personagens da história não saberem o que fazer. Perdeu-se, com isso, o fio condutor ao qual estavam todos atados. Sem ele reinou a inércia. Ou ainda, o pavor, o medo de alguém desligar o projetor e desaparecerem todos.

A noite na cidade

Quem disse que o delírio de Cecília tinha chegado ao fim? Ele apenas havia começado. E não foi só um apenas. Foram vários. Várias passagens pela noite novaiorquina. É difícil imaginar algo que possa ser mais fascinante do que aproveitar os prazeres da Big Apple na sua época de maior glamour. E na companhia de um explorador, aventureiro, poeta!

Harlequin Club, The Hot Box, Brodway Dance Palace, Club Harlem, Latin Quarter… jazz, salsa, merengue. Cecília voava, ou melhor, borbulhava tal qual as bolhas do champanhe consumido na noite das grandes capitais. Eram bolhas claras, era uma espuma que tingia de prata aquele lugar em preto e branco visitado por Cecília. Mas, bem entendido, era prata e não ouro, conforme a frase: “nem tudo que reluz é ouro”.

O espelho

Nem tudo que é sonho dura para sempre. Nem mesmo o telefone branco, tão imaginado por Cecília, seguido dos beijos vermelhos da paixão, a salvariam de Gil Sheperd. “Cecília!” gritou Gil. Foi o bastante para o sonho acabar. Mas ao invés de acordar, Cecília começou a ter um pesadelo. E agora? Tom ou Gil Sheperd? Escolha nada fácil para uma mulher que – há uma semana atrás – não era amada por nenhum homem.

Cecília, que já estava se acostumando com a idéia de ficar com Tom “é fictício, mas não se pode ter tudo” – ficou dividida com a declaração de Gil.

_ Fique com o de verdade, querida!
_ Fique com Tom, ele não tem defeitos
_ Fique com qualquer um
Cecília preferiu o real.
_ Está rejeitando a perfeição!



Tantas intervenções, como as citadas acima, revelam-nos que os personagens do campo ficcional podem se rebelar tanto ou mais do que aqueles do mundo real.

O lar

“Amor à primeira vista não acontece apenas no cinema”, disse Cecília à Monk justificando sua saída de casa para viver com Gil Sheperd em Hollywood. Ela estava decidida. Nunca se manteve tão firme, mesmo com os apelos do marido. Enfrentou-o, desafiou-o. Amarrou sua mala com uma corda e foi embora.

_ Vá veja como é o mundo lá fora!
Não é cinema, é a vida real!

Cecília escolheu Gil Sheperd porque acreditou ver no mundo real a promessa de felicidade que estava habituada a ver na ficção, com a vantagem de ser real. Mais uma vez ela deixou-se guiar por suas referências cinematográficas para encontrar soluções para a vida real.

A fuga

É para o alto que olhamos. Para a grande placa branca, para o vazio gélido que vai se instaurando com a retirada de um R e de outras letras. Somos levados pela câmera e pela música de fundo a olhar para a direita, de onde vem Cecília. Guitarra na mão, de “mala e cuia”, vem correndo como se estivesse atrasada.

A rua se movimenta ao seu redor. Pessoas passam. Carros passam. Calçadas se animam. Cecília pára. Dá uma volta em torno de si mesma. Pensa. Não entende. Procura. Pergunta. Ou melhor, perguntam a ela.

_Cecília, o que você está fazendo aqui?

Soou tão absurda esta questão! Ora, como se ele não soubesse que ela estava esperando Gil para partirem juntos para Hollywood, conforme ele prometeu. Absurdo? Não, espanto. Estupefata! Assim ficou Cecília ao saber que “Gil não via a hora de partir tão logo Tom voltou às telas, disse que a carreira esteve por um triz”.

Foi como se tivesse levado um soco na boca do estômago. O rosto empalideceu. A voz travou. O mundo começou a rodar. A paralisia tomou conta de Cecília, enquanto a vida lá fora seguia o seu curso.

Cecília teve uma dupla perda. Gil enganou-a, usou-a e depois que conseguiu o que queria – fazer Tom voltar para as telas – partiu de volta para Hollywood. Tom se foi junto com o filme que foi tirado de cartaz.

O vôo

No céu. Gil Sheperd está no céu, mas sua consciência estava num lugar indefinido. O vôo parecia tranquilo. O medo de voar parecia distante, porque outra aflição habitava o seu coração.

Gil, que desde o início dessa intrincada situação tinha clareza do seu “papel”, teve um desfecho não muito condizente com suas atitudes anteriores.

Ele foi vaidoso, ganancioso. Só se importou com a sua carreira, sua ascensão. Percebeu logo que o objeto de valor que Cecília perseguia era a ficção. Era justamente o que ela queria ao desejar Tom. Sabendo disso, Gil tratou de oferecer-lhe a mesma coisa. Manipulou Cecília por tentação “deixe Tom para seguir comigo para Hollywood”. Dessa forma – ao convencer Cecília – fez com que ela abandonasse Tom. Desiludido, este voltou para as telas. Deixou de ser um infortúnio para o ator.

No entanto, este mesmo Gil mostrou-se ligeiramente transformado ao final. Um ar de tristeza redimiu Gil perante nós. Só não o redimiu diante de Cecília, que não soube que fez Gil pensar. Fez Gil lastimar.

Céu

“Heaven, I’m in heaven…” A voz doce de Fred Astaire mostra uma saída para Cecília. De volta ao cinema. Voltaram as lágrimas. Voltou a face desolada de quem não sabe o que fazer. De quem não tem mais escolha. De um mundo que caiu. Passos no ar. Vestido esvoaçante dando giros no espaço. Agilidade. Graça. Beleza. Música eufórica. Escadarias deslumbrantes. Visual inebriante. Visual de sonho. Visual de Cecília sorrindo.

Esse final exuberante corrobora a perspectiva da construção de dois estereótipos hipertrofiados. Ao mundo real, o desemprego, a mendicância, a submissão, a humilhação, a precariedade, o frio, o escuro; ele é sempre ruim, o pior dos mundos. Ao mundo ficcional, a perfeição, o calor, as bolhas transparentes de champanhe; o paraíso.

Seqüência VIII

Nem sonho, nem realidade. Apenas um filme. Tudo aconteceu como de fato foi descrito. Tom Baxter saiu da tela e encontrou-se com Cecília. Esta entrou na tela e conheceu o mundo do cinema. Gil Sheperd a convenceu a voltar para o mundo real. Tudo foi possível, pois, afinal, estamos falando de cinema.

No início, era um lento movimento horizontal, que destacava o canto direito inferior do cartaz, onde se via a figura de um homem vestido de explorador, aventureiro, arqueólogo – que depois saberíamos tratar-se de Tom Baxter.
Continuando com o movimento horizontal, dessa vez para a esquerda, a câmera revelou as figuras de dois senhores vestidos a black-tie – outros dois personagens do filme – tipos afortunados na história. Por fim, num movimento vertical nos foi mostrada uma mulher, figura central de tamanho maior do que às outras, vestida de roupa de gala, penteado anos 30 – era a cantora Kitty – que deveria acabar casada com o Tom.

Só depois de alguns momentos realizando esse passeio é que a câmera nos apresentou o título do filme do cartaz: A Rosa Púrpura do Cairo. Dizem que é uma lenda. O próprio Tom Baxter não conseguiu encontrá-la. Talvez fosse um objeto de valor inacessível ou impossível. Assim como é impossível a conjunção da ficção com a realidade.

Mas o que nos chamou de volta a esse começo foi o reconhecimento de uma voz familiar. Ela apareceu muito discretamente, mas impregnou nossos ouvidos desde então. Não era para menos, afinal, era a voz de Fred Astaire.

“Heaven, I’m in heaven…” O filme começa e termina no céu. Na verdade, Fred Astaire nos antecipou, no início da narrativa, como seria a trajetória de Cecília. A letra da música reforçou o corredor isotópico que havia sido traçado na trama. Com apenas alguns segundos de trilha sonora nos foi anunciada a figura e a feitura de Cecília. Todos os acontecimentos a partir daí a levariam para esse mesmo lugar, o cinema, desejo maior da personagem.

Neste sentido Cecília e Tom eram muito parecidos. Um espelho. Duas faces de uma moeda. Ambos desejavam a libertação. Ela da realidade. Ele da ficção. Só mudavam os objetos de valor de um e de outro. Quem, na verdade, conseguiu o que queria foi Gil Sheperd. Isto porque ele teve a competência de não confundir os dois mundos.

Essa não foi uma história com “happy end”, apesar de ter tido muito glamour, bolhas de champanhe, luzes, brilhos, devaneios, sonhos… Depois de tanto sonhar, espero que você não tenha dormido. E já que você acordou, vamos fazer algo interessante. Vamos ao cinema!


Telma Valente é Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professora do Centro de Artes da Ufes – Universidade Federal do Espírito Santo. Ela faz parte do grupo de pesquisa do NIPP (Núcleo de Imagem Produção e Pesquisa).

Bibliografia
BARROS, Diana Luz de. Teoria semiótica do texto. São Paulo, Ática, 1994.
BJORKMAN, Stig. Woody Allen. Rio de Janeiro, Editora Nórdea, 1993.
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