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Oralidade, Mídia, Culturas
Populares (1) Resumo Com muita razão, estamos todos voltados para fenômenos que nos alcançam na virada do milênio, e que já se vinham gestando há muito, mesmo quando não pressentidos. São fatos, praticas e instrumentos que atingem nosso modo de ser, de viver e de pensar. Em ritmos velozes e contínuos, identidades se transformam ou se confirmam mais fortemente, alteridades se confrontam, poderes se firmam ou devastam. Nos sentimos ameaçados, alegres ou desesperados. Considera-se, com fortes motivos, estarmos vivendo uma revolução tão importante e intensa como aquela passagem do medievo para a Idade Moderna e, no domínio da comunicação, chega-se a falar em pós-humano, e no primado do maquínico. Há uma enorme bibliografia a respeito, livros, artigos, impressos,
suplementos culturais que veiculam diferentes posturas e posicionamentos
diante do assunto. O fato é que se implica nesta problemática
uma intrincada conexão dos diversos domínios do saber e,
muitas vezes, confundem-se os campos. É que juntamente com esta dominação vêm as tecnologias, alcances, confortos, conquistas que dificilmente podem ser recusadas. Ganhos e perdas, me parece, andam juntos, e a vida moderna via trazendo respostas e impasses a uma série de desafios. A cada passo se insinuam princípios e perguntas. Como, quando, para quem? Mas não podemos deixar de lado a instância cultural, em seus próprios planos, o modo pelo qual processos, transferências, apreensões e cooptações se dão no bojo do que chamamos cultura. E como não no preocuparmos com o tema, se ele faz parte da cogitação, das praticas e dos ensinamentos, no dia a dia? Professora do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC de São Paulo, dirijo ali o Centro de Estudos da Oralidade, e a linha de pesquisa Poéticas do Oral. Assim, costumamos contemplar as culturas tradicionais, os “gêneros” que provêm de antigas presenças, regionais e universais, ao mesmo tempo. São levados em consideração, os ambientes e paisagens humanas que tocam grupos sociais que assentam suas criações mais no regime da voz que da letra, e que ainda os transmitem na teatralização comunicativa e na performance. Mas também são considerados regimes mediatizados (a voz no rádio, no disco, na televisão, no cinema). E o entendimento de que os indivíduos partilham temporalidades e espaços diversos, concomitamente. O mesmo rapaz que freqüenta discotecas, no seu espaço familiar e de bairro rural ainda dança na festa de São Gonçalo. A quem caberia estabelecer limites? Costumava-se, e ainda se costuma
às vezes, defender a preservação de um estado de
coisas contra a globalização cultural, e a invasão
de repertórios estrangeiros, contra um estado de transformação
repentina, desfiguradora, imediata. Assim mesmo alguns folcloristas defendem
uma espécie de pureza inicial, como algo que, pertencendo ao povo
teria de ser genuíno e legítimo. Minha postura, manifesta em diferentes textos que publiquei e nas diversas entrevistas que dei, é exatamente o oposto disso. Acho que cultura é um processo móvel que vai criando transformações e, apesar das especificidades, vai alterando fronteiras. Há processos contínuos de deslocação de funções, de desterritorializações e de ocupação dos novos territórios. Assim, as culturas mais tradicionais se ajustam a novos ritmos sociais
e culturais, criam outras marcas, se mediatizam, ou seja, passam pelos
mais diversos suportes e meios transmissivos. Por outro, surge o impasse diante do que é, de fato, o controle dos meios de comunicação, as políticas culturais ou anti-culturais, como se queira chamar, ou mesmo a ausência dela que fazem destas transformações o estereótipo mais banal, o nivelamento mais raso, a transformação dos tempos num tempo de mercado, tão somente e da nossa vida um inferno. |
E ai, é impossível parece defender o estilhaçamento e a repetição empobrecedora. Estamos diante daquilo que o semioticista russo Iuri Lotman chama não-cultura. Ou seja, o momento em há uma aniquilação de princípios de reconhecimento, a instalação do vazio, a velocidade com a qual as coisas são descartadas, deletadas ou tragadas. Por isso mesmo, não creio que seja possível seguir apenas uma posição simplista de adoção ou de rejeição, por princípio, de práticas globalizantes, de defesa de um imobilismo cultural, sem passar por contradições, (salvo para os artistas que radicalizam para preservar o espaço inteiro de sua criação e linguagem, os militantes que desejam, contingentemente, atingir certos alvos). Há fatos terríveis de invasão, de desrespeito a culturas, seja por intervenção de organizações religiosas, seja por necessidade de domínio e de exploração. E isto nos agride a todos. Como posição de pensadores da cultura, diremos que é sempre um ir e vir, percebendo que há escalas identitárias, que há os mais diversos níveis de interferência, os ambientes mais ou menos propícios. Há limites e suas quebras, há gestações de processos, e me lembro muito bem de uma das formulações de Jesus Martin Barbero, que ainda nos anos setenta, quando das freqüentes discussões sobre o nacional-popular, sobre as culturas do opressor e do oprimido, nos lembrava que o massivo foi sendo gerado, muito lentamente, a partir do que chamamos de popular (tradicional). Por isso, penso que a televisão (um meio já obsoleto mas que, em vez de desaparecer vai se re-funcionalizar, e ganhar novos sentidos) não é o mal dos males, não é o meio que é perverso, ma só que é aberrante é o seu controle e utilização, as condições de vida a que são submetidos os seus habituais fruidores nas grandes cidades e nos espaços distantes. Lembro, por exemplo, de uma figura que as crianças adoravam, o Tiririca (também tragado pela garganta devoradora do meio e diante de seus públicos), um fenômeno curioso. Ele recupera uma linguagem infantil, até na tonalidade vocal, faz passar um conjunto de conhecimentos desse cômico, do grotesco que estão depositados na cultura do povo, no circo. Há uma energia que conseguiu furar até a repetição e as obviedades. Ainda por esses dias andei vendo na televisão o filme de “Os trapalhões” O Mágico de Orós, deliciosa paródia do filme americano que povoou nossas imaginações infantis, e me rendi ao talento de Renato Aragão, Mussum e seus parceiros. Cultura popular?, de massas?, genuína? Pouco importa, mesmo porque até estas definições são precárias, pois sabemos que há o campo e a cidade, as grandes, as cosmopolitas, e as pequenas, com maior unidade numa direção, a intensa transmissão de repertórios, a vida do imaginário do campo enquistado na violência das cidades, a violência das cidades no universo do campo, as periferias urbanas, síntese assustadora. Há muitas possibilidades de expressão do que chamamos popular (que pode ser cultura de massas ou pré-massiva) e, a meu ver, detectadas as especificidades, o importante é não hierarquizar nem dividir. Tanto pode ter lugar e adquirir um estatuto de art, ter importância um texto da cultura tradicional de registro oral, como outras experiências mediatizadas. Impossível, por exemplo, estudar os textos das culturas populares sem pensar em suas matrizes impressas ou mediatizadas, e assim temos feito, adentrando o mundo das edições populares. Textos e livros produzidos para leitores de rodoviária, conforme me disse um dos editores, de larga circulação e contíguos ao universo da cultura de massas. A esse universo tão rico de imagens, de transferências culturais, batizei de Cultura das Bordas, tendo por exemplo, como protagonista, o criador Rubens Lucchetti, que responde por milhares de títulos e que escreveu os roteiros para os filmes de Zé do Caixão, hoje transformado num “cult”. E então podemos falar de uma conexão possível com a criação das vanguardas de determinado momento. Podem aí ligar-se as experimentações mais arrojadas e brasileiras como as de Helio Oiticica. Portanto, é esta circularidade, a revitalização, o “comércio” que nos interessa, aquilo que faz avançar, compatibilizando, hibridizando, ao selecionado ou ao rejeitado, ou como queria o compositor Bororó em seu inigualável Curare, a Misturação. Mesmo quanto às literaturas populares as mais tradicionais, não terão os então novos meios exercido este papel? Não são folhetim, o cinema, a televisão acionadores de novas praticas neste mundo tradicional?
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