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JEANNE DE VERMELHO MARAVILHA O espaço do cinema estava vazio da presença elitista, mas cheio de poucos e valorosos entes críticos, sensíveis e de espectros múltiplos a gritar: “somos seres que vivem!” Teriam as
elites, quem sabe, algum espaço mental
do qual se pudesse retirar algum capital para promover a riqueza social? As lágrimas de Jeanne pareciam dizer “não!” ou “que
pena!”. Coitada da grande Walkyria: decidiu, de modo heróico, sair das telas da mídia, em protesto à manipulação das máscaras da TV, pois sua decisão em favor de mostrar-se inteira e verdadeira nas telas abalou o carro do mundo jornalístico local, então movido pelo espetáculo de imagens falsas, geradas por “tecnologia de ponta”, de “última geração”, ou por outros chavões tanto ou mais baratos quanto os da Coca-cola, do óleo Diesel ou da Motorola. Guerreira
húngara de nascimento! Alma eslava, amazona brasileira
portando intactos dois seios naturais (sem silicone), decidiu montar
um cavalo, mula ou jegue, e partir em socorro de seu herói e amigo,
tomando-o nos braços, não para levá-lo montanha
acima, cavalgar as nuvens e depositá-lo no Walhalla... Nada de
rezas, nada de velório, nada de luto, nada de missa, de réquiem,
seja no sétimo ou septuagésimo dia... Por que lhe foi tirado dos braços e arrancado de seu abraço de concha maternal o resistente moribundo? Por que o distanciaram do farfalhar das palavras de sua musa vestida de carmim, cujas mãos, dedos e unhas esmaltadas de tinto sangue alimentavam a hemodinâmica do corpo ainda sólido, mas prestes a se dissolver na imensidão do ar? A questão do “onde ficar”, do “lugar especial” no
mundo de Amylton não era difícil de compreender pelo círculo
fechadíssimo de seus cinco amigos – pessoas tão caras
e para quem cinco cartas singulares foram dirigidas. Nas premonições
do célebre convalescente, estava claríssimo o único
lugar do mundo em que ele – ele sistêmico, ele como se fosse
uma espiral em permanente ascensão aberta – queria, por
inteiro, deitar: o corpo, no leito formado pelos dez braços enfileirados
de seus entes queridos escolhidos a cinco dedos de mão; e o espírito,
no tum-tum da diástole e da sístole harmônica, sonora,
de cinco corações – que juntos compunham o berço
de seus mais profundos sonhos, encravado de rubis cravados em cinco peitos
de amor abundante e incondicional. É de se lembrar ainda que no
espaço muito íntimo e circular desse santuário existem
cinco pulmões abundantes de ar, energia de atmos indispensáveis
para o amparo de um homem que desejava ardentemente ser amparado pela
mãe que o abandonou criança. Ele imaginava e simbolizava
a mãe através desses amigos com quem se relacionou numa
atmosfera de confiança absoluta, naquilo que ele a cada um confiou. Esse filho
de tal mãe parece ter conseguido tudo, em se tratando
do apoio de cinco amigos perfeitos! Conseguir um amigo da magnitude dos
amigos de Amylton já é um grande feito, digamos. Jeanne: parceira intelectual, amiga, irmã, mãe, confidente, musa e sacerdotisa desse extraordinário intelectual de fim do século XX; protetora desse insaciável questionador dos dilemas da existência, desse especulador cinematográfico que se apavorou ao olhar para dentro de si e decidiu viver exclusivamente “grudado” na realidade, do lado de fora, incomodando as elites, os intelectuais, a igreja e os políticos de seu tempo. De quem é o mérito verdadeiro: do visionário e cinematográfico Amylton de Almeida ou de Jeanne Bilich, sempre vestida de vermelho guerreiro maravilha, pronta para pilotar holofotes grandes sobre as máscaras da falsidade? Nada mais
grande do que o rosto de Jeanne iluminando uma tela gigante do cinema,
dando um “lacrimoso” depoimento
sobre a vida e obra daquele que se encarnou como seu amigo maior. Minhas suspeitas não são apenas especulativas. São fundamentadas em provas explícitas, filmadas e transmitidas publicamente em grande tela: as mãos de Jeanne (dessa vez sem o esmalte escarlate habitual de suas unhas) seguravam, trêmulas, os “olhos” do saudoso amigo, ou seja, os óculos inseparáveis do rosto daquele que passou pela vida tentando entender e se defender das chamas de seu fogo visionário interior. Quão patética foi a interpretação dramática
de Jeanne, ao depor, em tom de Walkyria wagneriana, sobre o grito de
Amylton, vindo de dentro da UTI. Mas que trágico, ele, sem o saber,
traiu a si mesmo e sentenciou a extinção repentina do fogo
de sua própria vida. Sem saber, o gênio capixaba designou
que o levassem para a UTI, para ficar lá, amarrado aos braços
e ao berço da morte inevitável. Parafraseando
o slogan marxista que diz: “Tudo o que é sólido
se dissolve no ar”, eu arriscaria afirmar que naquele momento do
grito deu-se a apoteose da dissolução de tudo que Amylton
fora em termos físicos. Contudo, o silêncio sepulcral que
se seguiu após o grito ensurdecedor, a mim parece, foi a dissipação
total das últimas moléculas de oxigênio que faziam
o cérebro dele pensar e a boca falar. Bem... graças a Jeanne de Vermelho Maravilha (e aos seus quatro
extraordinários amigos), Amylton renasce no efervescer das pesquisas
acadêmicas dessa mulher guerreira, discípula de Marte!
Vitória/ES,
10 de dezembro de 2004 |
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