----- Original Message -----
From: "felipemauriene"
To: jeanne.bilich
Sent: Sunday, December 12, 2004 2:39 AM
Subject: UM ADMIRADOR SOLITÁRIO NO CINEMA


Jeanne,

Entrei no Cine Metrópolis, no final da primeira sessão, qdo vc estava dando seu depoimento. Escolhi um lugar onde eu pudesse ficar sozinho comigo mesmo, pois sabia que iria enfrentar uma dose altíssima de emoções. Dito e feito!
Ouvi sua voz, falando na entrada do cinema com pessoas diversas,
apresentando Márcia a alguém, muito empolgada, etc. Torci para que nem vc nem mais ninguém conhecido me visse, pois queria ficar simplesmente só.
Preparei-me para assistir ao documentário por inteiro. Foi ótimo! Assisti novamente seu depoimento e, ao final da película, saí de fininho, para que não fossem interrompidos meus pensamentos... Decidi vir para casa, caminhando e refletindo sobre o que assisti. Ao chegar ao meu Templo, decidi escrever algo. Isso me tomou um bom tempo, pois fui terminar no dia seguinte. Aqui vai, em anexo, o arquivo VERMELHO MARAVILHA.doc. Abra-o e divirta-se. Foi escrito exclusivamente para você!

Beijos de

Felipe Mauriene

JEANNE DE VERMELHO MARAVILHA
Por que tivemos de não pagar para assistir ao depoimento da estranha mulher sobre as angústias ontológicas de Amylton de Almeida?

O espaço do cinema estava vazio da presença elitista, mas cheio de poucos e valorosos entes críticos, sensíveis e de espectros múltiplos a gritar: “somos seres que vivem!”

Teriam as elites, quem sabe, algum espaço mental do qual se pudesse retirar algum capital para promover a riqueza social?
Ou só existe na cabeça das elites espaço reservado para a ganância, promotora do Lugar de Toda Pobreza?

As lágrimas de Jeanne pareciam dizer “não!” ou “que pena!”.
Sua voz depunha sobre a verdade de um homem ainda mais estranho do que ela mesma. Parecia que o tal homem “falava” através dos diversos impulsos emocionais da depoente: lágrimas que emanavam de duas negras fontes a olharem para a lente fria e vítrea da câmara cinematográfica; lágrimas que se transformavam em rasos regatos a umedecerem o solo quase atemporal da face de uma boneca do tipo Barbie; regatos que se alargavam banhando maçãs de um rosto de anjo rebelde, de anjo com uma boca vermelha, vulcânica, de onde saía a palavra dura de sincera verdade e para onde sumiam os sentimentos mais profundos da alma humana – sentimentos que rolavam garganta a dentro, indo até onde o coração agüentava...

Coitada da grande Walkyria: decidiu, de modo heróico, sair das telas da mídia, em protesto à manipulação das máscaras da TV, pois sua decisão em favor de mostrar-se inteira e verdadeira nas telas abalou o carro do mundo jornalístico local, então movido pelo espetáculo de imagens falsas, geradas por “tecnologia de ponta”, de “última geração”, ou por outros chavões tanto ou mais baratos quanto os da Coca-cola, do óleo Diesel ou da Motorola.

Guerreira húngara de nascimento! Alma eslava, amazona brasileira portando intactos dois seios naturais (sem silicone), decidiu montar um cavalo, mula ou jegue, e partir em socorro de seu herói e amigo, tomando-o nos braços, não para levá-lo montanha acima, cavalgar as nuvens e depositá-lo no Walhalla... Nada de rezas, nada de velório, nada de luto, nada de missa, de réquiem, seja no sétimo ou septuagésimo dia...
A recusa de fazer uso dos ritos religiosos ou das abordagens gratuitas dos símbolos mitológicos é quase absoluta. Nem mesmo a pompa das representações reais teria valor algum para a glória de seu amigo e herói, morto, em última hora, na UTI de um hospital que bem poderia ter sido um hospício.

Por que lhe foi tirado dos braços e arrancado de seu abraço de concha maternal o resistente moribundo? Por que o distanciaram do farfalhar das palavras de sua musa vestida de carmim, cujas mãos, dedos e unhas esmaltadas de tinto sangue alimentavam a hemodinâmica do corpo ainda sólido, mas prestes a se dissolver na imensidão do ar?

A questão do “onde ficar”, do “lugar especial” no mundo de Amylton não era difícil de compreender pelo círculo fechadíssimo de seus cinco amigos – pessoas tão caras e para quem cinco cartas singulares foram dirigidas. Nas premonições do célebre convalescente, estava claríssimo o único lugar do mundo em que ele – ele sistêmico, ele como se fosse uma espiral em permanente ascensão aberta – queria, por inteiro, deitar: o corpo, no leito formado pelos dez braços enfileirados de seus entes queridos escolhidos a cinco dedos de mão; e o espírito, no tum-tum da diástole e da sístole harmônica, sonora, de cinco corações – que juntos compunham o berço de seus mais profundos sonhos, encravado de rubis cravados em cinco peitos de amor abundante e incondicional. É de se lembrar ainda que no espaço muito íntimo e circular desse santuário existem cinco pulmões abundantes de ar, energia de atmos indispensáveis para o amparo de um homem que desejava ardentemente ser amparado pela mãe que o abandonou criança. Ele imaginava e simbolizava a mãe através desses amigos com quem se relacionou numa atmosfera de confiança absoluta, naquilo que ele a cada um confiou.
Talvez a mãe biológica de Amylton tenha fugido dele assim tão cedo por perceber que não teria condições para amparar um filho com alma de proporções gigantes; ou talvez a ausência daquela mãe tenha sido a causa para transformar o espírito desse filho em um titã.

Esse filho de tal mãe parece ter conseguido tudo, em se tratando do apoio de cinco amigos perfeitos! Conseguir um amigo da magnitude dos amigos de Amylton já é um grande feito, digamos.
Uma boa razão para se morrer feliz. Cinco é um número excepcional!
Então, que razões cruéis motivaram o desespero sideral desse cara tão bem conectado à realidade do mundo à sua volta?
Teria ele sido a única configuração dessa sensação pessoal pós-moderna de se sentir completamente oco por dentro, sobretudo quando se criam oportunidades para fazer, comunicar e se informar tanto? Parece que não...
O mal desse cara é o mesmo de tantos outros que se antenaram com as ondas eletromagnéticas do espaço sideral: Jimi Hendrix, Greta Garbo, James Dean e Janis Joplin são apenas alguns nomes de um tipo muito singular de ser humano, cuja existência tempestuosa e cintilante criou em nossa memória uma abóbada noturna repleta de ogivas que se entrecruzam e das quais pendem inúmeras galáxias e nebulosas. Distantes de nossos sonhos e emoções atávicos, fogos de artifício explodem, que nem luz marcial cruzando o espaço próximo de nossa realidade. Pois elevar os pés para muito acima do chão pode
nos causar a vertigem da solidão ontológica que, no meu entender, justificava a angústia interminável e o sentimento incomensurável de desamparo desse homem, objeto de pesquisa biográfica de Jeanne de Vermelho Maravilha.

Jeanne: parceira intelectual, amiga, irmã, mãe, confidente, musa e sacerdotisa desse extraordinário intelectual de fim do século XX; protetora desse insaciável questionador dos dilemas da existência, desse especulador cinematográfico que se apavorou ao olhar para dentro de si e decidiu viver exclusivamente “grudado” na realidade, do lado de fora, incomodando as elites, os intelectuais, a igreja e os políticos de seu tempo. De quem é o mérito verdadeiro: do visionário e cinematográfico Amylton de Almeida ou de Jeanne Bilich, sempre vestida de vermelho guerreiro maravilha, pronta para pilotar holofotes grandes sobre as máscaras da falsidade?

Nada mais grande do que o rosto de Jeanne iluminando uma tela gigante do cinema, dando um “lacrimoso” depoimento sobre a vida e obra daquele que se encarnou como seu amigo maior.
Quem realmente depunha: Jeanne ou Amylton? A quem pertencia aquela angústia a que os outros quatro depoentes se referiam: a Amylton ou a Jeanne?

Minhas suspeitas não são apenas especulativas. São fundamentadas em provas explícitas, filmadas e transmitidas publicamente em grande tela: as mãos de Jeanne (dessa vez sem o esmalte escarlate habitual de suas unhas) seguravam, trêmulas, os “olhos” do saudoso amigo, ou seja, os óculos inseparáveis do rosto daquele que passou pela vida tentando entender e se defender das chamas de seu fogo visionário interior.

Quão patética foi a interpretação dramática de Jeanne, ao depor, em tom de Walkyria wagneriana, sobre o grito de Amylton, vindo de dentro da UTI. Mas que trágico, ele, sem o saber, traiu a si mesmo e sentenciou a extinção repentina do fogo de sua própria vida. Sem saber, o gênio capixaba designou que o levassem para a UTI, para ficar lá, amarrado aos braços e ao berço da morte inevitável.
Mas pelo que saiu dos lábios vermelho papoula de Jeanne, parece que o amigo dela conseguiu um inesperado e último grande feito:
Encarcerado pelo espaço do leito de morte da UTI, ainda teve forças para dar um grito de adeus a seus amigos que estavam do lado de fora! E a força de seus pulmões e de sua garganta moribundos foi tal que atravessou paredes e portas especiais que têm como função isolar tudo o que está dentro de tudo que está lá fora.

Parafraseando o slogan marxista que diz: “Tudo o que é sólido se dissolve no ar”, eu arriscaria afirmar que naquele momento do grito deu-se a apoteose da dissolução de tudo que Amylton fora em termos físicos. Contudo, o silêncio sepulcral que se seguiu após o grito ensurdecedor, a mim parece, foi a dissipação total das últimas moléculas de oxigênio que faziam o cérebro dele pensar e a boca falar.
Esse grito pode bem ter sido a lembrança fotográfica e primal do grito de bebê, quando ele nasceu (certamente de parto natural) da mãe que o abandonou. Mas nem tudo se fez trevas: o silêncio seguido depois do grito do gigante, que ecoa até hoje nos tímpanos dos amigos que estavam do lado de fora da UTI, me parece ser mais uma voz poderosa do que o calar de uma agonia, seguida da “paz eterna” que esse sujeito jamais desejaria em vida.

Bem... graças a Jeanne de Vermelho Maravilha (e aos seus quatro extraordinários amigos), Amylton renasce no efervescer das pesquisas acadêmicas dessa mulher guerreira, discípula de Marte!
Vida longa para Amylton de Almeida... e para Jeanne Bilich também!


Felipe Mauriene

Vitória/ES, 10 de dezembro de 2004