ENTREVISTA COM EDUARDO COUTINHO
por Alcimere Piana e Daniele Nantes

O documentarista mais respeitado e premiado do Brasil em entrevista exclusiva fala do seu conceito de documentário, da sua influência no cinema brasileiro e da particularidade de suas técnicas.

Eduardo Coutinho iniciou sua carreira fazendo filmes de ficção. Trabalhou vários anos no programa Globo Repórter, que serviu como “vestibular” para que o cineasta se decidisse definitivamente pelo documentário. Com “Cabra Marcado Para Morrer” (1981/84), há uma retomada ética e estética do documentário no Brasil, sendo considerado pelos críticos como o mais importante documentário brasileiro de todos os tempos. O cineasta se firmou como um dos principais documentaristas do país, com filmes que revelam muito dos brasileiros, como “Santo Forte” (1999) e “Edifício Master” (2002). Seu mais recente filme, “Peões” (2004), está sendo lançado nos cinemas.



1)Para iniciar você pode nos dizer seu nome e formação?

Eduardo Coutinho. Formação? Cheguei ao curso de direito, abandonei, depois na França fiz um curso de cinema no IDHEC [Institut des Hautes Etudes Cinématographiques em Paris], porque eu tava na França e consegui uma bolsa. Mas, eu fui fazer cinema primeiro no CPC da UNE [no Brasil] em 1961.

2)Como você define documentário?

Se eu definisse eu nem fazia, porra, eu não defino, não interesso em definir.

3) O que você acha do documentário no Brasil hoje? Politicamente e financeiramente

Esta é outra questão geral, as questões gerais, eu posso dar opiniões como de outros, sabe! É, opinião, a coisa menos importante no mundo é a opinião.

Se ela for visceral, mas enfim, opinião... para isso existem os colunistas que falam de tudo: energia atômica, clonagem humana etc..., é, posso dizer o seguinte: Houve o que chamaram de espécie de boom do documentário a partir do ano passado, retrasado, alguns filmes tiveram um relativo sucesso de público e se falou nisso. Na verdade, no Brasil, a gente sempre começa do zero.

Este ano os documentários não tiveram o êxito de público que tiveram nos dois últimos anos. O importante é que isso não havia há uns 5-10 anos atrás e as razões disso são os estigmas entre outras... O fato de existir o digital permite, como todo mundo sabe, uma enorme economia de custo e principalmente para quem filma ao acaso sem roteiro etc....

Apesar do transfer em película ser caro é uma enorme economia e grande parte dessa produção nova é feita assim, em digital transferindo pra filme ou não, e isso ajudou. O fato de existir TV a cabo ajudou um pouco, mas como eles não tem dinheiro para financiar acabou não ajudando muito. E de certa forma, porque no Brasil as pessoas passaram a se interessar um pouco pelo real, pelo que é o país que a gente vive, a sociedade em que se vive, que não era uma coisa que havia há 10 anos atrás um mínimo de auto-estima pra tentar falar do real. E essas razões é que fizeram a participação do documentário na produção aumentasse.

Agora é difícil dizer! Como chegar ao grande público, isso é uma coisa muito complicada ainda. O que eu quero dizer é o seguinte, que o documentário na história do cinema: o documentário foi, é, e será marginal! Desde que o cinema se fixou como uma narrativa nos anos 10 por aí e tal, o documentário ocupa a margem e vai sempre ocupar.

Nunca em nenhuma sociedade o documentário ocupará o centro.

As pessoas vão ao cinema para sonhar, se identificar, se projetar, e o que me interessa é que a margem do documentário aumente será ótimo para ocupar o centro. Você não pode ter ilusões que fazendo de documentário você vai chegar ao grande público, isso é Michael Moore, tudo isso é cascata, é um filme ou outro, é exceção. O documentário dificilmente chega e chegará ao grande público, então é tolice fazer documentário acreditando que você vai chegar aos multiplex.

E acho que é uma boa lição de realismo você saber de inicio que você está numa atividade que dentro do cinema brasileiro que já é marginal, é mais marginal ainda, e nem por isso você desiste de fazer, por que você quer fazer, só.

4) Comente sobre a narração off nos filmes documentários?

Isso tudo é uma história antiga que o documentário não tinha som, então documentários clássicos, documentários dos anos 30, documentários em inglês, etc... São documentários, e mudos! De outra escola de documentários eram baseados na narração, você não tinha som direto, não era possível você não tinha nenhum magnético, imagine os gravadores, etc...

Então a escola do documentário se formou baseada principalmente, ou na montagem ou na narração. Quando no começo dos anos 50 se começa a ter câmeras leves e a possibilidade de gravar em som sincro [sincronizado] mas com outro tipo de câmera e tal, isso muda o cinema documentário e na minha opinião muda pra melhor.


 

Porque daí tem que romper com a tradição na narração que era uma voz de Deus, que dizia o que você devia pensar, etc. etc. etc. Daí a narração ficou amaldiçoada e hoje em dia o que há é o seguinte: não se trata de que o documentário não pode ter narração, mas era interessante que fosse não como era a narração antiga, a narração magistral, aquele que sabe, que diz o que se deve pensar. Você tem possibilidade de narrações poéticas, narrações de mais de uma voz. Por que não um filme narrado por cinco vozes, é mais interessante!

Mas o fato é que com tudo isso se você não inventar novas formas de narração off, a clássica está liquidada, meu amigo, não tem sentido.


Cabra Marcado para Morrer (1964/1984)

5) Você acha que o seu trabalho difere do de outros documentaristas? Em quê?

Em relação ao cinema brasileiro, o Cabra foi uma espécie de ruptura! Aparecia a câmera, a equipe, o diretor, era um filme sobre um filme também, e isso então era justificado e ao mesmo tempo era uma forma nova de tratar isso. A pessoa do diretor se colocava no filme.

E isso na verdade, não mudou muito o documentário brasileiro, não influenciou muito, muito pouco, o que eu acho um erro, mas enfim. E daí quando depois de 15 anos, depois do Cabra quando eu fiquei fazendo uns vídeos por ai, mas quando eu fiz o Santo Forte que foi lançado em 99, filmado em 97/98, aí é que foi uma ruptura de outro tipo, no Cabra tinha uma ruptura política pelo contido dele e tal, mas o Santo Forte é realmente um passo decisivo para mim, pra minha carreira, porque eu tava no canto aí jogado e fiz um filme que acabou tendo a repercussão que teve, mas que nada prometia, que ele tivesse a repercussão que teve. Isto é, quando eu tava fazendo o filme a aposta que eu tinha e que foi na montagem, e demorou meses para eu descobrir que era a aposta que valia a pena, é de fazer um filme sobre um assunto tão visual como é a religião e eliminar praticamente toda a visualidade externa! A cachaça na umbanda, o pastor, aquela coisa toda, e fazer um filme sobre a palavra.

Um filme sobre a religião em cima só da palavra, que tem a função mágica na religião também.

Depois de meses de dúvidas e tal, acabei optando por uma solução, a mais radical naquele tempo que era de fazer um filme sobre a palavra, que a imagem entrava nunca para demonstrar a evidência de uma palavra, pra mostrar que aquilo era verdade ou mentira ou pra ilustrar uma palavra. A palavra não precisava de ilustração de tão forte que ela era, e daí despertar no espectador o que é o real. Depois da palavra você não sabe, não importa, a imaginação voa muito mais do que a pessoa falar que recebe um santo, e aí você vai e mostra ela recebendo o santo.

Sabe essa coisa do tipo que no documentário, infesta o documentário, enfim, era uma aposta que ninguém confiava nem a minha montadora, nem os meus amigos todos achavam o filme insuportavelmente chato e eu acreditei nisso, e isso tornou uma diferença, porque naquela época ninguém faria um filme tão radical.


Coutinho (à esquerda) dirigindo o filme Santo Forte (1999)

E é o que eu tenho feito cada vez mais, até mais radical neste sentido. E digamos que é um dispositivo de trabalho que é diferente do dos outros embora tem aparecido agora gente que faça também, basicamente era um troço novo no cinema brasileiro e também no cinema mundial, se usa pouco isso. São poucos diretores que usam essa coisa em cima da palavra, em cima da relação com o outro, em cima do ato de filmagem, só interessa o que acontece durante a filmagem, e esse é um diferencial, porque para fazer o que eu faço, isso é quando eu fiz o Santo Forte para mim, porque eu fiz um filme que ninguém queria fazer, ou se queria ninguém podia fazer, ninguém queria fazer um filme baseado na palavra porque tem toda aquela ficção de que o cinema mágico é só visual e não sei o que né, há 80 anos que o cinema tem esse áudio - visual né, mas tem ainda esse troço que o essencial é imagem e tal. E se esquecem de que uma pessoa viva que fala com outra pode ser visualmente tão poderoso quanto Titanic.

Então ninguém queria fazer e se quisesse, não podia e eu queria e podia, queria porque eu queria provar ou apostar que era possível ter um filme que não fosse insuportavelmente chato e que falasse de religião de uma forma nova, como falou.

A partir da visão deles, dos outros, não da minha, e então eu queria fazer isso e podia fazer, podia fazer porque eu tinha a convicção que a postura dos diretores de documentário em geral no Brasil e no mundo, é uma postura de que você acha uma pessoa tá, e você imediatamente, você começa a criar situações visuais do tipo: filma esta pessoa neste angulo, põe a câmera aqui, põe a câmera no teto, faça um plano perfil, sem nenhum critério porque você nunca sabe o que a pessoa vai dizer. Mas se já sabiam o que o outro ia dizer, daí podiam dizer que pôs de perfil, que pôs no alto e tal.

Ou já sabiam, o que é uma tragédia se você já sabe o que o outro vai dizer, ou então não sabiam e mudavam por razões puramente “estéticas” entre aspas “artísticas” entre aspas, entende?

Esta entrevista faz parte do documentário Cinema do Encontro. As técnicas documentárias de Eduardo Coutinho de Daniele Nantes e Alcimere Piana com imagens de Stephan Maciel.


Continua no próximo número.

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