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Até aonde vai o poder do jornalista?
Jackeline Garuzzi
Toda essa discussão em torno da proposta de criação
do Conselho Federal de Jornalismo, cuja missão é "orientar,
disciplinar e fiscalizar" o exercício da profissão,
me fez lembrar de minha pesquisa para conclusão da faculdade de
jornalismo.
Quando decidi pesquisar sobre erros jornalísticos, analisando-os
do ponto de vista ético e de responsabilidade social, começaram
minhas dificuldades. Acreditem: Foram muitas. Tive que mudar a metodologia
da pesquisa, pois os jornalistas não gostam de falar de ética
e não se dispuseram a dar entrevistas. Jornais e jornalistas não
admitem que erram.
Na pesquisa ‘Como a mídia condena?’, obtive uma maior
compreensão a respeito do fazer e da construção do
texto jornalístico e comecei a entender os fatores que levam a
publicações enganosas, mal apuradas e condenatórias,
já que estas causam danos morais, pessoais e materiais irreparáveis
às pessoas envolvidas.
Erros como os da Escola de Base, em que o jornal Folha de São Paulo,
em março de 1994, noticiou de forma irresponsável que crianças
teriam sido vítimas de estupro e atentado violento ao pudor praticados
pelos donos, professores e pessoas ligadas à escola. O caso foi
esclarecido, o inquérito foi arquivado e o jornal teve que pagar
indenização. Entretanto, indenização nenhuma
pagará o preço das imagens exibidas dos proprietários
da Escola sendo levados à prisão.
O jornal deve ser o condutor da verdade, tomando os necessários
cuidados com suas fontes. Mas, até hoje são freqüentes
os erros na imprensa, apesar de erros como o do caso da Escola de Base
ter sido fartamente comentado pela mídia nacional. Neste caso as
pessoas acusadas tiveram condições intelectuais e financeiras
para exigirem seus direitos. Mas, o que dizer dos erros que envolvem pessoas
comuns, simples, com baixo poder aquisitivo e que na maioria das vezes
desconhecem seus próprios direitos?
O que falar sobre esses pequenos casos como, por exemplo, é o objeto
de estudo dessa pesquisa, onde o cidadão comum, muitas vezes, nem
tem ciência de seus próprios direitos. O que leva os jornalistas
a escreverem matérias condenatórias? Para entender um pouco
sobre este complicado jogo de interesses, analisei nove matérias
publicadas no jornal A Gazeta (Vitória-ES), no período de
06 de novembro de 2003 a 04 de fevereiro de 2004, denominando-as de ‘Caso
dos Morangos’. As análises foram feitas com base nos conceitos
dos jornalistas Eugênio Bucci, Ricardo Noblat, Luiz Nassif e Mário
Rosa no que concerne à técnica jornalística, dando
ênfase à apuração e redação das
matérias. Algumas questões como especulação,
sensacionalismo, manipulação, ética, responsabilidade
social e omissão foram também levantadas e analisadas.
Os principais erros cometidos pelo jornal A Gazeta, foram má apuração,
sensacionalismo e omissão. O referido jornal aproveitou uma questão
polêmica que é o uso de defensivos agrícolas na lavoura
de morango para escrever boatos como se fossem notícias, esquecendo-se
daquela regrinha básica que todo estudante de jornalismo aprende
nos bancos das faculdades: que antes de publicar qualquer notícia
é necessário ouvir todos os envolvidos. Em diversas matérias
publicaram que os defensivos agrícolas causam câncer e mutações
genéticas. O que de fato não existe comprovação
científica. Diante de tantos erros ocorridos no Caso dos Morangos,
talvez, o pior seja que o jornal A Gazeta se omitiu durante sessenta e
um dias, escondendo o resultado da análise do Instituto Adolfo
Lutz que informava que os morangos não estavam, nem nunca estiveram
contaminados.
Assim, é importante destacar que o principal enfoque dessa pesquisa
são as condenações cometidas pela imprensa visto
através da construção do texto jornalístico,
e não o estudo do Caso dos Morangos, em si, mas sim a cobertura
jornalística deste caso feita pelo mais importante veículo
de comunicação impressa do Espírito Santo.
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A liberdade dos meios de comunicação pode tornar-se muito
perigosa, se divulgarmos rumores como fatos, ou se a falta de acurácia
das informações põem em perigo os direitos e a privacidade
pessoais. Assim, não se deve permitir que o empenho em ser mais
rápido que a concorrência, ponha em perigo os seres humanos.
No Caso dos Morangos através de uma série de atropelos na
apuração dos fatos e principalmente na construção
truncada do texto, criou não tão somente verdades contraditórias
mas até mesmo lendas e mitos que perduram além do dia seguinte.
Essa pesquisa me levou a compreender a real necessidade de exercer a profissão
de jornalista com critério e ética. Essa exigência
é indispensável, quando desempenhamos uma função
tão importante como a de jornalista, que atinge diretamente a vida
de muitas pessoas. Onde uma matéria que aparentemente não
tem nada de ofensiva, pode de repente mudar o rumo de muitas vidas.
A todo instante ouvimos que estamos na era da informação
e do conhecimento. Então, do que adianta tanta informação
se não podemos confiar no que lemos? É necessário
descobrirmos uma maneira de evitar esses erros grotescos e a falta de
acurácia no meio jornalístico, pois nessa competição
entre reputações, o elo mais fraco é o acusado, cuja
credibilidade já foi pulverizada.
Nessa pesquisa constatei que a mídia condena quando publica matérias
mal apuradas, informações com enfoques sensacionalistas,
quando prefere a omissão da notícia ao invés de admitir
que errou e principalmente quando falta com a responsabilidade social
e ética jornalística, conforme verificado no Caso dos Morangos.
Afinal, o estilo de jornalismo apressado e mal apurado, dando ênfases
incorretas e insinuações, tirando conclusões apressadas,
acaba conferindo ao jornalismo capixaba a falta de credibilidade que é
o aspecto mais importante para os profissionais de comunicação.
Nessa pesquisa não houve uma averiguação aprofundada
dos danos causados por essas matérias e como o Caso dos Morangos
repercutiu individualmente, tendo em vista que só seria possível
entrevistando todos os envolvidos, o que demandaria muito mais tempo do
que o disponível para essa pesquisa. No entanto, estou certa de
que para o jornal A Gazeta, pouco ou nada mudou com o Caso dos Morangos.
Infelizmente, não posso dizer o mesmo dos produtores rurais, que
tiveram danos incalculáveis, tendo em vista que para muitos o morango
é a única fonte de renda familiar. Os distribuidores e comerciantes
da fruta também tiveram prejuízos imensos, sem contar com
a imagem do Estado do Espírito Santo, que mais uma vez foi vinculado
a fatos negativos e comprovadamente mentirosos.
O Caso dos Morangos serve para exemplificar que de fato a mídia
condena sem respaldo. No jornalismo, a única regra que deveria
ser geral e inquestionável é que a imprensa deve estar a
serviço do cidadão e não contra ele. E, portanto,
ele deve ser sempre o principal motivo das discussões a respeito
da ética jornalística e também o seu beneficiado
maior com um jornalismo sério, ético e de qualidade.
Os profissionais de jornalismo definitivamente não gostam de falar
sobre ética e muito menos da proposta de criação
de um Conselho Federal de Jornalismo, pois sempre que esses temas surgem
eles escorregam na tão propalada democracia ou na liberdade de
imprensa para continuarem escrevendo rumores como se fossem notícias.
(1) A autora é recém-graduada em jornalismo
com a monografia intitulada “Como a mídia condena?”
defendida na Faculdade de Educação e Comunicação
Social – FAESA em maio de 2004.
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