50 anos de comunicação
bê-á-bá

Suely Fenerich

Quando se atinge a casa dos 60 anos tem-se a possibilidade de analisar, olhando para trás, um processo de formação que fluiu de maneira bastante regular, no que se refere à abrangência, ao longo de duas gerações e já está se estendendo igualmente a uma terceira. Trata-se, neste caso, de reflexões sobre a importância dos meios de comunicação na formação de mentalidades e de formas de vida a partir da própria vivência. Por certo, estas reflexões supõem um suporte teórico, que aqui não será particularmente mencionado.

Que semelhanças culturais pode haver entre as três últimas gerações que convivem hoje no mesmo ambiente quando elas conheceram processos de formação tão diferentes? Uma que se criou ao pé do rádio, pródigo em novelas pueris, de ídolos intérpretes, de Heron Domingues e seu domínio completo sobre o impacto de qualquer notícia, com revistas de amor romântico, de contos e em quadrinhos, de pato Donald e Mickey, de Luluzinha, do cinema convincente, lindo e alienado de Hollywood, o pátrio poder exercido incontestavelmente dentro de casa. O que tem ela a ver com a geração posterior e, ainda mais, com a seguinte? Estas nem viveram a explosão do rock e o nascimento das suas grandes figuras, nem se deram conta de que houve um momento em que todos os valores foram postos em cheque, no ano cabalístico de 1968, em que jovens, moços e moças, se entregaram sem sinal de pecado ao que sempre se considerou uma orgia, embalada por roqueiros como os Rolling Stones, feita de ingredientes tão picantes quanto a liberdade sexual, emancipação feminina, em que simbolicamente sutiãs foram destruídos, abolidos, como se, desta forma, as mulheres de todo mundo estivessem libertadas das tenazes que as escravizaram por milhares de anos.

A partir daí, acredito que realmente tenha sido dada a partida para uma nova era. A revolução de costumes, apregoada pelos jovens daqueles anos de 60, que se fizeram presentes também e principalmente no movimento de reformas universitárias na França, que aqui mesmo no Brasil atuavam na resistência ao regime ditatorial, correndo os riscos e sofrendo as conseqüências que conhecemos. Toda esta ebulição coincide com o desdobramento de avanços científicos e tecnológicos que ofereceu os suportes ideais para a disseminação dos novos valores.


Como conseqüência mais visível, os anos 80 foram marcados pelo crescimento do número de casamentos desfeitos, culminando na aprovação do divórcio aqui no Brasil, provavelmente também no número de abortos clandestinos, é claro, e por um bastante apregoado choque de gerações, de feição internacional. Quem pode trocou o padre pelo analista, no afã de ter condições emocionais à altura para responder a desafios tão inquietantes e nada ortodoxos.


Instrumento de fundamental importância para o célere processo de globalização de que somos testemunhas e protagonistas nas últimas décadas, os meios de comunicação têm transformado o mundo numa aldeia, diminuindo distâncias antes tidas como intransponíveis, tornando instantâneas as notícias mundiais em cada canto do mundo, transformando costumes milenares, tornando o mundo ao mesmo tempo mais igual e, no entanto, tão ricamente diferente em cada uma de suas peculiaridades, agora mais e mais difundidas.
A mídia que fez com que o mundo comungasse a um só tempo o pasmo diante, das imagens devastadoras da guerra do Vietnã, da marcha da Praça da Paz de Pequim, da derrubada do muro de Berlim, do desmantelamento da força comunista na Rússia e na Europa oriental, da explosão do Challenger, das guerras do Oriente Médio... É a mesma que desmascarou Nixon nos Estados Unidos e que aqui no Brasil praticamente promoveu a eleição de Collor e sua posterior derrocada.

É de se considerar o fato importante de que tenham ocorrido em um espaço exíguo de tempo, em menos de três gerações, tantas mudanças sobre a face da terra, em que foram praticadas experiências políticas radicais em todos os sentidos, políticos, científicos, sociais, religiosos, que fica difícil entender como se harmonizou de alguma forma a convivência entre pessoas tão próximas com vivências que teriam acontecido, que poderiam ter sido absorvidas a contento, no espaço mínimo de alguns séculos.

Quanto ao decantado choque de gerações, não se ouve mais falar dele desde que a sociedade global foi surpreendida pela peste contemporânea, personificada na aids. Ela tem feito vítimas algumas de suas jóias mais preciosas, tem concentrado sua fúria na população jovem, estendendo seus tentáculos a crianças descendentes de portadores do vírus etc. e tal. O preconceito que cercou a doença no seu surgimento, ligado a práticas sexuais e uso de drogas, parece ter sido superado, dando lugar à sensibilização da sociedade, bem como à sua disposição de cobrir com amor as chagas abertas por tantas feridas.

E assim caminhamos a passos largos rumo à longevidade antes impensada, preocupados com o eco-sistema cuja qualidade temos por obrigação preservar para as gerações futuras, passando pelas auto-vias, ligados no som do hap nacional, entre apelos insistentes de outdoors, banners, sinalização de trânsito, impacientes com o engarrafamento que enfrentamos. Mas para isto temos o celular ao nosso lado: - Estou chegando à marginal Pinheiros.


Suely Fenerich é jornalista e traduz textos do escritor e medievista suíço-canadense Paul Zumthor: Performance, Recepção, Leitura (Educ, 2000) em colaboração com Jerusa Pires Ferreira.