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A
voz e a vez de Tom Zé
Feliciano Bezerra
É preciso uma disposição
diferenciada para a recepção da obra do cantor e compositor
Tom Zé. Os elementos que dispomos tradicionalmente para a escuta
da música popular brasileira não são inteiramente
suficientes para uma deglutição total das surpreendentes
invenções deste trovador baiano de Irará. Suas canções
são reveladoras de um modo instigante de tratar os requisitos para
se atuar no campo da criação artística. Muitos dos
componentes deste universo de criação surgem nas peças
e performances de Tom Zé de maneira vivamente desconcertantes.
Assumindo-se publicamente como um “profissional da deficiência”,
Tom Zé incrementa um processo de criação desalojando
rigores das regras do bem fazer e avesso às estruturas sedimentadas
e codificadas da canção popular, ou o uso disso tudo totalmente
às avessas. Mas não devemos seguir à risca essa propalada
‘deficiência’, creio mesmo tratar-se de pista falsa,
ou, no mínimo, uma forma de ludibriar exigências de métodos
para criar, abrindo assim o campo total para a expressão. Pois
sabemos que Tom Zé teve formação musical rigorosa,
tendo sido aluno na Bahia de mestres como H.J. Koellreutter, Walter Smetak,
Ernst Widmer; portanto, não nos enganemos, por traz de um aparente
defeito ou imprevisibilidade, há uma orientação criativa,
uma escolha inventiva, tornando tudo muito singular em sua obra.
No belíssimo texto Tropicalista Lenta Luta, que abre o livro homônimo
editado no final de 2003 pela Publifolha, sob responsabilidade de Arthur
Nestrosvki, Tom Zé delineia aspectos de sua concepção
cancionista, mostrando como se impôs “limpar o campo, não
usar o Corpo-cancional; plasmar a cantiga com outra matéria”.
Com essa plataforma ele procurou “reformular todo o aparato teórico
para um diferente objeto”. É assim que devemos compreender
a volúpia estética de Tom Zé, a fuga do ‘corpo-canção’,
tradicionalmente desenvolvido, e a tentativa constante de impor novas
substâncias à canção. Uma regra imposta a si
mesmo e que vem sendo cumprida ao longo de mais de trinta anos, desde
a arrebatadora vitória em 1968 no Festival de Música Popular
Brasileira da TV Record, com a canção São São
Paulo, passando pela revolução musical da Tropicália
e seguindo criando ao longo dos anos 70 numa carreira tipo Multiplicar-se
Única, como ele mesmo intitulou uma de suas canções.
Nos anos 80 houve uma inexplicável ausência de Tom Zé,
ou melhor, explicável, o problema esteve na estultice dos meios
midiáticos que não souberam absorver nem decifrar os rolos
dos papiros criativos do bardo. Foi preciso, nos anos 90, a aferição
externa do músico inglês David Byrne que, num acaso reparador,
trouxe-o de volta à tona e mostrou para os agenciadores culturais
do Brasil quão genial é a produção musical
de Tom Zé. Este fato, quase risível, aponta para uma estranha
reversão redimida de uma persistente disposição à
condição de colônia verificada em alguns setores da
produção cultural brasileira.
Depois disso temos agora à
disposição toda a robustez de Tom Zé: carreira internacional
prestigiosa, shows concorridíssimos Brasil afora e constante presença
nos aparatos mediatizados. O livro Tropicalista Lenta Luta, já
referido acima, é um primor de apanhado do pensamento e das idéias
de Tom Zé, uma coletânea de textos bem articulados que vão
de crítica musical, estética e de costumes a anseios políticos
e sessões memorialistas. Traz também todas as letras compostas,
toda a discografia e uma longa e reveladora entrevista dada a Luiz Tatit
e Arthur Nestrovski. Foi lançado também em 2003 o DVD Jogos
de Armar, onde se pode ver/ouvir toda a força do som de Tom Zé
e mais um cardápio de informações e momentos calorosos
da verve do músico. O registro do show é uma oportunidade
de perceber a graça diferenciada que é a performance de
Tom Zé no palco.
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Seus shows
são um capítulo à parte, têm uma projeção
corporal arregimentada no acaso e em movimentos espontâneos, parece
que uma pulsão vem de fora e o toma em transe, é como se
o corpo quisesse projetar o que está acontecendo em sua música,
coreografar todas as dinâmicas e levadas.
Isso se alia a um instantâneo envolvimento com o público,
que é instigado constantemente com intervenções e
comentários que misturam auto-referências, sabedoria popular
com pitadas histriônicas de filosofia, arte, ciência e referências
de circunstâncias. Nos shows as canções se realizam
contando sempre com a reação da platéia, convidada
sempre a participar, as execuções podem alcançar
soluções não programadas, as pausas e repetições
são imprevistas, para quase desespero dos músicos da banda,
que na verdade já esperam de tudo e se cuidam. Aos desavisados
pode parecer dispersivo e pouco profissional, mas o que acontece ali é
a pura manifestação do despojamento estético, da
desartização do corpo, aliviá-lo de toda carga que
nutre a tradição de espetáculo, as exigências
posturais, a simetria das linguagens. Tom Zé é assimétrico
em tudo que faz, anseia a expressão plena, integralizadora.
“David Byrne criou para mim uma nova vida e me tirou da sepultura
onde eu fora enterrado na divisão do espólio do Tropicalismo”.
Com o aval legitimador do músico inglês, houve uma correria
das editorias de música e gravadoras para relançarem toda
a obra de Tom Zé em CD e convites para fazer novos trabalhos. Velhas
gerações redescobriram e perceberam que Tom Zé ainda
existe e é vigoroso, e novas gerações espantam-se
e se entusiasmam com o compositor ‘maluco’ e inteligente.
O mais recente trabalho de Tom Zé em CD é o Imprensa Cantada,
lançado pela Trama em 2003. O disco traz o mesmo vigor de tantos
outros trabalhos do compositor, a novidade maior talvez esteja na roupagem
dada aos arranjos de algumas canções, sob responsabilidade
da nova geração de músicos que têm acento na
gravadora Trama, Jair Oliveira, Max de Castro e João Marcello (Não
sei se deliberadamente ou por alguma falha de programação
do encarte, não há referência dos músicos que
tocaram no CD).
Imprensa Cantada, em sua distribuição de temas e canções,
pode ser visto em interessante paralelo com uma edição de
jornal, senão vejamos: a canção que abre o CD, com
Tom Zé cantando à capela, é Dona Divergência
(Felisberto Martins e Lupicínio Rodrigues), este seria o ‘editorial’,
que faz uma reflexão genérica sobre a guerra; em seguida
temos Companheiro Bush, que é o assunto político do ‘primeiro
caderno’, que tem também na canção Urgente
pela Paz, seu mesmo tema; a canção Requerimento à
Censura seria a seção de ‘carta do leitor‘;
para o ‘caderno cultural’, os tais segundos cadernos, temos
Desenrock-se, Vaia de Bêbado não Vale, que discutem gostos
e preconceitos na música popular brasileira, e ainda Língua
Portuguesa, um libelo encantado sobre nossa língua; o ‘caderno
de esportes’ traz Interlagos F1, uma divertida canção
sobre as emoções da fórmula 1; uma coluna de nostalgia
tipo ‘há 36 anos’, traz uma regravação
da canção vencedora do Festival da TV Record de 1968, São
São Paulo; há também neste jornal musicado a presença
de um colunista, aquele que escreve sobre o que quiser, uma espécie
de articulista, trata-se de Cole Porter com a canção You’re
the Top, vertida em português para Você é o mel por
Augusto de Campos.
Aí está uma deliberada possibilidade de leitura de uma obra
de Tom Zé, prova da diversidade e da polifônica forma de
manifestação provocada por este compositor, que articula
os gestos criativos em constante sintonia com sistemas artísticos
e musicais incisivos, diferenciados e provocadores.
Feliciano Bezerra é
doutorando em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP.
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