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Entrevista Walter Carvalho Entrevista Walter Carvalho – 2a. e última parte Por Suely Soarres e Hudson Moura
Eu me considero uma pessoa do cinema, eu vejo cinema quase como uma religião. Existe uma relação que me preparo a cada filme, seja como fotógrafo seja como diretor, eu me preparo. Acredito na força modificadora do cinema, acredito no poder da imagem, acredito no poder de sedução da imagem cinematográfica, na sala escura. Eu vivo mais da metade da minha vida dentro do cinema. Já não saberei me colocar como uma pessoa fora do cinema. O cinema e minha vida são a mesma coisa. No meu dia a dia, ou eu estou agindo no cinema ou, trabalhando ou, fotografando ou, refletindo ou, produzindo ou, fazendo ou, conversando. Eu não tenho outra experiência de vida..., a não ser o de pai, de esposo, de amigo; fora isso a minha relação é constante no cinema.
Muito diferente. No documentário quando você está fazendo, um instante desatento a vida já passou, a vida acontece independente da sua vontade. É necessário acompanhar um contraste uma dinâmica. Na ficção se constrói através do instante que compõe o cinema, roteiro, câmera, música, plano, montagem, quadro, movimento, fotografia. Isto tudo você constrói. A realidade é parada e preparada para você. Se não ficar bom você repete quantas vezes necessárias forem. Ela se repete, reconstrói, constrói até você achar que aquela realidade que você quer imprimir no filme estiver satisfeita. No documentário se você não estiver atento para aquele acontecimento, aquele gesto que está acontecendo na sua frente, você não repete mais, entendeu? Você pode conseguir outro, e até melhor. Você não repete.
O projeto do cazuza é um projeto também da Sandra Werneck e que eu dirigi a quatro mãos como Janela da alma. É uma ficção. Uma leitura, uma visão de Werneck e Carvalho sobre o Cazuza. Este filme não é um documentário.
Documentário é vida.
Eu tenho o cinema quase como uma religião, existe uma relação com o cinema quase com sendo uma religião, eu me preparo a cada filme como um sacerdote, exagero falar isso.
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Acho que cinema brasileiro tem retomadas. O cinema brasileiro nunca teve uma produção constante por questões econômicas, ele sempre foi um cinema de ciclos. Você já atravessou algum “perrengue” no trabalho com o cinema? Na verdade quando eu comecei a fazer cinema, eu não tinha o intuito de fazer cinema com o objetivo de ganhar dinheiro. Fui fazer cinema por necessidade. Alguma coisa chegou a mim e me deu alguma subsistência que eu digeri de alguma forma que me fez virar dependente do cinema. Então eu passei a fazer cinema. Alguma coisa que era uma necessidade de viver naquilo e daquilo. Eu tive um ímpeto de sair fazendo, quando menos esperei estava vivendo do cinema, criando os meus filhos do cinema. Eu não fiz nenhum investimento em estudar cinema. Agora eu sou cineasta. Sou dependente do cinema e diariamente me aplico de cinema. O “perrengue” teria sido se eu tivesse entrado em outra área. O cinema é sempre um “perrengue”, porque estou sempre construindo, estou sempre tentando fazer mais e melhor cada vez que eu faço um filme. A sensação é de estar fazendo o primeiro filme; e o próximo filme nunca será o último. Então não tem inicio e fim. Eu sou um otimista. Os pintores renascentistas levavam anos para a realização de um quadro, para fazer um teto ou uma porta de uma igreja. O processo de construção demanda tempo. Por alguma razão alguns fazem mais rápido que outros. Tudo na vida leva um tempo para plantar e para colher. E, sobretudo, o tempo de maturação. As pessoas precisam de amadurecer, e só se amadurece com o trabalho, com a vida. Há que ter tempo ao tempo. É necessário que se tenha possibilidades e tais, e se dê tempo ao próprio tempo. Não se compreende apenas por um trabalho; um período apenas da sua vida. Você leva uma vida inteira para compreendê-lo. Evidentemente os gênios, os mais capazes, às vezes, compreendem isso numa velocidade muito maior do que outros. Nem todo mundo que demora a fazer um projeto significa que vai fazer melhor que o que faz mais rápido. E o contrário também é verdade. Eu tenho tido muita sorte, uma trajetória de vida que não cruzou com a depressão. Eu acho que estamos num paralelo, ou então, a gente está num paralelo, num ângulo que vai abrindo e cada vez eu me sinto mais distante disso. Eu faço parte de um time que conhece a tristeza. Por exemplo, quando a minha mãe morreu eu fiquei extremamente triste, quando Rogério Sganzerla morreu eu fiquei profundamente entristecido, eu fiquei raivoso, inclusive porque achava que essas pessoas não poderiam morrer. Já tive momentos de tristeza na minha vida e até de medo, mas depressão eu não conheço.
Estou realizando
um documentário sobre um artista psicótico,
pintor, outsider, pintor que trabalha com a mente, com imagens do inconsciente
que mora em Brasília. Estou documentando o seu dia a dia. O titulo
provisório deste trabalho é Moacir. E também no
momento estou me preparando para o filme Veneno da Madrugada, baseado
no romance La mala hora de Gabriel Garcia Márquez com direção
do Ruy Guerra. |
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