Entrevista Walter Carvalho

Por Suely Soarres e Hudson Moura

Walter Carvalho, 56 anos (14/04/1948), é um dos mais premiados diretores de fotografia do Brasil, tendo atuado em mais de 70 filmes, entre curtas e longas, como Central do Brasil e Abril Despedaçado de Walter Salles, Pequeno Dicionário Amoroso e Amores Possíveis de Sandra Werneck, Amarelo Manga de Cláudio de Assis, Lavoura Arcaica de Luiz Fernando Carvalho, Madame Satã de Karim Ainouz e Carandiru de Hector Babenco. Recentemente foi reconhecido também pelo seu trabalho como diretor de filmes como Cazuza (ao lado de Sandra Werneck) e Janela da Alma (em parceria com João Jardim). Ele prepara o lançamento do documentário Moacir sobre um pintor de imagens do inconsciente de Brasília, e começa em setembro 2004, as filmagens da adaptação do romance La mala hora de Gabriel Garcia Márquez, O veneno da madrugada (ambos títulos provisórios).

- É sabido que você começou a sua trajetória no cinema com o seu irmão, o documentarista Vladimir Carvalho (O país de São Saruê, Conterrâneos Velhos de Guerra, Barra 68). Qual a influência que ele exerceu na sua carreira? Como está a parceria hoje?

Como irmão mais velho ele pôde apontar determinadas possibilidades que eu a partir delas desenvolvi o interesse pelo cinema. Não é à toa que o meu primeiro filme foi um filme dele: Incelência para um trem de ferro. Vladimir será sempre meu parceiro. A parceria se dá muito através da convivência, da conversa, das idéias.

- Você foi o diretor de fotografia do filme capixaba O amor está no ar de Amylton de Almeida. Você achou que a montagem final correspondeu ao projeto inicial do Amylton? Como foi o trabalho com o crítico?

Eu acho que corresponde ao projeto inicial do Amylton, mas de uma forma aproximada, porque ele não participou ativamente da montagem pelos motivos que nós conhecemos (ele era um intelectual de primeira linha que eu admirava muito). Há alguma coisa da autoria de um filme que se dá na montagem, que se processa no imaginário, que se processa na prática, que se processa nos meandros da criação da montagem, na dialética da montagem, e ele não participou efetivamente disto.

A montagem foi a partir de um trabalho feito pelos assistentes que o acompanharam, é possível que tenha alguns subsídios desta montagem que advém dos seus próprios assistentes, que corresponde a um anseio, mas trazido por uma interpretação fora dele.

O que não significa que descaracterizou de forma alguma a obra dele, acho que a obra dele já estava filmada e concluída com a filmagem. A essência do Amylton permanece, mas acredito que pequenas nuances teriam acontecido. Isto nós jamais saberemos de cátedra, a ausência ela de fato houve. Eu gostei muito de trabalhar com ele, aprendi muito com ele, ele era um intelectual, um crítico, desses que cada vez menos se vê hoje em dia, um crítico que tem um conhecimento da obra, dos fazedores do cinema, da linguagem do cinema, ele é dessa ordem. Ele era um intelectual completo, escritor, jornalista, então ele era essa pessoa atenta, com toda essa bagagem, e através disso pude perceber que eu só tinha a aprender. Colaborei com o projeto dele.

- Fale-nos de seu trabalho na direção do Janela da alma?

É um projeto cuja idéia veio do João Jardim, e em parceria com ele, fizemos o roteiro e a direção... A experiência foi extremamente gratificante. O objeto desenvolvido como tema dentro do Janela da Alma é um tema que eu tenho uma afinidade, uma identificação absolutamente literal porque eu sou bastante míope. Eu enxergo os objetos, eu vejo, eu olho através de um aparelho ótico. Eu posso retirar esse aparelho ótico, os óculos, e posso ter surpresas, dependendo da situação em que eu esteja, de observação da realidade. Eu posso ter descobertas visuais no meu dia a dia. E o filme é sobre isso, é sobre essa relação de como você vê a vida, de como você olha a vida, de como forma os objetos, a luz dos objetos, o impacto da luz sobre a paisagem. E, como é que você vê, qual é a sua interpretação através do olho, que também por sua vez é um aparato ótico. Então, o meu dia a dia enquanto fotógrafo, enquanto cidadão passa pela experiência visual, cada momento, e eu levei para dentro do filme essa experiência ao lado do Jardim. O resultado está na tela.


Continua no próximo número.

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