A repressão e a censura no cinema
de Baseado em Estórias Reais.


Jaime de Oliveira Martins

Há pouco mais de dois anos, eu tive a oportunidade de realizar uma de minhas maiores aspirações – participar de uma produção cinematográfica – ao conhecer o cineasta capixaba Gustavo Moraes. Como de fato, desse encontro adveio o convite para ser operador de vídeo-assist na equipe de produção do curta intitulado Baseado em Estórias Reais.


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Coincidentemente, o roteiro do filme era dentro de uma abordagem centrada na era da ditadura militar no Brasil, vindo de encontro aos meus anseios de pesquisador em identificar as complexas relações que se estabeleceram entre aquele regime e a comunicação: o rigor da censura , em contraponto, com o papel desempenhado pelos militantes da esquerda.

Evidentemente, não é aprazível a revisão das atrocidades e violações aos Direitos Humanos que ocorreram no período da ditadura militar (1964-1985). Não obstante, torna-se importante invocar a relevância de um tema que há de provocar o interesse das novas gerações no sentido de inibir suas alienações, tornando-as capazes de entender a sociedade em que vivem, onde impera o atual caos socioeconômico e político, em grande parte, uma herança daqueles "anos de chumbo".

Aproveita-se, então, o curta-metragem Baseado em Estórias Reais como objeto de estudo, dentro do propósito inserido no objetivo geral desta pesquisa, que consiste em avaliar a contribuição da produção audiovisual para a disseminação do conhecimento na sociedade contemporânea.

Por demais, tais situações vêm encontrar uma necessidade atual tangente à identificação das complexas relações que se estabeleceram entre aquele regime e a comunicação, envolvendo a sociedade como um todo, ou seja, requerendo um alicerce teórico-conceitual que transcende à história das produções cinematográficas.

Isto se dá em face da profundidade da discussão requerida pelo contexto político-social do enredo, cujo desfecho sugere uma análise crítica de uma época em que imperavam a censura e a repressão política. Portanto, a pesquisa discorre a partir de duas vertentes:

- a produção cinematográfica brasileira, contemplando sucintamente sua história desde o regime militar, o Cinema Novo, passando pela pornochanchada, discorrendo sobre o ciclo da Embrafilme até a afirmação do cinema brasileiro na Retomada, e ainda, o audiovisual capixaba.

- a temática da Ditadura Militar retratada em alguns dos importantes filmes dos últimos 40 anos do cinema brasileiro.

Por seu turno, a análise do filme Baseado em Estórias Reais através de uma descrição atenta e minuciosa no filme quanto às marcas dos anos de chumbo da repressão política no Brasil, com breves reflexões sobre os aspectos sociais do poder de repressão, colocando em destaque a conseqüente transgressão dos direitos e garantias constitucionais, tecendo um breve histórico da milícia armada, e, finalmente, configurando a expectativa da abertura política e o fim da censura. A análise se configura assim em quatro momentos, a partir da narrativa do filme: assalto e ação policial; tortura e assassinato; a reportagem censurada; e, a alienação aos desmandos do regime.

Embora a unidade de observação empírica seja o filme "Baseado em Estórias Reais", o objetivo central deste trabalho não se resume em avaliar o trabalho do diretor Gustavo Moraes, mas, primeiramente, consiste em avaliar a contribuição da produção audiovisual para a disseminação do conhecimento sobre fatos referentes a nossa recente história na sociedade contemporânea.

Baseado em estórias reais – A construção narrativa

O primeiro plano do enredo focaliza três personagens centrais. O primeiro é um jovem bem afeiçoado, Roberto Schmit, que como tantos outros, enveredou pelo caminho da esquerda militante nos anos 70, disposto a colaborar para com a causa revolucionária, mesmo sabendo de antemão que tal ideologia poderia resultar em sua captura e subseqüente tortura até a morte. Dentro desse contexto, o segundo personagem, não identificado pelo nome real nem sequer por um codinome (chamemo-lo simplesmente de Agente) exerce o tríplice papel de policial repressor, torturador e, ainda, censor, no final, ao passo que o terceiro personagem é Sandra, uma jornalista que presencia a ocorrência do crime e da prisão e trabalha em prol de denunciar a violência de que Roberto foi vítima. Aparecem transitoriamente no enredo, o fotógrafo Zequinha, parceiro de Sandra, e o chefe da redação do jornal em que ela trabalha (Editor).

Por seu turno, o segundo plano do filme – em montagem paralela às ações (assalto no banco, investigação da noticia na redação do jornal, a tortura de Roberto numa casa abandonada e a presença do censor tentando coagir o trabalho da repórter) do primeiro plano – focaliza um único personagem, uma senhora dona-de-casa de meia idade (no final revelada como a mãe de Roberto) quando acompanhamos os passos da sua rotina para preparar um bolo. O cenário se restringe à cozinha de sua casa, e às vezes a sala de estar, em contraponto do desenrolar do primeiro plano que, por sua vez, configura duas estórias centrais (de Roberto sendo torturado, e de Sandra tentado denunciar este fato através do jornal). Temos, então, três estórias configuradas naqueles dois planos narrativos do enredo.

Para configurar a presente análise, adotou-se uma subdivisão meramente cronológica, que coincide com a seqüência do enredo:

- No primeiro momento analisa-se o assalto com todos os sujeitos envolvidos, a ação repressiva e sua nefasta conseqüência, resultando na detenção e subseqüente encarceramento de Roberto, fatos que foram observados por Sandra, uma jornalista;
- No segundo momento, o plano do filme subdivide-se em duas ações simultâneas: tortura de Roberto e tentativa de denúncia por parte de Sandra;
- Finalizada a ação da tortura de Roberto, inicia-se o terceiro momento, com o reencontro da jornalista e do agente – agora censor – no qual a reportagem-denúncia tem sua publicação vetada.

Esses três momentos de análise também contemplam o segundo plano do filme dentro de sua cronologia iniciada em 5 de setembro, onde uma senhora prepara um bolo a partir da receita que viu no jornal. Aparentemente, os dois planos do filme não possuem nenhum vínculo, sendo que o segundo aparece fragmentado dentro da ação que está ocorrendo na redação do jornal e durante a tortura de Roberto. Apesar da relação estabelecida na passagem de um plano para outro, seja através de ritmo sonoro ou analogia entre dois momentos distintos, os dois planos só se vinculam no final do filme, quando o espectador toma conhecimento da relação entre os personagens (mãe e filho) e os planos quanto à sua cronologia e real significado. Este plano se constituirá assim num quarto momento de análise do filme.

1a. Parte
Assalto e ação policial arbitrária

Depois de falar com a sua mãe em um breve telefonema, Roberto, pensativo, respira fundo, põe o telefone no gancho e deixa o orelhão. A imagem é em close do rosto do rapaz. Ele entra num banco com uma fisionomia aparentando um certo nervosismo, seguindo outros dois jovens, uma moça e um rapaz de bigode pronunciado. Apesar de entrarem separadamente, uma troca de olhares entre eles evidencia que estão juntos. Na fila para o caixa, o rapaz nota à sua frente, uma jovem de cabelos curtos (Sandra, uma jornalista) e, além dela, uma senhora de cabelos brancos que é ajudada por uma atendente a se sentar. Acima do caixa, destacado na parede, um relógio grande indica a hora (10:50) e a data (SET. 04). O filme exibe uma perfeita caracterização da época, mostrando alguns objetos particularmente antigos em close, a fim de situar o espectador em relação ao tempo da ação. Para tanto, a câmera percorre lentamente todo o ambiente, apresentando-o integralmente antes do assalto propriamente dito. Quanto à presença de uma jornalista naquele momento, o roteiro do filme deixa claro o fato de ser meramente incidental, porém, naquela época, enquanto alguns repórteres permaneciam "em cima do muro" outros, pelo contrário, como a personagem Sandra, corriam atrás do que fosse necessário para a preservação da já limitada liberdade de expressão.

Olhando à sua volta como se checando o resto da agência, Roberto vê um segurança ao lado da porta principal de entrada do banco com uma arma no cinturão. Ao se virar de frente pra fila novamente ele deixa cair a sua carteira de identidade, porém, à sua frente, Sandra percebe e se abaixa para pegá-la. Notando a boa ação de Sandra, enquanto o relógio marca 10:52, ele pede (murmurando) que ela continue abaixada, quase no momento em que o seu parceiro saca uma pistola e anuncia o assalto: "Todo mundo no chão... Não queremos machucar ninguém... Só queremos o fim da ditadura".



Ações armadas deste gênero ligadas à ideologia política eram comuns na época. A esse respeito, deve ser comentado que a ideologia de Carlos Lamarca – conhecido ativista – conclamava o fim da ditadura acima de qualquer outro interesse. O projeto revolucionário do qual emergiu o movimento pós-golpe* teria sido anterior a 1964** e tinha como objetivo a derrubada da ordem capitalista rumo ao socialismo (Ridenti, 1993, p. 30) e, além disso, os novos grupos que surgiram passaram a privilegiar a prática em oposição ao chamado teoricismo do Partido Comunista Brasileiro*** . Era necessário agir e a prática indicaria o caminho: essa ação era a luta armada (Reis Filho, 1990, p. 70).

Sobre a ideologia voltada para o fim da ditadura acima de qualquer outro interesse, vale retomar o fato de que Lamarca, então capitão, quando rompeu com o Exército, em janeiro de 1969, deixou uma carreira brilhante para se tornar um dos principais inimigos do regime, rotulado como um traidor. Para ele, entretanto, traição significava continuar no Exército, traição à causa do povo e da nação, motivos pelo qual ingressara nas Forças Armadas. Desde que integrara em 1962 as forças da Organização das Nações Unidas na ocupação do Canal de Suez no Oriente Médio, torna-se, para ele, mais clara a consciência da pobreza e sofrimento do povo, tanto árabes como brasileiros, e que para mudar essa situação, seria necessário lutar ao lado deles, conforme José & Miranda (1980).

Voltando ao enredo, enquanto alguns gritos são ouvidos, os clientes vão se deitando no chão e, na seqüência, Roberto revela a sua pistola, até então oculta, apontando-a para o segurança (na porta do banco), que, por sua vez, põe a sua arma no chão e levanta as mãos. O parceiro de Roberto começa a passar de caixa em caixa coletando o dinheiro e os atendentes tentam se manter calmos. Por seu turno, Sandra, que permanecera abaixada, calculadamente guarda a carteira de identidade de Roberto dentro de sua bolsa. De repente, o Agente surge gritando de armas em punho, bradando: "Polícia! Abaixa as armas!".

O parceiro de Roberto pára a coleta de dinheiro e foge pela porta dos fundos. A moça também parece não ser afetada pela surpresa e foge pela porta da frente. Já Roberto continua de pé, estático. A movimentação da câmera durante a ação dentro do banco transporta o espectador para dentro da estória. No momento em que é anunciado o assalto, esta passa a acompanhar a movimentação rápida de todos os personagens, exteriorizando o desespero de Roberto diante daquela situação. Seu despreparo é evidenciado pela falta de ação perante o policial com a arma apontada para ele, mostrando a fragilidade, o receio e a falta de experiência dos jovens envolvidos na luta armada.

Receio, talvez de Roberto, porquanto a ação truculenta da repressão policial já ser uma velha conhecida dos militantes da esquerda.

A cientista política Maria Helena Moreira Alves, reflete no seu estudo sobre a relação entre o Estado, que ela denomina de Segurança Nacional, e a oposição, também associa o binômio segurança e desenvolvimento à Doutrina de Segurança Nacional, que foi:

(...) utilizada para justificar a imposição de um sistema de controles e dominação. Ela não pressupõe o apoio das massas, para a legitimação do poder do Estado, (...). A legitimidade é vinculada aos conceitos de desenvolvimento econômico e segurança interna: um slogan governamental "segurança com desenvolvimento” associava o desenvolvimento capitalista dependente à defesa da segurança interna contra o "inimigo interno”. Por sua vez, esta ênfase na constante ameaça à nação por parte de "inimigos internos” ocultos e desconhecidos produz, no seio da população, um clima de suspeita; medo e divisão que permitem ao regime levar a cabo campanhas repressivas que de outro modo não seriam toleradas (Alves, 1984, p. 26-27). (,,,) O conceito de inimigo interno aparece na nova Constituição de 1967, modificando o significado original de segurança nacional que, na Constituição de 1946, era voltado exclusivamente para a agressão externa. Com essa adaptação, o inimigo, agora, localizava-se dentro das fronteiras brasileiras (Alves, 1984, p. 108).

Esse era o argumento que alicerçava uma das formas de controle do regime para conter a oposição, ou seja, a repressão judicial. O governo militar iria ainda montar uma enorme rede de controle sobre a sociedade, criando o Serviço Nacional de Informações (SNI) em 1964, pelo ato do general Golbery do Couto e Silva.

No filme, o motivo do Agente estar no banco, “por acaso”, pode estar relacionado com o fato de o SNI ter-se transformado em uma estrutura de alcance ilimitado, atingindo todos os setores e atividades da sociedade, levando as agências do poder a ironizar o objetivo central do regime: o binômio segurança com desenvolvimento, onde o historiador Nelson Werneck Sodré afirma que:

(...) o SNI passou a controlar tudo, no Brasil. (...) como conseqüência específica de sua finalidade. Tudo, no Brasil, passou a ser vigiado. (...) Em assuntos policiais e de espionagem contra o povo, a ditadura estava, em pleno desenvolvimento (Sodré, 1987, p. 138).


Na seqüência do enredo, o Agente - um dos homens de terno escuro - aponta sua arma na direção de Roberto, que, mesmo armado, fica sem reação. Sem pestanejar, o homem atira. A bala atinge o braço de uma senhora que está sentada, perdida, atrás do jovem que se vira e a vê caindo. Esta seqüência deixa claro para o espectador que a ação arbitrária do policial, na frente de todos, não deveria ser punida ou questionada. Nota-se até mesmo a concordância de alguns presentes com este regime, expressados por alguns comentários de apoio aos policiais. A imagem choca Roberto de tal maneira que ele não nota este mesmo homem que atirou se aproximando, até que este lhe dá um murro no rosto levando-o ao chão. Em instantes, ele é algemado. Rapidamente, Roberto é retirado do banco pelos policiais, enquanto Sandra vê a senhora baleada estendida no chão e pede que alguém chame uma ambulância correndo. Aos poucos os clientes começam a se sentar, todos ainda chocados pelo evento. Entre um murmurar e outro as pessoas tentam entender o que realmente estava acontecendo.
Os cuidados com a produção do filme foram inúmeros, desde a caracterização quase estereotipada dos personagens e os closes de um relógio-calendário configurando o decurso cronológico, até a habilíssima movimentação da câmera. Tal movimentação configura uma estratégia do diretor, no sentido de fazer com que o espectador "sinta" que o personagem (por exemplo, o Roberto no banco, um pouco antes do assalto) está realmente ansioso. A trilha musical desperta a percepção do espectador: os clientes do banco, além de alienados, estão indiferentes ao que está para acontecer, até que, no momento certo, a música é estrategicamente inibida. Esse mesmo recurso é utilizado mais adiante, nas cenas em que a Senhora está preparando o bolo, para provocar a atenção do espectador para os momentos em que a ditadura é encarada com normalidade pela maior parte das pessoas.

Sandra corre na direção da porta por onde Roberto foi levado pela policia. Ao sair do banco ela vê o jovem sendo empurrado para dentro de uma Kombi com vidros escuros, sem qualquer designação aparente, estacionada numa rua lateral ao banco. As portas se fecham. Um dos homens de preto aguarda por algo do lado de fora. De repente um outro homem que havia saído em busca dos outros dois jovens volta fazendo um gesto negativo. O homem que aguardava por ele entra na Kombi e o carro sai em disparada pela rua, enquanto Sandra corre até um carro estacionado no lado oposto da rua, onde entra rapidamente e pede: "Zequinha, segue aquela Kombi. Eu explico no caminho". Por sua vez, Zequinha joga no banco de trás o jornal que antes estivera a ler calmamente, liga o carro e segue a Kombi.

Retomando a ação dos policiais, após uma seqüência em que a Senhora prepara o bolo, a Kombi estaciona em frente a uma casa bastante isolada no alto de uma colina. Dois homens saem pela parte lateral da Kombi. Eles checam as redondezas, e em seguida, um deles dá uma leve batida na lateral da Kombi que imediatamente se abre, dela saindo dois outros homens que puxam Roberto (encapuzado) em direção da casa.

Escondido, do interior de seu carro, Zequinha fotografa a Kombi e seus ocupantes enquanto puxam o jovem encapuzado em direção à casa. Sandra comenta indignada: "Filhos da puta! Nem pra delegacia não levam mais". Mais uma vez, a arbitrariedade é mostrada de forma direta ao espectador, em um regime que permitia o seqüestro ao invés da prisão, mostrando este ato como uma prática habitual em tais circunstâncias.

Jaime de Oliveira Martins é produtor de Rádio e Televisão.

Na próxima edição:
2a. Parte
Tortura, assassinato e tentativa de denúncia.

* MNR (Movimento Nacional Revolucionário) surgiu logo após o golpe de 64 e sua temática era o nacionalismo. Seus militantes vinham do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Partido Socialista Brasileiro (PSB) e de seguidores de Leonel Brizola. Em 1967, após várias prisões, alguns passam a integrar a VPR e outros partem para o exílio. Ver BNM Perfil dos atingidos. Petrópolis: Vozes, 1988, p. 92-93.

** POLOP (Política Operária) nasceu em 11.12.61, formada por estudantes da Liga Socialista, Mocidade Trabalhista de Minas Gerais, dissidentes do PCB e simpatizantes do trotskismo. No pós-64 atrai grupos militares nacionalistas. Em 1968, o grupo divide-se e uma parte viria a formar a VPR em São Paulo. Ver BNM Perfil dos atingidos, p. 38-41.

*** Sobre a linha política do PCB ver: ALMEIDA, Lúcio Flávio. Ideologia nacional e nacionalismo. São Paulo: Educ, 1995. O autor faz uma análise sucinta das perspectivas do PCB para os trabalhadores no início dos anos 60, a partir de documentação do próprio partido. p. 156 a 162.