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O Faroeste é eterno - Parte
2
Araken Vaz Galvão
II
- Um Pouco de História
Em sua origem o cinema
era usado apenas como uma fotografia em movimento. Da mesma forma que
o retrato aprisiona a fugacidade do momento, o cinema reproduzia um acontecimento
de um espaço de tempo. Conta-se que, um dia, Edwin S. Porter (1869-1941),
obscuro funcionário de uma empresa americana, daquelas pioneiras
em “noticiários cinematográficos”, por pura
preguiça, juntou diversas partes de diferentes filmes e conseguiu
um resultado assustador. Esse resultado, na prática, significava
que uma pessoa saía de casa, escurecia-se a imagem e, ao clareá-la,
a pessoa já estava chegando a um determinado destino. Estava inventada
a montagem. Dito dessa forma parece simples e óbvio; porém
antes desse ovo de Colombo, a viagem era toda filmada e podia durar uma
eternidade. Porém, há quem diga que o Porter descobriu casualmente
não foi a montagem propriamente dita – esta façanha
pertenceria mesmo a David W. Griffith – e sim o tempo cinematográfico,
uma abstração que faz com que a forma de mostrar ou sugerir
um fato dê uma idéia de tempo bem maior ou menor do que o
tempo decorrido no cinema. Assim, dez anos pode durar dez minutos ou menos
e o espectador não sente a diferença ou a aceita como algo
plausível.
Se Porter descobriu casualmente o tempo cinematográfico e Griffith
criou-se e lhe deu forma artística o que se convencionou chamar
de montagem, o que permite que uma história que tenha a duração
de cem anos possa ser projetada em duas horas, sem prejuízo da
sua real continuidade, não será relevante para nós
neste momento.
Interessa saber quem “inventou” esse gênero que tornou-se
um dos mais populares do cinema.
Essa proeza de ter dirigido o primeiro western foi dirigido coube àquele
pioneiro, já citado anteriormente, Edwin S. Porter. O nome do filme(**)
foi “O Grande Assalto do Trem” (Great Train Robbery), em 1903.
Feita essa pequena introdução, vamos falar dos westerns,
ou melhor, de alguns westerns que julgamos significativos. Desses, falaremos
de alguns que vimos já faz muito tempo e, por isso, poderemos cometer
algum erro ocasionado por falha da memória, já que nos será
impossível revisa-los nesse momento. Falaremos também de
outros mais recentes, dos quais guardamos mais lembranças. Citaremos
ainda alguns levados por informações de terceiros, como
também falaremos dos que revimos recentemente várias vezes,
justamente para escrever estas notas.
III – Os Melhores
Entra ano e sai ano e sempre se faz listas dos melhores westerns de todos
os tempos. As vezes novos filmes são acrescentados em detrimento
de velhos títulos; mas também sucede que alguns filmes permaneçam
constantes, eternizando-se em todas as listas.
Baseado puramente no nosso gosto pessoal, vamos realizar também
a nossa lista dos melhores desse gênero. Claro que vamos levar em
conta a opinião de alguns críticos, mas optaremos sempre
pelo nosso próprio gosto, embora essa preferência possa contrariar
um pouco a unanimidade.
De longe e sob qualquer ângulo, entre os melhores westerns que já
vimos, estão “O Homem que Matou o Facínora”,
“O Último Pistoleiro”, “Os Imperdoáveis”,
“Desafio de um Pistoleiro”, “Rastros de Ódio”,
“No Tempo das Diligências”, “A Paixão dos
Fortes”, “Matar ou Morrer”, “Os Brutos Também
Amam”, “Pistoleiros do Oeste”, “A Esposa Comprada”
e “El Dorado”, sem que isso implique em uma ordem de preferência
– aliás, essa lista dos “dez mais”, como se vê,
tem doze. E poderia ter muito mais que isso. Sobre cada um desses filmes
e seus respectivos diretores falaremos a continuação. Começaremos
com o diretor mais importante desse gênero e alguns dos seus filmes
que merecem figurar entre os mais importantes não só no
gênero, como no cinema em geral.
IV – John Ford (1895-1973)
John Ford – possivelmente
o maior diretor de faroestes –, além de um bom diretor de
dramas, era um poeta da imagem em movimento, dotado de um grande senso
de humor, seus filmes misturavam drama e comédia, com uma grande
dose de lirismo. A paisagem era muito bem valorizada e sempre se utilizava
dela como elemento narrativo indispensável. Nenhum outro diretor
amou tanto um gênero e a ele se dedicou com tamanha constância
e fidelidade, sem se repetir jamais.
Ford, ganhou o Oscar pelos seus filmes “O Delator”, “As
Vinhas da Ira”, “Como era Verde o meu Vale” e “Depois
do Vendaval”, curiosamente nunca foi premiado com o gênero
que ele inovou e ajudou a imortalizar, o western. De sua vasta obra, não
falaremos em detalhes, limitar-nos-emos apenas aos faroestes.
Politicamente, Ford, que
era republicano, situava-se na direita mais reacionária dos Estados
Unidos, o que prova que a posição política pode não
ter nada a ver com a obra de um artista. Esse descendente de irlandeses
tinha uma sensibilidade muito aguçada para explorar, não
só a beleza das paisagens, mas para mostrar também as peculiaridades
da alma humana, em particular, para com a alma dos brancos. Explorou,
como ninguém, o deserto do Arizona(***) e o seu Vale Monumental
(Monument Valley) de forma tão constante e intensa, que os cinéfilos
passaram a chamá-lo de “O Vale de Ford” ou a “Terra
de Ford”. Porém, foi na Irlanda e com “Depois do Vendaval”
(The Quiet Man), de 1953 –, todo filmado na verde terra dos seus
antepassados – que ele ultrapassou todas as previsões do
uso poético da paisagem. Claro que havia também, nesse filme,
todos os outros ingredientes que lhe eram gratos – e que todos os
críticos identificam em sua obra –, tais como realce na ação,
valorização de situações e elementos pitorescos,
cortes dinâmicos e precisos, criação de atmosfera
impecável à história, nostalgia, às vezes,
com um pouco amarga, em relação ao passado. Ford, cujo nome
batismal era Sean Aloysius O’Freeney, já tinha feito um belo
filme, não westerns, na Irlanda, em 1935, “O Delator”,
(The Informer), todo rodado em Dublin, quase sempre à noite, dentro
daquela neblina que, sem se propor, possuía uma certa atmosfera
noir ou – se me permitem a liberdade – existencialista, ainda
que não fosse essa a sua intenção declarada.
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Mas, se “O Delator” possuía uma densa proposta dramática,
além de uma sutil crítica ao radicalismo na militância
política – ainda que ele não tenha ousado a censurar
a resistência dos conterrâneos dos seus ascendentes aos ingleses
–, o filme que ele fez mais tarde não tinha tais veleidades.
“Depois do Vendaval”, que contava uma bela, porém,
singela história de amor, além de conseguir a proeza de
ter um elevado nível de ação, se propunha tão-somente
a mostrar uma Irlanda que já não mais existia. Não
existia na própria ilha e, muito menos, existia nos Estados Unidos,
onde viviam a maioria dos irlandeses do mundo. Há um outro detalhe,
esse filme Ford o fez em cores, pois sua intenção óbvia
era valorizar a beleza da terra natal dos seus ancestrais, mostrando seus
campos levemente ondulados, com seus infindáveis muros de pedras,
suas suaves verdes colinas, com o colorido mágicos que só
o cinema consegue mostrar.
Há algo que os estudiosos não têm realçado
com a devida ênfase, a fidelidade de Ford a um determinado grupo
de atores. E a sua preferência – mais do que a de qualquer
outro diretor – não se deu só com as grandes estrelas,
dava-se também, e mui em particular, com atores coadjuvantes. Sabe-se
que esses atores eram todos seus amigos, mas não eram escolhidos
só por serem amigos do diretor, mas por serem também bons
atores. Nos filmes de Ford, de um modo geral, lá estão,
quase sempre, John Wayne, Ward Bond, Victor McLagler, o mexicano Pedro
Armendariz, Andy Devine, Hank Worden e, menor escala, Henry Fonda, Maureen
O’Hara, entre outros. Não podemos esquecer o ator negro,
Scatman Crothers, que trabalhou com ele em vários filmes, alguns
deles com John Wayne, como, por exemplo, “O Homem que Matou o Facínora”.
Este ator trabalhou também em Último Pistoleiro”,
também com John Wayne. Ele faz o papel de Moses, o dono da cavalariça.
Tido como o homem que deu status artístico aos faroestes(****),
os melhores filmes desse gênero, que Ford dirigiu foram, segundo
a opinião da maioria dos críticos: “No Tempo das
Diligências”
(Stagecoach), de 1939, com John Wayne e Claire Trevor; “Paixão
dos Fortes” (My Darling Clementine), de 1947, com Henry Fonda
e Linda Darnell; “Sangue de Herói” (Fort Apache),
de 1949, com Henry Fonda e John Wayne; “O Céu Mandou Alguém”
(Three Godfathers) de 1949, com John Wayne e Pedro Armendariz; “Caravana
de Bravos” (Wagon Master), de 1950, com Bem Johnson; “Rio
Bravo” (Rio Grande), de 1951, com John Wayne e Maureen O’Hara;
“Rastros de Ódio” (The Searchers), de 1956, com John
Wayne e Natalie Wood; “Marcha de Heróis” (The Horse
Soldiers), de 1960, com John Wayne e William Holden; “O Homem
que Matou o Facínora” (The Man who Shot Liberty Valance)
de 1962, com John Wayne e James Stewart; “Crepúsculo
de uma Raça”
(Chayenne Autunm), de 1964, James Stewart e Richard Widmarck. Embora
estes filmes estejam em ordem cronológica, há uma quase
unanimidade em colocar “No Tempo das Diligências” e “Rastros
de Ódio”, como os melhores. Alguns autores indicam também
“Paixão dos Fortes”, como outro bom exemplar de western.
E realçam ainda “Crepúsculo de uma Raça”
porque, nesse filme, Ford – que era muito direitista, como já
foi dito – fez uma espécie de mea culpa frente a opinião
pública por ter “matado”, tantos índios em
seus filmes. Matado e justificado a matança. Isso em momentos
em que a sociedade americana tinha o primeiro choque de consciência
sobre as mazelas da história do seu país, com a reação
da juventude e intelectualidade à guerra do VietNam.
O fascículo “O Mundo do Cinema, nº 1”, confirma
a opinião de que “Rastro de Ódio” é “Considerado
pelos críticos como um dos melhores filmes de John Ford, com deslumbrante
fotografia de Winton C. Hoch pelo processo Vista Vision, que tirou o máximo
proveito das belas locações no Monunment Valley, cenário
favorito do diretor. Clássico do faroeste que mostra um veterano
do exército confederado à procura de índios que mataram
a família de seu irmão e raptaram a sobrinha. Um dos mais
pungentes retratos da solidão e da amargura concentrados no personagem
de Wayne.”
Em minha opinião, porém, o melhor faroeste de Ford é,
de longe, “O Homem que Matou o Facínora”. Estão
nele todos os seus, já citados, elementos preferidos, mas há
uma ênfase muito grande na lembrança nostálgica de
um passado que – como todo passado – já não
volta mais. Com a agravante bastante amarga de que ninguém acredita,
ou quer acreditar, que “esse passado” existiu um dia... Nele
a solidão também está realçada até
a dor. A seqüência do modesto caixão, onde está
o cadáver de Ton Doniphon, personagem interpretado por John Wayne
é de uma beleza pungente e dolorosa.
É preciso se ter em conta ainda que, embora seja um faroeste, com
todos os elementos de um filme desse gênero, “O Homem que
Matou o Facínora”, além de nos dar algumas indicações
interessantes sobre a formação histórica da sociedade
americana e mostrar alguns tipos típicos que ajudaram a construí-la,
conta uma história de amor, amor amargo, ou melhor de um desencontro
amoroso. E o faz com uma tristeza infinda. Aliás – repito
–, a solidão do personagem Tom Doniphon, o anonimato de como
ele morreu é de uma desolação, de uma aridez de evocar
lágrimas.
(**) Cenas desse primeiro
western, cuja versão integral só se pode ver em cinematecas
e em curso de cinema, são mostradas no belo filme, “A Raposa
Cinzenta” (The Grey Fox), de Phillip Borsos, de 1982, sobre a vida
do assaltante Bill Miner.
(***) Há uma interessante contradição nesta informação,
a qual colhemos no Dicionário de Cineastas, de Rubens Ewald Filho,
no verbete sobre Ford é dito que esse vale fica no estado do Arizona
(pág. 192). Já no seu “Os 100 Melhores Filmes do Século”,
pág. 139, é dito que o Monument Valley, “A terra de
John Ford”, é no estado de Utah. Não me pareceu relevante
consultar um bom mapa para dirimir a dúvida. (Sobre outras informações
desencontradas desse crítico, vê nota na página 21,
deste opúsculo).
(****) Embora tenha sido o mesmo Ford quem deu statu artístico
ao western, outros diretores de renome fizeram este tipo de filme, como
foi o caso de David W. Griffith, uma das mais importantes figuras do cinema
mundial, o pai do cinema de arte no Estados Unidos, que fez, entre outros,
“Quando o Ouro Desaparece” (Scarlet), em 1919.
Araken
Vaz Galvão é escritor e dedica seu tempo entre a
filosofia, o cinema e a literatura. Recentemente lançou o romance
Crônicas de uma Família Sertaneja publicado pela Secretaria
da Cultura e Turismo da Bahia.
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