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Pretextos à margem. Deslumbrei-me – tolamente, claro, como todo deslumbramento – como
há muito não. O diretor, a câmera, uns riscos no
chão, uma grande pedra, uns carrões que invadem o cenário,
uns poucos atores – não fosse o cachê da deusa Kidman, majorwoman,
na verdade não sei quanto ela cobrou, estou mesmo
querendo falar mal, o filme poderia ter sido baratinho –, uma mistureba genial
do essencialismo brookniano com o afastamento crítico brechtniano,
o tom fabular, recursos fáceis, óbvios, funcionais. Dos riscos, emerge a cidade, a Dogville do título – o dog, digo, o cão, também desenho, avisa os humanos dos perigos que chegam. Está toda lá, o jardim, as ruas, nada falta, nem o risco que corremos ao depararmos-nos com a alma humana (aqui entendida como a essência, nossas inscrições genéticas, o instinto, absolutamente sem absolutamente nenhum sentido transcendental) didaticamente retratada, explosões bem mais profundas, efeitos especiais bem mais devastadores – um boneco de louça estilhaçado equivale ao cogumelo sobre Hiroshima, ao homem quebrado pelo homem –; terror sem vísceras à mostra, sem musiquinha-suspense, o susto é outro, visceral, crianças no exercício da mentira, do jogo de poder.
Clique para ampliar E ela chega, a linda, sob os latidos do cão, Grace (Nicole Kidman), alienígena sem gosma, derretendo-nos com seus genes especializados, com seu aparente prazer em desempenhar o papel de vítima – perverso prazer, também presente, fique dito, no projeto genético humano –, dominada, explorada, buscando redenção por algo que não sabemos, fugida de outra ville, mais dog ainda, pelo que parece. E descobre, depois do paraíso inicial, traduzido como aceitação, pertencimento, esse conceito tão caro aos cientistas sociais, que toda ville, agrupamento humano, é palco para o exercício do poder, assim como deve ser o set de filmagem. Bom, resumindo: todos, das criancinhas às velhas, todos comem, de todas as formas, a bela, uns mais, uns menos, [uns com areia, outros com KY, sempre sem camisinha, claro, é mais gostoso, e exigência para a manutenção da espécie]. E vem o final: deve ela vingar-se, extirpando o cancro dogville da face pura da terra? Este o ponto a ser discutido. Graças a deus, ao diabo e a uma boa retórica, o diretor diz sim, vai lá, matem todos, incendeiem esse horror. Inumano, piegas, prepotente, róliudiano, crime anti-natura seria o perdão. E ela, pessoalmente, aceitando enfim seu intransferível papel de algoz, acaba com aquele que mais a comeu, profundamente, discursivamente, ideologicamente, sem penetração, convencendo-a de que dar, doar-se, é bom, ele, Tom (Paul Bettany), fugindo sempre para “além da possibilidade do soco”, covardemente, ele, tipinho facilmente encontrável em qualquer ajuntamento dito politizado, desde aqueles formados em associações de bairro até as instâncias G-5, 6, 7 da vida. Assim termina
o filme. A desgraçada Grace, ridiculamente, toma
para si a tarefa heróica de usar todos os seus muitos recursos
para limpar o mundo (diria que essa menina e o diretor andam assistindo
muito filme americano, talvez todos os Desejo de matar). O mundo livre
de dogvilles. Mas Dogville, diz-nos o filme,
ou disse-o para mim, somos todos nós. Sem salvação.
Humanos. |
E
chegamos em outro ponto, cerne do cerne, carne da minha carne: é o
homem animal pronto ou ainda em formação, um projeto
que pode ser alterado, melhorado? Digo que não – provem-me
o contrário, mesmo com essa onda genética, eugenia, duvido
que consigam alterações benéficas, pensemos, é um
todo sistêmico, tem coisa que quanto mais se mexe mais fede.
E nem essa capacidade de criar obras-espelhos como o filme aludido
justifica a manutenção da espécie – vamos
lá, mais tachinhas. Como se vê, ou, melhor, como o vejo, o filme é mesmo um filme, sem deslumbramento. E vale por isso. Pelo que tem de criação cinematográfica. Pelo resto, pouco ou nada diz que não soubéssemos desde sempre, se não pelo aprendido racionalmente, certamente pelo inscrito em nossas células, resumido no pop saber “a gente dá a mão e querem o braço”. E resta,
para reafirmar algumas teses aqui defendidas, um último ponto
sem-vergonha: além da referida escolha oportunista dos atores,
presente também no Dançando... (a escolha
da finlandesa, nem tanto, mas acabar com o glamour da Deneuve é sintomático),
há ainda, e isto é mais grave, um oportunismo histórico
ao associá-lo a uma crítica ao modus vivendi e operandi
estadunidense. Bobagem. É a varinha mágica em ação. Poderia contra-argumentar, se quisesse, mas eu não quero, pois não acredito, que a escolha do elenco, da língua, do título, da propaganda vendendo o filme como libelo anti-EUA servem a uma causa maior, a saber, mostrar ao homem sua matéria-prima. E não acredito por um único motivo: em nenhum momento o filme duvida de si, em nenhum momento o filme ri de si. O cão, o simplesmente instinto, continua vivo, latindo ao vazio do palco e ao meu. Como consolo, sempre nos restará a forma, a experiência estética, a fruição, a degustação crítica do produto adquirido. Única ética ainda possível. E é muito. E eu não preciso de mais do que isso, e eu não acredito em mais do que isso E termino, mais cinicamente: enquanto aqui estamos, dogvilles ou não, acreditando ou não na melhoria da espécie, concordes e felizes ou não com o que somos, desfrutemos, entremos em debates sobre a veracidade das pernas do Brad Pitt em Tróia, em quanto custou aquele filme, quanto rendeu na primeira semana de exibição, e em outros tão vitais quanto. Vamos ao cinema assistir todos os volumes de Kill Bill. É ótimo. Compremos a trilha, a camiseta, a roupinha amarela. E não nos esqueçamos das pipocas. Depois, para os amigos mais chatos, recitemos, do Leminski – como se vê, somos mesmo uma espécie horrivelmente bela –: “podem ficar com a realidade/esse baixo astral/em que tudo entra pelo cano//eu quero viver de verdade/eu fico com o cinema americano”.
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