Pretextos à margem.
Dogville, desmistificação ou mitificação do homem americano?

Joaquim Antonio

O cara que dirigiu (Lars Von Trier) é dogmático, pessoal sério, vi os Idiotas nada idiotas – ainda quero escrever sobre a valorização, pela tal indústria do tal império do norte, da idiotia-tomhanks, atochada-nos sempre, desde Capra, como sinônimo de pureza, inocência. (Em filme anterior, o Dançando no escuro, temos a cantora pop Bjork no papel de uma cegueta explorada, que só tem olhos para os musicais roliudianos, aquelas bobagens artificiosas e imbecis, o que não impede, ainda bem, seu enforcamento, apesar de inocente – quer dizer, inocente necas, a inocência, a cegueira, em todos os níveis, é crime.) – e outras produções do balaio deles, Festa de família, putaria nórdica-nelsonrodriguiana, mas, enfim, vi o tal do filme, em casa (não iria até aquele espaço-igreja Unibanco, constranger-me-ia sobremaneira encontrar algum conhecido, constrangimento que não sinto quando sou visto saindo de outros antros das proximidades, onde encontro e desfruto de serviços bem mais honestos), sem pipoca, não consegui parar, nem café tomei.

Deslumbrei-me – tolamente, claro, como todo deslumbramento – como há muito não. O diretor, a câmera, uns riscos no chão, uma grande pedra, uns carrões que invadem o cenário, uns poucos atores – não fosse o cachê da deusa Kidman, majorwoman, na verdade não sei quanto ela cobrou, estou mesmo querendo falar mal, o filme poderia ter sido baratinho –, uma mistureba genial do essencialismo brookniano com o afastamento crítico brechtniano, o tom fabular, recursos fáceis, óbvios, funcionais.

Dos riscos, emerge a cidade, a Dogville do título – o dog, digo, o cão, também desenho, avisa os humanos dos perigos que chegam. Está toda lá, o jardim, as ruas, nada falta, nem o risco que corremos ao depararmos-nos com a alma humana (aqui entendida como a essência, nossas inscrições genéticas, o instinto, absolutamente sem absolutamente nenhum sentido transcendental) didaticamente retratada, explosões bem mais profundas, efeitos especiais bem mais devastadores – um boneco de louça estilhaçado equivale ao cogumelo sobre Hiroshima, ao homem quebrado pelo homem –; terror sem vísceras à mostra, sem musiquinha-suspense, o susto é outro, visceral, crianças no exercício da mentira, do jogo de poder.


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E ela chega, a linda, sob os latidos do cão, Grace (Nicole Kidman), alienígena sem gosma, derretendo-nos com seus genes especializados, com seu aparente prazer em desempenhar o papel de vítima – perverso prazer, também presente, fique dito, no projeto genético humano –, dominada, explorada, buscando redenção por algo que não sabemos, fugida de outra ville, mais dog ainda, pelo que parece. E descobre, depois do paraíso inicial, traduzido como aceitação, pertencimento, esse conceito tão caro aos cientistas sociais, que toda ville, agrupamento humano, é palco para o exercício do poder, assim como deve ser o set de filmagem. Bom, resumindo: todos, das criancinhas às velhas, todos comem, de todas as formas, a bela, uns mais, uns menos, [uns com areia, outros com KY, sempre sem camisinha, claro, é mais gostoso, e exigência para a manutenção da espécie].

E vem o final: deve ela vingar-se, extirpando o cancro dogville da face pura da terra? Este o ponto a ser discutido. Graças a deus, ao diabo e a uma boa retórica, o diretor diz sim, vai lá, matem todos, incendeiem esse horror. Inumano, piegas, prepotente, róliudiano, crime anti-natura seria o perdão. E ela, pessoalmente, aceitando enfim seu intransferível papel de algoz, acaba com aquele que mais a comeu, profundamente, discursivamente, ideologicamente, sem penetração, convencendo-a de que dar, doar-se, é bom, ele, Tom (Paul Bettany), fugindo sempre para “além da possibilidade do soco”, covardemente, ele, tipinho facilmente encontrável em qualquer ajuntamento dito politizado, desde aqueles formados em associações de bairro até as instâncias G-5, 6, 7 da vida.

Assim termina o filme. A desgraçada Grace, ridiculamente, toma para si a tarefa heróica de usar todos os seus muitos recursos para limpar o mundo (diria que essa menina e o diretor andam assistindo muito filme americano, talvez todos os Desejo de matar). O mundo livre de dogvilles. Mas Dogville, diz-nos o filme, ou disse-o para mim, somos todos nós. Sem salvação. Humanos.

E chegamos em outro ponto, cerne do cerne, carne da minha carne: é o homem animal pronto ou ainda em formação, um projeto que pode ser alterado, melhorado? Digo que não – provem-me o contrário, mesmo com essa onda genética, eugenia, duvido que consigam alterações benéficas, pensemos, é um todo sistêmico, tem coisa que quanto mais se mexe mais fede. E nem essa capacidade de criar obras-espelhos como o filme aludido justifica a manutenção da espécie – vamos lá, mais tachinhas.

Se em Dançando..., temos os filmes musicais como moldura a ser quebrada, aqui são os filmes de gangsteres, com elementos bem marcados: a mocinha corrompida buscando redenção (?), os carrões e ternos pretos, as metrancas estilizadas, o amor purificador... E há o cinismo, também didático, em mão dupla: o “sem-saída” ideológico e a elaboração de um produto que se quer (ou quero-o eu) crítico, mas que alcança o seu estatuto de produto exatamente por meio dessa crítica. Demagogia, claro, das melhores já produzidas por essa indústria, de róliúd ou não – não nos esqueçamos, é um produto, e lucrativo, pelo visto: a escolha do elenco, com nomes de lá, e da protagonista, a majorwoman, a iconoclastia dessa escolha, a musa com aquela coleira tosca, rende bem, e nesse ponto o diretor, conscientemente ou não, tanto faz, faz um stripetise do seu produto, mostra-nos pornograficamente uma das faces sob a máscara, pois, creio eu, em nada o filme seria alterado se o elenco fosse outro, atores simplesmente, falantes de outra língua, se o nome da cidade fosse Pasárgada, marte, vênus, sim, o amor também é guerra.

Como toda obra que mereça o debate, e esta merece, Dogville é, em larga medida, metalingüístico, e não só em sua forma, um filme explicitando seu próprio fazer, desmontagem, como também em seu conteúdo (e aqui o uso do termo é pura licença científica), o homem usando outros homens em sua reflexão sobre que diabos afinal é o homem, esse bicho em eterno embate entre razão e instinto, encruzilhada aonde a Perfeição chegou e ficou, bestamente, contemplando a esfinge muda.

Como se vê, ou, melhor, como o vejo, o filme é mesmo um filme, sem deslumbramento. E vale por isso. Pelo que tem de criação cinematográfica. Pelo resto, pouco ou nada diz que não soubéssemos desde sempre, se não pelo aprendido racionalmente, certamente pelo inscrito em nossas células, resumido no pop saber “a gente dá a mão e querem o braço”.

E resta, para reafirmar algumas teses aqui defendidas, um último ponto sem-vergonha: além da referida escolha oportunista dos atores, presente também no Dançando... (a escolha da finlandesa, nem tanto, mas acabar com o glamour da Deneuve é sintomático), há ainda, e isto é mais grave, um oportunismo histórico ao associá-lo a uma crítica ao modus vivendi e operandi estadunidense. Bobagem. É a varinha mágica em ação.

Poderia contra-argumentar, se quisesse, mas eu não quero, pois não acredito, que a escolha do elenco, da língua, do título, da propaganda vendendo o filme como libelo anti-EUA servem a uma causa maior, a saber, mostrar ao homem sua matéria-prima. E não acredito por um único motivo: em nenhum momento o filme duvida de si, em nenhum momento o filme ri de si.

O cão, o simplesmente instinto, continua vivo, latindo ao vazio do palco e ao meu. Como consolo, sempre nos restará a forma, a experiência estética, a fruição, a degustação crítica do produto adquirido. Única ética ainda possível. E é muito. E eu não preciso de mais do que isso, e eu não acredito em mais do que isso

E termino, mais cinicamente: enquanto aqui estamos, dogvilles ou não, acreditando ou não na melhoria da espécie, concordes e felizes ou não com o que somos, desfrutemos, entremos em debates sobre a veracidade das pernas do Brad Pitt em Tróia, em quanto custou aquele filme, quanto rendeu na primeira semana de exibição, e em outros tão vitais quanto. Vamos ao cinema assistir todos os volumes de Kill Bill. É ótimo. Compremos a trilha, a camiseta, a roupinha amarela. E não nos esqueçamos das pipocas. Depois, para os amigos mais chatos, recitemos, do Leminski – como se vê, somos mesmo uma espécie horrivelmente bela –: “podem ficar com a realidade/esse baixo astral/em que tudo entra pelo cano//eu quero viver de verdade/eu fico com o cinema americano”.


Joaquim Antonio é editor da editora Annablume