Arte - Espelho Multifacetado do Ser
Renata Bomfim

O homem não cria apenas
porque gosta, e sim porque
precisa, ele só pode crescer
enquanto humano,
coerentemente, ordenando,
dando forma, criando.
Fayga Ostrower

Ansioso por aplacar sua angústia frente à complexidade do mundo, o homem moderno busca criar definições para tudo, e com a arte não acontece muito diferente. O que é Arte? Certa vez Picasso disse: “Todo mundo quer entender a pintura. Por que as pessoas não tentam entender o canto dos pássaros? Porque gostam de uma noite, uma flor, tudo o que cerca o homem, sem tentar entender essas coisas? Ao passo que quando se trata da pintura (...)”.

Eu acredito que a Arte não pode ser definida. Definir significa dar fim, esgotar, proponho que reflitamos sobre; refletir significa espelhar, especular, flectir, inclinar-se para ver melhor. Neste espelho multifacetado, configurado pela Arte, o homem pode se perceber e ver nele suas experiências refletidas. A arte não compete nem com a ciência nem com a razão, ela só pode ser explicada por ela mesma e na sua complexidade ela se realiza e se basta.


Orson Welles e Rita Hayworth na antológica cena da casa dos espelhos em The Lady of Shanghai (1947).
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Como artista plástica, dentre as possibilidades que a Arte oferece, optei pelo viés da Arteterapia. A Arte como instrumento terapêutico, não é coisa nova, os gregos já utilizavam a música, a dança, o teatro, a pintura, a escultura, nos seus processos de cura, estas expressões, inspiradas pelos deuses, possibilitavam ao homem a “Paidéia”, ou seja, o homem obra de arte, criador e ético.

A Arte tem sido uma linguagem e um canal universal de expressão da emoção humana, desde os primórdios da cultura, ainda hoje se encontram refletidas nas cavernas, cenas do cotidiano, caçadas, símbolos, deuses e demônios do homem que ali esteve há 25.000 anos.

Criar para o homem é uma necessidade, dessa forma ele comunica o seu potencial subjetivo. Através da sensação de estar contido num espaço e de ter um espaço contido dentro de si, o homem pode melhor se estruturar; suas criações revelam suas experiências como indivíduo, diante de propostas e valores existentes dentro de sua sociedade.

Materiais plásticos como argila, madeira, tintas, pedras, entre outros, são veículos para que símbolos, muitas vezes vindos de camadas muito profundas do inconsciente se apresentem a consciência como imagens, estas imagens , muitas vezes, surgem carregadas de afeto, e trazem consigo a possibilidade de que os "não ditos" sejam expressos de forma menos ameaçadora e possam ser integrados, assimilados.


A Arteterapia não nega a estética, esta negação resultaria na morte significativa deste produto da criação, a arteterapia apenas mantém o seu foco, no fazer, no produzir. Após a produção símbolos individuais e coletivos poderão ser amplificados por quem os produziu. Símbolo vem do grego Symbalem, daí vem também a palavra balística. O símbolo é algo vivo, dinâmico, certeiro, ele possibilita reunião de opostos e traz possibilidades de transformação pelo encontro do significado, assim acontece quando alguém cria e no diálogo com esta criação ela pode “especular” e “flectir” sobre si mesma, se auto-conhecendo e aceitando ou modificando se re-criando com o objetivo de cunhar uma personalidade melhor adaptada, capaz de administrar melhor seus conflitos e questões..

Para que o indivíduo possa experimentar dos benefícios da arteterapia ele não precisa ter “habilidades artísticas especiais”, mas é precisa coragem na exploração do território sagrado da alma, povoado por aspectos do Ser muitas vezes negados ou negligenciados pela consciência.
Como diz o poeta Milton Nascimento “Nada a temer se não o correr da luta, nada a temer se não esquecer o medo, abrir o peito à força, numa procura, (...) vou descobrir o que me faz sentir, eu caçador de mim”.
É a jornada do herói, que deixa sua terra natal e parte para a conquista. No caminho ele enfrenta maremotos, demônios e dragões, muitas vezes ele pensa em desistir, mas algo mais forte o impele a continuar, no fim ele resgatar a pedra de grande valor, que simboliza sua alma.

Nossa cultura vivencia uma neurose, para ser aceito o indivíduo muitas vezes nega aspectos do seu Ser, penso que a arte com cunho terapêutico, ou arteterapia, propõe uma integração, um indivíduo íntegro é inteiro, não é perfeito, ele não se deixa limitar.

Finalizo com Milton Nascimento que expressa assim este sentimento:

Lapidar minha procura, toda trama lapidar o que o coração
com toda inspiração achou de nomear gritando: alma
(...) Viajar nessa procura toda
De me lapidar
Neste momento agora de me recriar
De me gratificar
Te busco, alma


Referências Bibliográficas:
AMARANTE, P. Loucos pela vida. A trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: FioCruz, 1995.
ARNHEIM, R. Arte e Percepção Visual. Uma psicologia da visão criadora. São Paulo: Pioneira, 1980.
JUNG, C. G. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.
_________. Psicogênese das doenças mentais. Petropólis: Vozes, 1986.
MONTEIRO, Dulcinéia da Mata Ribeiro. Mulher Feminino Plural. Rio de Janeiro:Rosa dos Tempos,1998.


Renata Bomfim é artista plástica e especialista em Arteterapia na Saúde e na Educação pela Faculdade Cândido Mendes - RJ.