Revista Intermídias.com nº3

A poesia é o ponto forte desta edição não somente teremos na clássica apresentação de poemas, mas também em fotos e textos.

Pela primeira vez a língua de Cervantes desembarca em nossas páginas, o escritor e poeta Angel Mota retraça em finas linhas o cotidiano em Pistilos de ceniza e Cangrejito. Os odores dos preparos de festa, de flores e de frutos se presentificam num imaginário descritivo e songeur:
... semillas, pistilos de cenizas
y esa bulla de claro
olor a cotidiano.

                                       ***
Inventando um futuro seja como idéia ou como matéria, vidas vão se impondo e se construindo nas imagens do fotógrafo Rodrigo Rossoni e nas reflexões em que elas inspiram, como no texto de Ludmila Brandão em A terra que falta (em três atos). A terra se impõe como uma necessidade concreta e enquanto sonho.
...roubando tempo e marcando corpos,
o sonho que se fabrica atravessa o arame farpado,
rola no asfalto, se vestindo de cor e artifício.

                                       ***
Cecília fez tudo como sempre igual. Acordou cedo. Tomou as ruas. Calor intenso. Dia duro de trabalho. Fim do dia. Volta para casa. Desvia o caminho. Entra no cinema. O grande retângulo branco enquadra o seu olhar. Mantém-lo em suspense por segundos. Olhos fixos. Espera ansiosa. Espanto. Descrédito. Surpresa. Cecília é a protagonista de uma história que sabia existir apenas em sonho. É a magia do cinema de Woody Allen poeticamente revisitada por Telma Valente em Ficção e realidade como simulacros em A Rosa Púrpura do Cairo.

                                       ***
Filmar é escutar! Eis mais uma máxima do documentarista Eduardo Coutinho. Suas palavras devem ser levadas tão a sério quanto a sua brilhante carreira cinematográfica, a qual inclui clássicos como Cabra marcado e Dona Flor. Sua entrevista é uma conversa, e seu discurso, recheado de conhecimentos e técnicas, é uma verdadeira aula de cinema. Veja nesta edição a segunda parte da entrevista inédita – com exclusividade do que não entrou na montagem final do documentário O cinema do Encontro (2004) – concedida às diretoras Alcimere Piana e Daniele Nantes. Coutinho tem uma capacidade inigualável de transformar pessoas comuns em personagens inesquecíveis do cinema brasileiro: “É a velha história, não adianta ter uma vida extraordinária se a pessoa não sabe contar bem essa vida. E, a força vem do afeto, vem da crença da pessoa no que ela mesma disse, e aí tem criação vocabular”.

                                       ***
Na televisão, o dramaturgo irlandês Samuel Beckett teve a possibilidade de aperfeiçoar a sua estética minimalista e a fragmentação do corpo dos personagens de uma forma que o teatro não permitia, e ao mesmo tempo inovou a linguagem teatral ao trabalhar neste meio a partir das suas experimentações com a televisão. Paradoxalmente Beckett acreditava que o meio – o teatro – dialogava de uma certa forma com a performance e que a transcriação para o audiovisual não permitiria este diálogo. Em Tempo, memória e tecnologia na transcriação de Beckett para a televisão e o cinema, a pesquisadora do audiovisual Gabriela Borges levanta a discussão com relação tanto à criação artística quanto à crítica do trabalho de Samuel Beckett a partir do projeto Backett on film realizado em 2001 por diretores como Neil Jordan, Atom Egoyan e Anthony Minghella.



                                       ***
A publicidade é a ultima conquista do Novíssimo cinema brasileiro. O cinema como meio de comunicação e entretenimento sempre buscou artifícios multilaterais para continuar prendendo a atenção de seus espectadores e aperfeiçoando sua linguagem. O cinema nacional em sua retomada, absorve todo aprendizado de seus diretores no período em que estiveram na tv. No entanto, toda produção publicitária segue princípios estéticos de representação. Em A influência da estética publicitária no cinema contemporâneo brasileiro. Uma leitura pós-moderna da retomada do cinema nacional, os publicitários e videastas Vinicius Lellis, Anne Katherine e Marcos Pazeto mostram como se construiu a estética da publicidade no cinema e, em especial como o cinema brasileiro absorveu todo esse conhecimento durante os difíceis anos da era Collor. Esse aprendizado é percebido na fotografia, na movimentação de câmera rápida e nos cortes secos. Somos convidados, por exemplo, a uma pobreza bela, limpa e saudável em suas cores e formas pós-modernas.

                                       ***
A partir do filme Uma mente brilhante do diretor Ron Howard, Soleni Fressato interroga sobre a imbricada relação entre emoção e razão. Será que eles são mesmo opostos e que não coabitam o mesmo espaço? A emoção é cerebral? Sinto e faço, logo penso: reflexões em torno da relação entre emoção e racionalidade a partir do filme Uma Mente Brilhante refaz o caminho a partir de dois sistemas de hipóteses que se complementam, um com base na epistemologia e outro na neurobiologia. Somente assim é possível refletir sobre o papel da emoção na estrutura do pensamento.

                                       ***
Em Tortura, assassinato e tentativa de denúncia. A segunda parte da análise do filme Baseado em Estórias Reais, Jaime de Oliveira Martins narra o processo de censura e tortura no Brasil nos anos da Ditadura Militar. O pesquisador decompõe as minúcias do filme, como, por exemplo, no refinamento da caracterização do cativeiro. As manchas de sangue "já existentes" onde o personagem Roberto é levado, deixa evidente que a tortura é prática comum naquele local, afastando qualquer possibilidade de que o espectador veja a agressão a Roberto como prática isolada. Ou, na prática da censura nas redações dos jornais. Em nenhum momento, existe contestação por parte do censor quanto à capacidade da repórter no exercício de sua profissão, pelo fato de ser mulher. Muito pelo contrário, ela é elogiada quanto ao seu talento na ocasião em que teve a reportagem censurada e foi repreendida justamente por não estar servindo aos propósitos da ditadura.

                                       ***
E não deixe com certeza de conferir as dicas literárias do jornalista Nicodemus Pessoa, elas estão na Estante Magazine em Literatura.

                                       ***
Boa leitura, obrigado pela colaboração e, continue nos enviando seus textos e colaborando com o debate midiático-intelectual.

 

 


Hudson Moura
31/05/2005